Uma visita ao rio Ouse

photo-1Meus amigos “queers” vão odiar: não existe nada mais melancólico que o Rio Ouse. O rio onde Virginia Woolf, possivelmente uma das mulheres mais inteligentes da Inglaterra, usou como saída de uma vida atormentada por vozes e dores de cabeça insuportáveis. Um tanto mórbido, eu sei, mas é verdade. A atmosfera em torno de Rodmell (um vilarejo rural em Lewes, costa sudeste da Inglaterra) é um convite à nostalgia, mesmo quando não se sabe o que aconteceu por lá. E para quem conhece, gosta, ou tem noção da importância que Virginia representa para a literatura Inglesa e mundial, estar lá, poder entrar no universo wool?ano, intacto tantos anos depois, é algo indescritível.

Conheci a Monk’s House no mesmo dia que a Francine Ramos e o Teylor, fomos juntos ouvindo Alanis, Florence, Nina, Amy y otras cositas más, e foi tanta expectativa durante a viagem, que na hora de ver o Rio Ouse, (lê-se “úze”, carregando no u, e quase não pronunciando o e, bem British almost French) já não tínhamos mais força, nem tempo. Mesmo completamente exaustos, ainda tentamos. Fomos para além dos pastos, pulamos cerquinhas de arame farpado, excrementos de vaca e de ovelhas e acabamos num nada, em volta havia apenas um vasto campo, com algumas colinas bem ao fundo e nem sinal do rio. Como já era tarde, tivemos de voltar para Londres.

Mas pra mim, o passeio só estaria completo se eu visse o rio, não era nem uma questão de morbidez histórico-literária, juro, era uma questão de TOC, eu tinha de completar o passeio e estava decidido: semana que vem. E assim seria. Na sexta-feira seguinte, dia da viagem, levantei antes do sol nascer, preparei uma mochila com sanduíches, frutas, uma garrafa térmica para os chás e estava preparado para encarar o trajeto (3 horas de trânsito medonho) para fazer O picnic, na beira do Rio Ouse. Londres estava coberta de névoa, em 400 tons de cinza e chovia muito, totalmente desencorajadora & invejosa. Na Internet, Rodmell estava nada convidativa também: nublada e fria. Torturas às 5 da manhã, devo – ir – não – devo – ir – tenho – certeza – que – vai – chover – mas – e – se – não – chover – já – está – tudo – pronto – ok – se – chover – vou – pra – Brighton. Decidido, fui.

Cheguei em Rodmell quase 9 da manhã, parecia que a chuva chegaria a qualquer momento. De mochila e guarda-chuva na mão, quase um peregrino com seu cajado, fiz o caminho mais conhecido até o rio. Caminha-se cerca de 15 minutos, por uma estreita estrada de chão, como se continuasse na mesma rua da Monk’s House, até adentrar o imenso campo de propriedade privada, mas totalmente friendly, por onde passa o rio. Depois de cruzar dois portões grandes de ferro e madeira, uma carroça abandonada e pilhas de rolos de feno, é possível avistar um pequeno monte gramado, de mais ou menos dois metros de altura, que é ao mesmo tempo margem e barreira para o Ouse em tempos de cheia.

Entrar no rio foi uma experiência emocionante, espécie de ritual, quase um batismo. Pensamentos mil fluíam do rio para minha cabeça. Perguntava-me o tempo todo, como ela teve coragem, naquela água tão fria e pardacenta? Devia estar muito desesperada!
Definitivamente, não é um rio lindo, passa uma impressão de sujo, poluído, mas não, é apenas impressão, há muita vida dentro dele. Vi peixes, caranguejos, arbustos, além de cisnes mansos navegando calmamente e curiosíssimos a tudo que eu fazia. A beleza do rio Ouse não é física, é poética. Poética e por isso mesmo simbólica, escondida nos detalhes do tempo e dos significados que o próprio tempo engendrou para ele.

Voltei para a margem do rio, estendi uma toalha usei a mochila como travesseiro e fiquei ali olhando para o céu, depois li trechos de As Ondas, meu livro preferido. Só havia eu, era muito cedo para turistas, a casa só abre depois do meio dia. Passei ali toda manhã e boa parte da tarde, pratiquei Yôga demoradamente, meditei por quase 1 hora, fiz pránáyámas profundíssimos naquele ar limpo e rural. Depois continuei: li trechos de outros livros de Virginia, li sua carta de despedida, escrevi um conto, dormi, comi, tomei pencas de chás, chorei também. Absolutamente ninguém apareceu, nem o sol, nem a chuva, foi perfeito.

No fim da tarde, visitei a Monk’s House novamente, agora com novos olhos, e tive a oportunidade de conversar com um senhor, morador de Rodmell, desde sempre penso, (não perguntei, mas ele devia estar beirando os 100 anos) e ele falava da Virginia como se a conhecesse pessoalmente, foi um encanto que não quis quebrar com perguntas quis apenas ouvi-lo, o que quisesse contar. Disse-me, entre outras coisas, que não era comum a casa receber visitas de homens e me contou sobre Virginia, Vita, Leonard, Vanessa e os filhos e claro, sobre a Monk’s House.

Pequenas magias continuavam acontecendo até a hora de partir: as peônias do jardim, aos pés do quarto de Virginia, estavam perdendo as pétalas, ajudei a desembaralhá-las delicadamente e elas se ofereceram como um leque em minhas mãos, trouxe-as comigo, claaaro, no bolso da camisa. Dirigi até Londres, sentindo aquele perfume suave, estava completamente leve, contemplativo –essa é a palavra. Quando me dei conta, estava em casa. Voltei lá 3 vezes mais, desde agosto, só e acompanhado, mas jamais vou esquecer meu primeiro dia no Ouse.

Escrito por 
livroecafe.com/2013/10/07/visita-rio-ouse
Fotos: Diego Lourenço

┼Ψ╬† sσnia ┼Ψ╬┼

Gosto de tudo da Inglaterra: literatura, filmes, séries, sitcons, sotaque, educação, polidez, costumes, parques, praças, arquitetura… Tudo! Fui Influenciada pela literatura inglesa que eu li avidamente. Morar lá é o meu objetivo de vida.