Visitando a Inglaterra de Jane Austen

Viajando pela Inglaterra para visitar a casa de Jane Austen, as ruas de Bath por onde seus personagens andavam e Chatsworth, o modelo vivo de Pemberley de “Orgulho e Preconceito”.

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PASSADO, PERFEITO – Chatsworth, que teria sido o modelo para Pemberley em ‘Orgulho e Preconceito’. CHRISTOPHER SIMON SYKES/THE INTERIOR ARCHIVE.

Por JOY Y. WANG – The Wall Street Journal

É UMA VERDADE universalmente reconhecida que um homem solteiro de posse de um quarto vago deve estar com falta de inquilinos.

Esse foi o caso, pelo menos, com o quarto em Londres que eu reservei através do site de aluguel de casas Airbnb. Meu anfitrião era um atraente advogado australiano de 33 anos e, como por encanto, eu imaginei um romance desenrolando como em um enredo Jane Austen.

Tal encontro se encaixaria perfeitamente no arco da história dessa viagem. Dias antes do meu aniversário de 30 anos, eu estava em uma missão: a experiência conhecer a Inglaterra de Jane Austen e decidir se esse mundo possui qualquer relevância para uma mulher de hoje, especialmente aquela que, pelos padrões da época de Austen, seria considerada positivamente uma solteirona.

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Cópia do livro Orgulho e Preconceito de JOY Y. WANG FOR THE WALL STREET JOURNAL

Eu fui devota de Jane Austen desde a primeira leitura de “Orgulho e Preconceito” com 15 anos, e em meu aniversário mais importante eu senti que era a hora certa para explorar um país que eu tinha lido extensivamente, mas nunca visitara. Eu veria se as águas minerais de Bath poderiam me curar de muitas horas passadas em frente a uma tela de computador e muito poucos gastos na academia. Talvez uma visita à casa de Jane Austen na vila de Chawton, onde viveu quando “Orgulho e Preconceito” foi publicado pela primeira vez há 200 anos, seria a chama para as minhas ambições de tornar-me escritora. Eu andaria pelos jardins de Chatsworth, a grande propriedade em Derbyshire, pensando o quanto inspirou Jane Austen em sua descrição de Pemberley em “Orgulho e Preconceito”.

Poderia eu encontrar meu Mr. Darcy, meu Mr. Knightley, meu Edward Ferrars no inicio da viagem? Parecia perfeito demais! Era muito perfeito! Eu, rapidamente, percebi que (sendo uma mulher solteira e ocupada) eu não tinha tempo para explorar a possibilidade de amor com este escudeiro do Airbnb. Eu tive que pegar um trem para Bath, uma hora e meia de distância.

Jane Austen finalizou seis romances em sua vida e Bath, um lugar valorizado pelos antigos romanos por suas fontes termais, serviu de cenário para “Abadia de Northanger” e “Persuasão”. A protagonista ingênua de “Abadia de Northanger”, Catherine Morland de 17 anos, ficou deslumbrada com a cidade, enquanto Anne Elliot, com 27 anos, de “Persuasão” “persistiu de uma forma muito determinada… sua aversão à Bath.” Eu gostaria de pensar que tenho mais em comum com a inteligente e intrépida Anne, mas ela chegou a Bath em um dia sombrio, enquanto eu tive a vantagem de descer do trem em uma tarde ensolarada.

Fui direto para o Jane Austen Centre, um pequeno museu dedicado a escritora. A moradia fica a 15 minutos a pé da estação de trem e é fácil de identificá-la: Basta olhar para as recepcionistas vestidas em trajes regenciais completos. O tour começa no andar de cima com uma introdução à vida de Austen e uma explicação sobre o tempo que viveu em Bath. Embaixo há uma pequena coleção de trajes de época e objetos.

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http://www.janeausten.co.uk

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Um rack de roupa em um canto chamou minha atenção; na busca por uma experiência “Austeniana” completa, eu decidi colocar a dignidade de lado. Um guia do museu ajudou-me a garantir um vestido de cintura império sobre minha blusa e calça jeans, insistindo em um xale por causa do decoro. Nós incluímos luvas, um bonnet e um leque. Sentindo-me superaquecida e cheia de acessórios, eu triunfei como a fã de Jane Austen mais descarada e mais nerd da tarde. Para melhor ou pior, não havia homens elegíveis vagando em torno do Jane Austen Center para testemunhar a minha estranha glória.

