UM PASSEIO EM CHAWTON, A CASA DE JANE AUSTEN

Encontrei essa matéria maravilhosa no blog Jane Austen’s World e achei que traduzi-la e dar aos fãs de Austen, nos países de língua portuguesa, mais informações sobre o que a cercava é precioso demais para deixar passar. Obrigada Enza Said pela tradução e ao Jane Austen’s World por ter proporcionado aos Janeites do Brasil esse conhecimento.

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Leitores curiosos,

Para celebrar o aniversário de 200 anos da publicação de Emma, de Jane Austen, Tony Grant visitou Chawton House para ver uma exibição especial. Tony separou várias fotos para o seu blog e acrescentou seus comentários. Algumas observações de Constance Hill e da sobrinha neta de Jane foram adicionadas para enriquecer esta publicação. Divirtam-se!

Chawton é uma vila de Hampshire que fica ao sul do Downs National Park. O censo de 2000 mostra que 380 pessoas vivem em Chawton.

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Mapa de Chawton encontrado no Google maps: Chawton Cottage e Chawton House Library

A primeira vez que a vila de Chawton foi mencionada foi em 1086 no livro de registros Domesday, que era administrado em Winchester, a primeira capital da Inglaterra, com William, o conquistador, depois de 1066. O fato de que a vila fica em uma das rotas principais de Londres a Portsmouth, passando por Winchester, sugere que, por sua importante posição, deve ter havido algum estabelecimento de saxões lá antes de 1066 e possivelmente até durante os tempos da Idade dos Metais. Os normandos realmente instigaram a criação de novas vilas como West Meon, poucas milhas ao sul de Chawton, mas a maioria dos estabelecimentos se deram em continuação aos já existentes de eras ainda mais antigas. Sua localização se mostra talvez como um local de parada em relação a uma rota maior, mas sua maior importância teria sido a agricultura.

A agricultura deve ter sido sua principal importância antes e depois da Segunda Guerra Mundial. Chawton House e sua propriedade tinham ovelhas e cavalos mais ativos nessa época. Ainda há muitas fazendas na área. Entretanto, a população hoje não é o que teria sido no passado. Em séculos passados, haveria representantes de todos os tipos do sistema de classes.

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A casa grande em Chawton que pertencia à família Knight – imagem: Tony Grant

A família Knight era proprietária da casa grande e da propriedade e ficou mais popular no início do século XIX sob o comando de Edward Knight, irmão de Jane Austen. As classes médias teriam sido representadas por Jane Austen, sua família e, talvez, o vigário local da paróquia St. Nicholas e alguns proprietários e fazendeiros menores. Provavelmente a classe trabalhadora e a classe agricultora predominassem. Haviam vários chalés vitorianos pequeninos, chalés georgianos e chalés que datavam o século XVI em Chawton e nas áreas que circundavam. Essas teriam sido acomodações para os trabalhadores das fazendas. Atualmente, embora esses chalés sejam cercados de jardins perfeitos, com rosas e glicínias, parecendo um cartão postal, eles pertencem a pessoas ricas que trabalham na cidade e os usam como casas para passar o fim de semana.

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Há exemplos de grandes mansões Georgianas e Vitorianas na vila. Elas pertencem a diretores de grandes corporações, banqueiros ricos e outras pessoas do gênero. Olhando sites de corretoras de Chawton, uma mansão dessas custa cerca de 2 milhões de libras. Os pequenos chalés se encontram a partir de 350 mil libras. Essas propriedades são, respectivamente, a mais cara e a mais barata da região.

O trabalhador cotidiano comum foi excluído. Certamente não há mais trabalhadores rurais morando em Chawton atualmente. É uma pena porque os costumes locais foram perdidos. A rica diversidade de costumes do lugar formada ao longo do tempo por famílias vivendo lá por toda as suas vidas, geração após geração, está perdida. Embora Chawton ainda seja linda hoje, ela perdeu sua essência. Perdeu sua alma.

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Casa de Chá Cassandra’s Cup e Chawton Car Park, Imagem: Google Earth

Mas nem tudo está perdido. Outro dia, andei até o estacionamento, do outro lado do chalé de Jane Austen, próximo ao pub Greyfriar, ao longo do caminho até a Biblioteca Chawton House e, à minha esquerda, no meio das árvores e por trás do playground das crianças, um cavalheiro estava montado sobre uma motoceifeira, cortando a grama no campo de cricket. Eu podia ver que estava tudo arrumado para um jogo e a bandeira de cricket do clube estava balançando no mastro.

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Campo de cricket. Imagem: Tony Grant

Enquanto me aproximava da Casa Grande, passei pela escolinha de Chawton à minha direita. Isso era no meio da semana, uma quarta-feira, mais ou menos 12h30. A escolinha estava no meio do intervalo para o almoço e um monte de crianças estava brincando no playground e subindo nos brinquedos. Eles estavam tagarelando e berrando e vivendo os melhores dias de suas vidas. Meu coração sempre se aquece ao som de crianças. Passei minha vida profissional trabalhando como professor, ensinando, depois de tudo. Então realmente há três coisas sobre Chawton que mostram que nem tudo está perdido.

Chawton tem um pub muito bom, The Greyfriars, tem uma maravilhosa e vibrante escolinha e também tem um time de cricket. Um novo coração talvez tenha sido criado? Sim, nem tudo estava perdido.

