Uma Noite Escura (Elizabeth Gaskell)

450xNElizabeth Gaskell é conhecida por grandes romances como Norte e Sul, Cranford e Esposas e Filhas em que retrata a vida de pessoas de distintas classes sociais, transcrevendo dialetos e trejeitos característicos de todas elas. Uma grande amiga de Charlotte Brontë e a autora de sua primeira biografia, ela também escreveu várias novelas e contos e um desses trabalhos é A Dark Night’s Work, de 1863, que será publicado neste ano pela Editora Pedrazul com o título de Uma Noite Escura.

A Dark Night’s Work foi publicado pela primeira vez na revista de Charles Dickens e teve o “Dark” adicionado pelo autor de Grandes Esperanças contra a vontade de Elizabeth. A história é centrada em Ellinor Wilkins e em seu pai, um advogado no interior da Inglaterra. Ele a trata de maneira mais afetuosa, filho de um bem-sucedido advogado de Hamley, ele mesmo faz uma pequena fortuna exercendo o mesmo ofício do pai e casa-se com a mãe de Ellinor, que vem a falecer anos depois.

Ellinor é muito próxima do pai e do amigo de seu pai que trabalhava em sua propriedade, Dixon. Porém os anos trouxeram um jovem rapaz por quem o coração da gentil filha do advogado bateria mais forte: Mr. Corbet, pupilo de Mr. Ness, amigo da família. Ralph Corbet é inteligente e um perfeito cavalheiro. Ele e Ellinor, que não passava de uma menina quando se conheceram, tornam-se grandes amigos, mas quando retorna dos estudos e encontra uma jovem bela e mudada, não pôde resistir pedir a sua mão apesar da oposição de sua família.

A doce Ellinor tem mais do que uma mocinha de sua idade poderia desejar: um pai carinhoso, um amigo atencioso e um noivo que a ama verdadeiramente. Mas os problemas com álcool e dinheiro de Mr. Wilkins acabariam por dificultar o noivado da única filha. O advogado gasta mais do que pode e bebe demais, então contrata um parceiro para ajudá-lo em seus negócios, Mr. Dunster, dono de uma personalidade não tão agradável, impaciente com os maus hábitos de Wilkins, e que, em virtude disso, o perturbava profundamente.

É em uma noite escura que tudo isso, tudo que Ellinor conhecia como bom e certo, muda drasticamente. Um evento fatídico põe um ponto final na vida perfeita que Ellinor tivera até então. Ellinor, seu pai e Dixon, seu amado amigo, estariam ligados para sempre devido aos acontecimentos daquela noite, porém de modo cruel. Diante disso, a mocinha se vê afundando cada vez mais nas condenações de sua própria consciência, encontrando-se em uma encruzilhada. Ela permaneceria leal ao seu pai ou seria honesta com o seu noivo?

Uma noite escura tem um começo lento, narrando primeiramente as circunstâncias do nascimento e da “ascensão” de Edward Wilkins, pai de Ellinor, como advogado e como sua personalidade distinta o tornava um tanto singular no meio de sua classe social. Também se tem uma dimensão do esforço que ele faz para ser aceito em um meio de gente que lhe era superior, mas ao invés de render bons resultados, só lhe serviu para ser motivo de chacota pelos “bem-nascidos”. Embora fosse um grande advogado, seus hábitos, manias e trejeitos jamais o permitiriam fazer parte da pequena aristocracia rural e Gaskell explora essas situações de preconceitos e discriminações com destreza. No entanto, ela não faz de Wilkins um personagem coitadinho, ela empreende uma excursão pelos vícios do advogado. Os efeitos da bebida e da irresponsabilidade financeira seriam os motivos das desgraças que acometeriam não só ele, mas a pessoa que mais amava no mundo: sua filha.

A escritora inglesa também faz um espetáculo dramático ao embarcar nas condenações do psicológico dos três que tomaram parte no aterrorizante evento daquela noite escura. Os julgamentos morais de Mr. Wilkins, Ellinor e Dixon os perseguiriam e afetariam extremamente o resto de suas vidas. Gaskell nos mostra isso tão bem que chegamos a sentir, de fato, o sofrimento injusto, todas as angústias e incertezas que a doce Ellinor sente em seu coração.

