Ancestrais

Ao responder a Jack Renshaw, que fizera um tolo comentário sobre não gostar de assistir a partidas de críquete, Mrs. Vallance desejou encontrar uma maneira de mostrar-lhe o que a cada instante se tornava mais flagrante numa festa como aquela: o fato de que, caso seu pai ainda vivesse, as pessoas compreenderiam quão trivial, quão desagradável — não, não tão desagradável quanto ridículo e feio —, quão insignificante lhe parecia aquilo tudo, se fos­se comparado a homens e mulheres verdadeiramente simples e dignos, como o seu pai, como a sua querida mãe. Como fora diferente a mentalidade dele, a vida dele; e sua mãe; e ela própria, com que diferença, total diferença, fora educada.

— Aqui estamos todos reunidos — disse de súbito —, encerrados num cômodo tão ínfimo como um forno, quando lá na Escócia, onde nasci, esta­ríamos todos —: devia-o àqueles jovens superficiais, que afinal eram simpáticos, embora apequenados, isso de fazê-los compreender o que sentiam o seu pai, sua mãe e também ela mesma, pois no fundo era igual a eles. E então, num jato, ocorreu-lhe que devia ao mundo isso de fazer os homens compreende­rem que seu pai, e sua mãe, e ela também, diferen­çavam-se muito de todos.

Certa vez ficara em Edimburgo por uma noite, disse Mr. Renshaw.

— A senhora é escocesa? — indagou ele.

Então ele não sabia quem fora o seu pai, que ela era a filha de John Ellis Rattray, e que sua mãe era Catherine Macdonald; e só uma noite em Edim­burgo! No entanto ela passara todos aqueles maravi­lhosos anos lá, lá em Elliotshaw, na divisa da Nortúmbria. Lá vivera dias muito intensos cercada de groselheiras; lá apareciam os amigos de seu pai, e, ainda apenas uma menina, ouvira conversas sobre os mais admiráveis assuntos de seu tempo. Conse­guia vê-los ainda; seu pai, Sir Duncan Clements, Mr. Rogers (o velho Mr. Rogers, seu modelo de sábio grego), sentados debaixo do cedro, após o jantar, à luz das estrelas.

Discorriam sobre tudo o que havia no mundo, agora tinha essa impressão; eram bastante generosos para que alguma vez rissem de alguém; tinham-lhe ensinado, embora ainda apenas uma menina, como render culto à beleza. Mas ali, naquele cômodo as­fixiante de Londres, o que podia haver de belo?

— Oh, essas flores, que judiação — exclamou. Pois um ou dois cravos de fato haviam sido espezi­nhados, pétalas de flores amassadas e esmagadas. Pois sentia muito pelas flores. Sua mãe tinha adora­ção por flores; desde criança aprendera a compreen­der que machucar uma flor era machucar o que ha­via de mais delicado na natureza. A natureza sempre fora uma paixão sua; as montanhas, o mar. E ali, em Londres, olhava pela janela e só via casas. Era incômoda a sensação de seres humanos comprimidos uns sobre os outros em caixas minúsculas. Havia uma atmosfera na qual ela não conseguiria viver; sim, ela mesma; pois agora mal suportava passear por Londres vendo crianças pelas ruas. Talvez ti­vesse uma sensibilidade exacerbada; a vida seria in­suportável se todos fossem como ela, mas quando se recordava da infância, e do pai e da mãe, e da be­leza e do desvelo que prodigalizavam…

— Mas que lindo vestido! — observou Jack Renshaw.

E isso pareceu-lhe deveras inconveniente — um jovem não devia prestar atenção em roupas femi­ninas. Seu pai venerava as mulheres, mas ja­mais pensara em reparar no que usavam. E entre aquelas moças — as moças deveriam ser graciosas —, não havia uma só que pudesse qualificar de bela, pois lembrava-se de sua mãe, de sua soberba e que­rida mãe, que jamais se vestira de maneira diferen­te fosse inverno ou verão, recebessem ou não visitas, que gostava de ver-se sempre com um laço e um ves­tido preto, ou, ao envelhecer, com uma pequena tou­ca. Depois de enviuvar, sentava-se horas a fio rodea­da de flores, dando a impressão de estar não na com­panhia delas, mas na de fantasmas, sonhando com o passado, o qual, Mrs. Vallance pensou, de algum modo é bem mais real que o presente. Mas ora!

É no passado, convivendo com aqueles homens e mulheres extraordinários, que vivo de fato; eles é que me conheceram; só aquela gente (e pensou no jardim iluminado pelas estrelas e nas árvores e no velho Mr. Rogers e no pai, vestindo o paletó de linho branco, a fumar) me compreendeu. Sentiu os olhos amolecerem e aprofundarem-se, como que na iminência de serem assaltados por lágrimas, enquanto, ali de pé na sala de visitas de Mrs. Dalloway, olhava aquelas pessoas, aquelas flores, aquela multidão falante, animada, ruidosa; e a si mesma, aquela menininha que precisava viajar para tão lon­ge, a dócil Alice, colhendo flores, saltitante, que de­pois sentava na cama do sótão impregnado do aro­ma de pinho e lia historietas, lia poesia. Lera Shelley inteirinho entre os doze e os quinze anos, e costu­mava recitar os poemas para o pai, as mãozinhas atrás das costas, debaixo do olhar atento dele. En­quanto contemplava este quadro de si mesma, as lágrimas começaram, vindas de lá do fundo, a subir, e juntaram o sofrimento de uma existência (sofrera de uma forma espantosa, a vida passara-lhe por cima como uma roda, a vida não era o que então parecera era idêntica àquela festa) à criança que ali de pé recitava Shelley, os olhos tristonhos e ingênuos. Mas o que não chegaram esses olhos a ver mais tarde!

E só aquela gente, morta agora, repousando na serena Escócia, é que enxergara tudo o que nela ha­via para vir a ser; que a conhecera, que conhecera o que nela havia para vir a ser. E agora as lágrimas eram já iminentes, enquanto pensava na menininha de vestido de algodão; eram grandes e negros os seus olhos; era graciosa repetindo a Ode to the West Wind que orgulho sentia dela o pai, que formidá­vel era ele, e que formidável também era a mãe, e que pura era ela própria quando junto deles, tão boa, tão talentosa, com tudo para ser alguém; e se ainda vivessem, e se pudesse ficar sempre com eles no jardim (que agora se lhe afigurava o único lugar onde passara a infância toda, sempre iluminado pe­las estrelas, sempre no verão, e eles sempre sentados debaixo do cedro, fumando, exceto que a mãe sonha­va solitária, rodeada de flores, usando sua touca de viúva; e como eram bons, gentis e respeitosos os an­tigos criados, o jardineiro Andrews, o cozinheiro Jersey; e havia o velho Sultão, o cão terra-nova; e a videira, e o lago, e a bomba de água; e — Mrs. Valance, com um ar penetrante, altivo e irônico, comparava sua vida à de outras pessoas —, e se aque­la vida fosse eterna, então Mrs. Vallance percebeu que nada disso — e olhou para Jack Renshaw e pa­ra a moça cujas roupas ele admirara — teria che­gado a ganhar qualquer existência, e poderia ter sido oh! simplesmente feliz, simplesmente digna, mas, em vez disso, estava ali, obrigando-se a ouvir um jovem dizer — e riu-se quase com desdém, em­bora de olhos marejados — que detestava assistir a partidas de críquete!

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Uma Casa Assombrada contos, tradução de José Antonio Arantes, Editora Nova Fronteira (1984).