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Chawton Cottage de Jane Austen é logo à frente. À direita é o Cassandra’s Cup, uma casa de chá ligada ao pub Greyfriar

Chawton Cottage, que antigamente pertencia a um mordomo, antes disso era o lar de agricultores locais. Entre 1781 e 1787, a casa foi por um curto período de tempo uma hospedaria chamada The New Inn. Esse pub foi o local de dois assassinatos. Após o segundo assassinato, a casa foi deixada sob os cuidados de Bailiff Bridger Seward por Edward Austen Knight.

Edward, então, permitiu que sua mãe e suas irmãs se mudassem permanentemente para a residência. Jane viveu lá com sua mãe e sua irmã, Cassandra, e com a amiga de longa data da família, Martha Lloyd, de 1809 até maio de 1817, quando se mudou para Winchester a fim de ficar mais perto de seu médico antes de morrer em junho daquele mesmo ano.

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Vista da mesa de Jane Austen através da janela da casa. Imagem: Tony Grant

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O jardim do Cottage.

 

“Eu me lembro bem do jardim”, escreve Miss Lefroy (neta do Reverendo James Austen). “Uma cerca viva bem alta o separava do caminho [para Winshester] e este caminho proporcionava uma caminhada agradável por meio de arbustos, com um banco ou dois meio ásperos, onde, sem dúvidas, Mrs. Austen, Cassandra e Jane passaram muitas tardes de verão”.

Miss Lefroy recorda lembranças felizes com sua tia Jane, tia Cassandra e a avó em Chawton.

“Como se pode presumir, foram mantidas as comunicações entre Steventon e Chawton. Nosso avô era um filho atento e um dos prazeres da juventude de minha mãe era visitar sua avó com ele e as tias apesar das estradas com muitas curvas e caminhos irregulares, inacessíveis às rodas das carruagens que se colocavam entre os dois lugares…. Em sua tia Jane, que era objeto de sua admiração mais entusiástica, ela encontrou a simpatia e a companhia que a encantava em sua infância e a qual ela sempre guardou com as mais gratas lembranças…

Dois anos antes do meu casamento e os três seguintes, durante o tempo que vivemos perto de Chawton, foram os anos em que criei maior intimidade com ela, quando os dezessete anos que nos separavam em idade pareciam se reduzir a sete ou a zero. Era um grande prazer para mim, durante parte do verão, visitar o chalé e procurar romances da biblioteca em Alton e, depois de terminar de narrá-los e ridicularizar suas histórias à tia Jane, para o divertimento dela, ela se sentava para costurar, quase sempre para os pobres. Nós duas desfrutávamos da diversão, como tia Cassandra, do seu jeito mais quieto, como se uma besteira levasse à outra, ela iria berrar sobre nossa tolice e implorar para não fazermos com que ela gargalhasse tanto”. – Constance hill, Jane Austen: her homes & her friends, 1902.

“A vila de Chawton fica em uma parte especialmente linda de Hampshire, cerca de cinco milhas de Selborne de Gilbert Whites e, como Selborne, famosa por seus campos de lúpulo.

O Chalé de Chawton fica mais ao fim da vila, sendo a última casa do lado direito da rua, exatamente onde a estrada para Winchester se divide para Gosport e onde um espaço de grama e um pequeno lago residem na bifurcação dessas duas estradas.

Chawton tem uma única igreja, a de St. Nicholas. A igreja está ali desde 1270, quando os registros a mencionam em um documento da Diocese.  Ela sofreu um incêndio desastroso em 1871 que destruiu tudo com exceção do santuário. A igreja reconstruída foi arquitetada por Sir Arthuer Blomfield e agora tem nota 2″– (Wikipedia).

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St Nicholas Church Chawton

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A família Knight foi sepultada no adro da igreja. A mãe e a irmã de Jane também foram sepultadas lá.

“A ‘Casa Grande’ e o chalé são localizados a algumas centenas de jardas uma da outra, os portões do parque ficam de frente para a estrada de Gosport. A casa, uma antiga mansão elizabetana, com sua sacada no estilo Tudor e suas pesadas janelas, pode ser vista pelos que passam enquanto, um pouco abaixo dela, fica uma velha igreja de Chawton – um pequeno edifício cinza feito de pedra sustentado entre as árvores”. – Constance Hill.

Enza G. Said

Capixaba, acadêmica de Direito, amo a cultura inglesa, mas sonho em morar no sul da França. Sou apaixonada por música clássica, chá, cheiro de chuva e filmes antigos; passo horas relendo trechos dos meus livros favoritos e toco piano nas horas vagas. Contato: enzasaid@gmail.com

  • Magda Amaral

    Que texto maravilhoso! Me senti pertinho da querida Jane e sua vida.

    • Enza Said

      Ah, fico feliz por isso, é tão gostosa essa sensação <3

  • Amei este post! Muito bom poder conhecer e saber mais sobre esta escritora maravilhosa e minha preferida pra sempre!

    • Enza Said

      Que ótimo! Também é minha escritora favorita. De certa forma nos sentimos mais próximas dela quando vemos detalhes do seu cotidiano, quando nos aproximamos do que a cercou…

  • Luciana Campelo

    Estive em Chawton House em setembro de 2013 e estou muito saudosa! Momentos emocionantes e inesquecíveis! Bjs

    • Enza Said

      Que lindo! Deve ter sido uma experiência única mesmo. Beijos!