Ellinor não tinha sido capaz de esquecer completamente a sua vida passada por muitos anos. Era como rejuvenescer sua juventude, terminada tão de repente, cortada pela tesoura do destino. Desde aquela noite, ela tivera que despertar pela manhã completamente consciente do grande acontecimento o qual ela tinha, por muito tempo, temido e pelo qual havia sido intensamente afligida. Agora, quando ela acordava em seu pequeno quarto, com um quarto piano, no. 36, Babuino, ela via as estranhas e belas coisas ao seu redor e sua mente vagava em uma atmosfera de admiração e suposição, com recordações felizes do dia anterior e alegres antecipações do que estava por vir.”

A autora também critica a ganância do homem que o leva a conquistar tudo, mas que o faz terminar infeliz por abrir mão do que realmente importa na busca pela ascensão, pelo reconhecimento e pelo poder. Um retrato da sociedade de sua época com suas convenções, seus casamentos por conveniência, dotes e conexões.

Ele tinha pensado que [o rosto de Ellinor] havia mudado quando a vira pela primeira vez, mas agora era praticamente o mesmo que o de outrora para ele. Os olhos tímidos, a covinha aparente na bochecha, e algo de sua febre que tinha trazido um tom de rosa em suas bochechas normalmente sem cor. […] Ele suspirou um pouco arrependido enquanto Ellinor ia embora. Ele obtivera a posição pela qual se esforçara e se sacrificara. mas agora não podia evitar desejar que aquela criatura abatida, que repousava no santuário de suas ambições, vivesse novamente.

Vale ressaltar, como acadêmica de direito, sob uma ótica jurídica, a importância e a genialidade de Gaskell na construção de uma situação excepcional cujas consequências atormentariam aqueles que a presenciaram pelo resto de suas vidas e, especialmente, na construção da personagem Ellinor Wilkins e em como ela se sente dividida entre o seu pai, que embora seja advogado, representa todos os vícios humanos e, ao mesmo tempo, uma figura paternal amorosa, a quem a moral de Ellinor, seu senso de justiça e direito natural, jamais poderia trair e entre seu noivo Ralph Corbet, simbolizando o direito positivo, a lei a quem ela devia denunciar os pecados de seu pai e que deveria ser cumprida uma vez que posta, independente de laços sanguíneos e afetivos. Uma obra interessantíssima sob esse ponto de vista jurídico que abre margem para várias discussões nesse âmbito e para o diálogo com outras obras como Antígona de Sófocles, por exemplo.

E você sabe que se você fez qualquer coisa contra a lei ao ocultar o que foi feito naquela noite escura, eu também o fiz. E se você for punido, eu serei também

A obra também conta com outros personagens importantes como o clérigo Mr. Livingstone, Miss Monro e Mr. Ness. O tom dramático presente em todo o livro atinge o seu ápice no final emocionante que Elizabeth Gaskell, com maestria, nos proporciona.

Apesar do início lento, a leitura vale muito a pena pela narrativa conduzida tão habilmente por Gaskell e por todas as discussões que ela proporciona. Além disso, a edição da Pedrazul está linda e, assim como as outras obras publicadas pela editora, será impecável, um tesouro – em seu interior e exterior – para ter na estante.

divider79

Título: Uma Noite Escura
Tradução: Taynée Mendes Vieira
Editora: Pedrazul
Lançamento em 2016

Enza G. Said

Capixaba, acadêmica de Direito, amo a cultura inglesa, mas sonho em morar no sul da França. Sou apaixonada por música clássica, chá, cheiro de chuva e filmes antigos; passo horas relendo trechos dos meus livros favoritos e toco piano nas horas vagas. Contato: enzasaid@gmail.com

  • Marcia Bock Belloube

    Fiz a revisão deste livro para a Pedrazul e fiquei encantada com a história. Parabens pela resenha.

    • Enza Said

      Obrigada!

  • Magda Amaral

    Ansiosa pela leitura deste livro! grande escritora!

  • Raquel

    Elizabeth Gaskell <3
    Meta: ler tudo que ela escreveu 😉 Excelente resenha!!

    • Enza Said

      Ela é maravilhosa! Obrigada!

  • Leila Maciel

    Eu quero, eu quero, eu quero!

    • Enza Said

      Está chegando… 😀