The Brontës | Semana Charlotte Brontë

Foto: Luciana Darce

Foto: Luciana Darce

Esse ano começamos as comemorações de bicentenários de nascimento das Irmãs Brontë, partindo da Charlotte. Como estive lendo vários dos livros delas nos últimos tempos – só esse ano já foram Shirley e A Inquilina de Wildfell Hall – decidi que era hora de entender um pouco mais sobre as autoras de carne e osso, até porque os livros delas são considerados fortemente autobiográficos.

De início, pensei de procurar a biografia de Charlotte Brontë escrita pela Elizabeth Gaskell – afinal, eu gosto muito do estilo de escrita da Gaskell e ela conheceu Charlotte pessoalmente. Só que essa biografia sofreu duras críticas pela forma como Gaskell priorizou certos relatos e simplesmente ignorou fontes importantes, preferindo ouvir disse-me-disse em vez de testemunhas confiáveis.

Um dos grandes problemas de Gaskell é que suas impressões sobre Patrick Brontë e a infância dos irmãos foi colorida pelos relatos de Martha Wright, enfermeira de Maria Brontë, que foi despedida, acredita-se, por se servir indiscriminadamente da adega e despensa da família.

Não há relatos certos sobre o caso, mas segundo outros criados que moraram com a família por décadas e que negaram veementemente as acusações de tirania postas sobre seu patrão, a enfermeira tinha seus motivos para ressentimentos.

Outra fonte de informações para Gaskell, Ellen Nussey, considerada uma das melhores amigas de Charlotte, ressentia-se fortemente do casamento que a escritora fez com Arthur Bell Nicholls – Ellen e Charlotte chegaram a passar um bom tempo sem se falar quando o casamento foi decidido – e influenciou a biógrafa a fazer um retrato pouco lisonjeiro do homem.

Foi procurando informações pela internet que descobri The Brontës – Wild Genius on the Moors: The Story of a Literary Family, escrita por Juliet Barker, que foi curadora do museu dos Brontë em Haworth; biografia considerada pelos críticos como a mais completa para quem deseja estudar a fundo a família – uma família que deveria chamar a atenção não por supostos escândalos e estranhezas, mas pelo fato de ter gerado tantos talentos artísticos.

O livro se inicia da chegada de Patrick Brontë a Cambridge em outubro de 1802 – algo notável, considerando que Patrick era um irlandês pobre, alvo em potencial, portanto, para todo tipo de preconceito. No entanto, o jovem irlandês se destacou em seus estudos, chamando a atenção de figuras como William Wilberforce, um dos campeões no parlamento inglês para a causa abolicionista.

Patrick, que passou ao ‘folclore bronteano’ como um eremita excêntrico e irascível surge aqui como um líder notável, preocupado com questões sociais, tendo se envolvido em várias reformas de teor liberal. Brigou pela melhoria das condições do abastecimento de água da cidade – fonte de doenças e dos principais motivos da alta mortalidade infantil –, e pela reforma do sistema prisional (as leis devem ser obedecidas, mas primeiro devem ser conhecidas), defendia o batizado e acolhimento pela igreja de filhos bastardos… Chegou inclusive a escrever romances, que influenciaram no estilo literário dos filhos.

Barker traça um amplo contexto histórico e cultural de Haworth para entender como a sociedade em que viviam influenciou os Brontë. Mais uma vez, contrariamente ao descrito por Gaskell (que, confessadamente, se baseou em relatos de um século antes dos Brontë viverem na área), Haworth emerge como uma cidade vibrante com as mudanças sociais causadas pela Revolução Industrial; uma cidade em franca expansão e não o fim do mundo isolado de tudo que, mais uma vez, integra o folclore em torno das irmãs escritoras.

Ela analisa também poemas e trechos da juvenília dos irmãos, bem como cartas e críticas aos livros publicadas à época. É um trabalho minucioso, que se estende por mais de mil páginas, rico em notas e referências. E que relembra, a todo capítulo, que por mais que haja referências autobiográficas das irmãs em suas obras, analisar sua vida como um espelho absoluto dos romances é um erro.

Passei duas semanas para terminar de ler esse aqui e foi um carrossel de emoções: fiquei de coração partido pelo Branwell, tive vontade de torcer o pescoço da Charlotte, revirei os olhos muitas vezes para Emily e fiquei fã da Anne e do Patrick, que tanto incentivou os filhos a se educarem.

É um livro bastante extenso e extremamente rico em detalhes – o tipo de título que indico para quem deseja se aprofundar na história desses personagens, tão interessantes e trágicos como suas contrapartes ficcionais.

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Luciana Darce

Sou uma bibliófila desde que me entendo por gente e leio praticamente de tudo um pouco. Administro o Coruja em Teto de Zinco Quente e sou mediadora de um clube do livro voltado ao debate de clássicos. E nas horas vagas, sou advogada. Você pode me encontrar escrevendo para luciana.darce@gmail.com

  • Adorei a resenha!! As vidas das Brontë e o momento histórico em que elas se passam é interessante em níveis superlativos.Queria muito que alguma editora brasileira nos desse a oportunidade de ter esse livro em português – afinal, nós não temos nenhuma biografia das Brontë traduzida ainda.

    Juliet Gael usou esse livro em sua pesquisa para escrever o romance “Miss Brontë” e recomenda a leitura da obra de Juliet Barker.

    Gaskell recebeu uma boa quantia pela biografia. Acho que ela estava mais preocupada em dar ao público alguma coisa coisa mais chocante – mais vendável – do que a verdade. Antes eu achava que a época exigia certos pudores, e por isso ela não falava da paixão de Charlotte por Heger. Mas sabendo que as distorções dela vieram por ter ouvido fontes não fidedignas, começo a pensar que ela teve “preguiça” de entender as pessoas envolvidas e quis se deixar levar, talvez, por inclinações de romancista.

    Beijos!

    • Luciana Darce

      Também gostaria que trouxessem esse livro em português… ele é uma aula não apenas sobre os Brontë, mas sobre o universo vitoriano de uma maneira geral – muito completo e aprofundado. Mesmo em inglês, é um livro difícil de encontrar.

      A Gaskell tinha suas próprias idéias sobre os Brontë mesmo antes de começar a escrever… O fato de que Patrick e Arthur Bells não terem se animado muito a dar suas opiniões também não ajudou muito… Mas de fato, a impressão que tenho é que ela estava mais interessada em escrever um romance em vez de uma biografia…