De volta as minhas roupas contemporâneas, eu corri para os Banhos Romanos, um complexo  spa antigo que virou museu, para visitar as ruínas e provar as águas minerais. A água distribuída era quente e seu sabor ligeiramente metálico. Semanas bebendo essa água pode fazer algum bem, mas apenas um gole não teve qualquer efeito perceptível no meu bem-estar.

Para terminar o dia, eu me guiei a pé pelas ruas atravessadas por Anne e Catherine. Enquanto naqueles dias sombrinhas e carruagens puxadas por cavalos eram a maioria e hoje estão ausentes, muito da arquitetura da cidade é a mesma que na época de Austen, incluindo o Assembly Rooms da era georgiana construído com as pedras de cor creme de Bath. Iris Lutz, presidente da Sociedade Jane Austen da América do Norte, tinha recomendado que eu fosse pelo caminho de cascalho que se estende ao longo da vasta margem oriental, desde o bem cuidado Royal Victoria Park até o Royal Crescent, uma linha curva de moradias do século 18. No final de “Persuasão”, Capitão Wentworth pede Anne Elliot em casamento naquele mesmo caminho, depois que superar anos de separação e mal-entendidos. O espaço cênico estava tranquilo em comparação com as ruas apinhadas de turistas nas proximidades. Gostaria de uma proposta neste mesmo lugar, eu decidi. Seria romântico e discreto.

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Royal Crescent | Captura do filme Persuasão, 2007- ITV – PBS – YLE

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Assembly Rooms | Fonte: http://georgianaduchessofdevonshire.blogspot.com.br/

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Assembly Rooms | Fonte: National Trust

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Royal Vitoria Park | Fonte: http://www.bath.co.uk/attractions/royal-victoria-park

No dia seguinte, outro trem e um táxi me levaram ao charmoso Chawton, no condado de Hampshire. Comecei com almoço na Cassandra’s Cup, um café decorado com algodão florido e nomeado assim pela amada irmã da autora. Fortalecida com um sanduíche grelhado e chá, eu cruzei a rua em direção ao Jane Austen’s House Museum.

Fonte: https://www.facebook.com/JaneAustensHouseMuseum/?fref=ts

Fonte: https://www.facebook.com/JaneAustensHouseMuseum

A peça central do museu é a casa onde Austen viveu de 1809 até pouco antes de sua morte em 1817, anos em que ela desfrutou do grande sucesso como uma escritora. Eu andei pelas salas, admirando o bordado de Austen em um xale e tentando decifrar suas cartas, escritas com letras finas e inclinadas. Notei que o armário onde fica seu lavatório teve um entalhe na transversal da prateleira mais alta para que ela não batesse a cabeça depois de jogar água em seu rosto.

Eu perguntei a curadora do museu, Louise West, se ela considerava as heroínas de Austen bons exemplos para mulheres jovens, ou se elas reforçam a ideia de que o casamento é o objetivo final de uma mulher. Ela admitiu que Fanny Price de “Mansfield Park” é um personagem difícil gostar (a mãe de Austen chamava a personagem “insípida”) e Emma Woodhouse de “Emma”, começa por ser uma terrível esnobe. “Orgulho e Preconceito” é o romance de Austen que Ms. West mais recomenda para as meninas.

“A bravura de Elizabeth é uma grande coisa para a mulher moderna”, disse ela, citando uma cena em que Elizabeth Bennet resiste a rica, poderosa e exigente Lady Catherine.

Ms. West acrescentou que a romancista também serve como modelo para os dias atuais:

“Não há dúvida de que, sob seus próprios termos… Austen era um feminista”.

O pai de Austen morreu quando ela tinha 29 anos e as finanças da família diminuíram durante vários anos, até que seu irmão recebeu uma herança. Ela pensou estar apaixonada mais de uma vez, e recebeu uma proposta de um amigo da família. Mas, apesar da pressão sócio financeira, Jane Austen nunca se casou. Talvez, como Lizzy Bennet, que rejeitou o Sr. Collins, o primo hipócrita escalado para herdar o espólio de seu pai, ela não estava disposta a casar por nada além de amor. As opções de Austen beneficiaram gerações de leitores, que quase certamente teriam sido privados de seus trabalhos se ela tivesse tido um casamento tradicional.

Depois de uma noite em Londres, um passeio de trem de três horas e uma viagem de ônibus, eu cheguei ao Rutland Arms Hotel em Bakewell, uma pitoresca cidade perto de Chatsworth nas colinas de Peak District na Inglaterra. Uma lenda local diz que Austen se hospedava no hotel acolhedor e com paredes de pedra, que foi construído em 1804. Passei a tarde explorando a igreja local e cemitério. Vaguei ao longo do rio Wye, que suas arestas verdes. Eu estava sozinha, mas mais contente do que eu havia sentido em anos.

