Virginia Woolf, uma infância feliz

Virginia Woolf nasceu em Londres em 25 de janeiro de 1882, no número 22 da Hyde Park Gate. A casa originalmente tinha cinco andares, os Stephen lhe acrescentaram mais dois, com uma fachada atroz. É um prédio alto, escuro e nos fundos tem um jardim bem grande. No topo da casa havia dois quartos de crianças ocupados pelos filhos do segundo casamento de Leslie, Laura, filha de Minny, viveu isolada até ser enviada a um lar e, mais tarde, a um asilo em York. Gerald, George e Stella já tinham passado e muito da fase de habitar quartos de crianças quando Virginia os conheceu. Assim esses quartos constituíram uma unidade de quatro membros: Vanessa, Thoby e Virginia, seguidos por Adrian nascido em 1883, e não havia entre eles grande diferença de idade.

Stephen-Duckworth group, em 1892

Stephen-Duckworth group, em 1892 (Horatio Brown, Julia Duckworth Stephen, George Duckworth, Gerald Duckworth, Vanessa, Thoby, Virginia, and Adrian Stephen em Talland House com o cão Shag.)

Sob um aspecto Virginia foi uma criança incomum: levou muito tempo para aprender a falar adequadamente; não o conseguiu antes dos três anos. Sua irmã e, sem dúvida, seus pais estavam muito preocupados. Como Vanessa, ela era notavelmente bonita: um bebê gordinho de rosto redondo, com cílios e boca de estatueta budista, traços marcados, mas de uma suavidade exótica. Tinha faces rosadas e olhos azuis — assim a irmã a recordava, batendo impacientemente, na mesa do quarto de crianças, exigindo o café da manhã, que ainda não aprendera a pedir com palavras.

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Virginia e Adrian Stephen jogando cricket, em1886

Desde o início sentiram que ela era imprevisível, excêntrica e propensa a acidentes. Podia dizer coisas que faziam os adultos rir com ela e outras coisas que faziam as crianças rir dela. É nesse período que podemos inserir um acidente em Kensigton Gardens, quando, não pela última vez, ela perdeu os knickers*, ou pelo menos perdeu o controle sobre eles. Sumiu num arbusto e lá, afim de distrair a atenção entoou The last rose of summer, com o máximo de voz que tinha. Foram essas desventuras e outras similares que lhe conquistaram, no quarto de crianças, o apelido de “a cabrita”**

Julia Stephen com os filhos, em 1894

Julia Stephen com os filhos, em 1894

Nenhuma das crianças foi batizada, pois Leslie teria considerado esse ato ridículo e até profano, mas todas tinham uma espécie de padrinho “pessoa de relação quase patronal”. O padrinho de Virginia era James Russel Lowell. A quem ela escreveu uma carta aos seis anos de idade. É o primeiro documento de sua mão:

MEU QUERIDO PADRINHO VOCÊ ESTEVE NOS ADIRONDACKS E VIU UM MONTE DE FERAS SELVAGENS E UM MONTE DE PASSARINHO NOS SEUS NINHOS VOCÊ É UM HOMEM MAL PORQUE NÃO VEM AQUI ADEUS SUA AFE VIRGINIA

Na visita seguinte do padrinho ela ganhou um pássaro numa gaiola e isso provocou ciúmes dos irmãos.

As crianças dormiam no quarto que ficavam no sótão da casa e lá, desde bem cedo, Virginia tornou-se a contadora de histórias da família. Quando se apagavam as luzes, exceto a que vinha do fogo dos carvões bruxuleantes, ela começava suas histórias. Havia uma envolvendo a família Dilke, os vizinhos do lado, que continuava noite após noite.

Antes de Virginia completar 7 anos, Júlia tentava lhe ensinar latim, história e francês. Enquanto Leslie introduzia as crianças na matemática. O único de seus filhos com aptidão para matemática foi Thoby. A aritmética de Vanessa nunca passou de rudimentar e Virginia continuou a vida toda a contar nos dedos.

Julia Stephen ensinando os filhos, em.1894

Julia Stephen ensinando os filhos, em.1894

As melhores lições provavelmente eram dadas fora das horas de aula. Quando não estava ensinando, Leslie podia ser um pai encantador; tinha talento para desenho, e com ele deliciava os filhos; sabia contar histórias de vertiginosas aventuras nos Alpes, ocasionalmente recitava poesia, e à noite podia ler em voz alta, muitas vezes romances de Sir Walter Scott, e pedia aos filhos que debatessem o que tinham ouvido.

Havia outras fontes de encantamento. Thoby voltava para casa de seu primeiro colégio — Evelyns — e, com um modo esquisito e tímido — andando para cima e para baixo nas escadas enquanto falava —, contava a Virginia sobre os gregos, Tróia e Heitor, e todo um mundo novo que prendeu a fantasia dela. Talvez tenha sido então que ela decidiu um dia, como Thoby, aprender grego; e talvez então tenha percebido que os gregos pertenciam a Thoby de um modo como não pertenciam a ela, e faziam parte de uma grande província masculina da instrução — penso que era assim que ela encarava isso – da qual ela e Vanessa estavam excluídas.

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*Calções até pouco abaixo do joelho (N do T)
** Em inglês Goat (N do T)

Trecho do livro:

Virginia Woolf, Uma Biografia
Tradução de Lia Luft
Editora Guanabara, 1988.

Imagens: Leslie Stephen’s Photograph Album
http://www.smith.edu/

┼Ψ╬† sσnia ┼Ψ╬┼

Gosto de tudo da Inglaterra: literatura, filmes, séries, sitcons, sotaque, educação, polidez, costumes, parques, praças, arquitetura… Tudo! Fui Influenciada pela literatura inglesa que eu li avidamente. Morar lá é o meu objetivo de vida.