Segunda ou Terça-Feira

Henri Matisse

Henri Matisse

Lenta e indiferente, vibrando o espaço facilmente com as asas, sabendo seu curso, a garça voa sobre a igreja sob o céu. Branco e distante, absorto em si mesmo, o céu eternamente cobre-se e descobre-se, move-se e demora-se. Um lago? Que se apaguem suas margens! Uma montanha? Ah, perfeito — o ouro sol no seu dorso. Lá ele declina. Fetos, depois, ou brancas plumas, para sempre e sempre.

Desejando a verdade, aguardando-a, laboriosamente destilando umas poucas palavras, para sempre desejando — (à esquerda começa um clamor, outro à direita. Rodas arrancam divergentes. Ônibus conglomeram-se em conflito) — para sempre desejando — (com doze batidas distintas, o relógio assevera ser meio dia; a luz irradia escamas douradas, crianças fervilham) — para sempre desejando a verdade. A cúpula é rubra; moedas pendem das árvores; a fumaça arrasta-se das chaminés; clamor, brado, pregão — “Vende-se ferro” — e a verdade?

Radiando para um ponto, pés de homens e pés de mulheres, negros e incrustados a ouro — (Este tempo nublado — Açúcar? — Não obrigada — A comunidade do futuro)— a chama dardejando e enrubescendo o aposento, exceto as figuras negras com seus olhos brilhantes, enquanto lá fora um caminhão descarrega, Miss Fulana toma chá à escrivaninha e vidraças preservam casacos de pele.

Trêmula, luz folha, à deriva nas esquinas, estirada sob as rodas, salpicada de prata, lar ou não lar, recolhida, dispersa, desperdiçada em películas separadas, arrebatada, derrotada, arruinada, harmonizada — e a verdade?

Recordar agora à lareira junto ao quadrado branco de mármore. Ascendendo das profundezas de marfim, palavras difundem negrume, florescem e penetram. O livro quedo; na flama, na fumaça, nas centelhas instantâneas — ou agora singrando, o quadrado de mármore pendente, minaretes abaixo e mares indianos, enquanto o espaço acelera-se azul e os astros cintilam —verdade? Ou agora, contente com a intimidade?

Lenta e indiferente, a garça retorna; o céu vela as estrelas; e então as revela.

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Livro: Uma Casa Assombrada Contos
Editora Nova Fronteira 1984
Tradução: José Antonio Arantes
Pintura de Henri Matisse “Woman on a Sofa”