Fonte: https://commons.wikimedia.org

Fonte: https://commons.wikimedia.org

Chatsworth foi o meu destino na parte da manhã. Com o meu táxi cortando uma área arborizada e virando em uma curva, a propriedade apareceu no horizonte, cumprindo perfeitamente a descrição de Austen sobre Pemberley:

“Uma bonita construção grande de pedra, que se levanta do chão apoiada por uma crista de altas colinas arborizadas e na frente, um riacho natural de certa importância.”

Confesso que meus ideais feministas desapareceram, temporariamente, nesta visão impressionante. Para ser dona de tudo isso, eu pensei, teria até mesmo considerado casar com Mr. Collins.

Chatsworth | Fonte: http://www.beenthere-donethat.org.uk/

Chatsworth é a residência do duque e da duquesa de Devonshire, mas é aberto ao público. Passeios pela casa e jardins consumiram um dia inteiro; os destaques incluem uma vasta sala de jantar com um conjunto de jantar formal, as galerias cheias de pinturas e esculturas, as  estufas, jardins e fontes…

Eu tinha reservado um serviço de chá da tarde nas salas de Cavendish, próximos aos estábulos em Chatsworth. Sentada em uma mesa de frente para o pátio ensolarado, peguei minha cópia desgastada de “Orgulho e Preconceito”. Eu pretendia ler enquanto eu comia, um escudo para os solteiros em todo o mundo. Mas os sanduíches, creme de leite e outras delícias chegaram e eu coloquei o livro de lado. Eu era uma mulher adulta viajando e comendo sozinha e eu não iria me sentir estranha ou me desculpar por isso.

Voltando a Londres, eu percebi que o modelo mais atemporal não está em um dos livros de Austen. Mesmo a espirituosa e inteligente Lizzy existe em um mundo fictício, onde finais felizes são um dado adquirido. Jane Austen em si é o personagem mais impressionante de tudo. Numa época em que as mulheres tinham poucas opções, ela fez escolhas não convencionais para si mesma e deixou um legado que já dura dois séculos.

Mais informações: A Inglaterra de Jane Austen

OB-YE152_austen_DV_20130712121832Onde ficar: Reservar um quarto ou apartamento através Airbnb (airbnb.com ) é uma forma bem barata para ficar em Londres; Bath e Chawton são passeios fáceis de um dia. O Rutland Arms Hotel em Bakewell, Derbyshire, tem uma equipe atenciosa e fica a 10 minutos de carro da propriedade Chatsworth (de US$102 a noite – www.rutlandarmsbakewell.co.uk).

Locomoção: National Rail (nationalrail.co.uk) e East Midlands Trains (eastmidlandstrains.co.uk) saem de Londres para Bath, Alton (perto Chawton) e Matlock (perto Bakewell).

Onde Comer: Cassandra’s Cup, em frente ao Jane Austen’s House Museum em Chawton, servem pratos clássicos ingleses como biscoitos, sanduíches e chás ( cassandrascup.co.uk ). O Bakewell Pudding Shop serve a especialidade pelo qual é conhecido: massa folhada ricamente recheada com amêndoas (the Square, Bakewell, www.bakewellpuddingshop.co.uk).

Lugares: O Jane Austen Centre em Bath exibe trajes de época e documentos (40 Gay St., janeausten.co.uk). O Jane Austen’s House Museum em Chawton, residência onde viveu Jane Austen até o fim de sua vida (jane-austens-house-museum.org.uk ). Em Chatsworth, com mais de 30 quartos e mais de 1.000 acres de propriedade, é aberto ao público (chatsworth.org).

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Fonte: http://www.wsj.com

Marcia Bock Belloube

Tradutora e revisora, apaixonada por livros, filmes e cultura britânica. Fã e leitora incondicional de Jane Austen e Chalortte Bronte, mas não recuso um bom livro de escritores contemporâneos.

  • Tamires

    Adorei! Fiquei imaginando como seria bom visitar esses lugares tão importantes para nós, fãs de Jane Austen! <3

    • Maria Sônia Oliveira

      Sonho de Janeite! Deviam fazer um doce com esse nome! XD

  • Dandara Machado

    Maravilhoso, talvez um dia, se Deus quiser, eu possa fazer o mesmo…
    Muito obrigada,
    Dandara

    • Maria Sônia Oliveira

      Vamos juntas! 🙂