Sobre Mr. Darcy

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Através dos diálogos – interações com outras personagens – e das ações é que se pode extrair os elementos da real natureza do Sr. Darcy e suas qualidades, que são, como se verá através das análises de diversos autores, muitas.

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Zohn fala sobre o respeito do Sr. Darcy por seus predecessores e sua deferência pelos desejos de seu pai; além disso, ele é proprietário de uma grande casa, que leva suas responsabilidades a sério. “Irmão carinhoso e atencioso, filho respeitoso, apropriadamente orgulhoso de seus majestosos antepassados, criador da mudança”. Para Kaplan, o Sr. Darcy parece formidável porque ele “é honesto, cumpridor, formal, ético e orgulhoso em suas relações pessoais […] imbuído de determinados valores e modos de conduta, obedecendo a padrões de honra, respeitabilidade, elegância, generosidade e integridade.”

Na visita de Elizabeth a Pemberley, ela ouve os elogios da sra. Reynolds, a governanta da casa, ao patrão. As informações dadas por ela lançam uma nova luz sobre o Sr. Darcy, atribuindo-lhe todas as qualidades desejáveis a um verdadeiro cavalheiro – e Elizabeth sente o peso dessas informações, causando uma impressão que ajudará na transformação de sua visão sobre ele:

— […] Esta sala era a sala favorita do meu falecido patrão, e estas miniaturas estão exatamente como costumavam estar. Ele gostava muito delas.

[…] Não conheço ninguém que o mereça. […] Nunca, em toda a vida, ouvi dele uma palavra agressiva. E eu o conheço desde que ele tinha quatro anos de idade. […] ele sempre foi o menino mais amável e bondoso do mundo. […] tão bom para os pobres quanto o pai. […] Ele é o melhor dos senhores de terras e o melhor dos patrões – disse ela – que já existiram; não como os jovens rebeldes de hoje, que só pensam em si mesmos. Não há um só de seus colonos ou criados que não se refira a ele em bons termos. Algumas pessoas dizem que ele é orgulhoso; mas tenho certeza que nunca vi nada disso. Na minha opinião, isso é porque ele não é falastrão como outros rapazes.

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Hodges tratará do ressentimento implacável na personalidade do Sr. Darcy e chega a conclusão de que a força dos sentimentos dele funciona de ambos os modos, o lado amoroso superando o ressentido. “O amor de Darcy para Elizabeth lhe permite realizar algo totalmente oposto ao seu temperamento anteriormente ressentido.” Ele declara a Elizabeth, após chegarem a bons termos, que o seu ressentimento não se aplicava a ela: “Meu objetivo foi então demonstrar-lhe, por meio de toda a amabilidade possível, que eu não era tão mau a ponto de me ressentir do passado.” O amor romântico do Sr. Darcy por Elizabeth é imbuído do conceito cristão de que o amor não pode ser orgulhoso e que procura saber o que é bom para a pessoa amada –  “amor que é ativo, generoso, que se dá e que perdoa.” A despedida na carta que ele entrega a Elizabeth é uma prova desse amor caridoso:  “Acrescentarei apenas que Deus a abençoe.”

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Casal traz uma interessante análise da tensão sexual ligada ao riso em Pride and Prejudice. No começo do romance, o Sr. Darcy liga a risada à falta de respeito, enquanto Elizabeth liga à proximidade; ela é brincalhona e ele é solene. Eles parecem opostos irreconciliáveis, afastados tanto pelas diferenças de posição social, gênero e experiências de mundo, quanto pelas atitudes essenciais. Mas, ao se aprofundar na história, vê-se que eles possuem personalidades, se não irmãs, ao menos complementares, e isto se estende à sua relação com o humor:

[…] Darcy não é tão desprovido de humor e sóbrio como parece na superfície. Ele pode não rir, mas, do seu próprio jeito, ele é tão sintonizado com a ironia e as incongruências quanto Elizabeth. […] Os sorrisos de Darcy são tão importantes como o riso de Elizabeth. Nunca vemos Darcy rir, mas seus sorrisos — que geralmente ocorrem no curso de seus intercâmbios com Elizabeth — sugerem uma mente tão rápida quanto a dela, bem como uma crescente receptividade ao amor de Elizabeth pelo riso.

Pode-se ver o humor ácido e discreto da personagem em suas respostas às tentativas de provocação da Srta. Bingley, por exemplo. “Em geral são longas, mas se são sempre encantadoras não me cabe afirmar.”; “Sem dúvida – retrucou Darcy, a quem a observação era especialmente dirigida – há baixeza em todos os artifícios que as senhoras se prestam a usar tendo como meta a sedução.” Este humor está também bem explícito na breve conversa que ele tem com Sir William: “Qualquer selvagem sabe dançar.” E aparece na maliciosa e desajeitada tentativa de galanteio que ele dirige a Elizabeth: “porque têm perfeita noção de que sua silhueta é mais atraente quando andam […] posso admirá-las muito mais estando sentado junto à lareira.”

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Segundo Ruderman, o Sr. Darcy não é motivado pelo desejo de agradar aos outros. O crítico também observa que o Sr. Darcy tem grande respeito pelas convenções sociais, mas não observa/cumpre sempre tais regras. “O Sr. Darcy nunca se desculpa e é odiado precisamente porque ele não presta muita atenção às etiquetas sociais […] Essa indiferença à opinião social o expõe ao ridículo.”. Pode-se ver isso claramente no seu comportamento durante as reuniões (jantares e bailes) a que ele comparece, e também na opinião sobre si próprio que ele expressa: “Tenho defeitos de sobra, mas não são, espero, de discernimento. Ao meu temperamento, não dou grande crédito. Ele é, acredito, muito pouco condescendente… sem dúvida pouco demais… com as convenções sociais […].” Esta honestidade e sinceridades diretas soam rudes, porque estão aliados à timidez, à reserva e à inabilidade com o traquejo social:

Austen, como sempre – e ao contrário da opinião comum sobre ela – sugere que boas maneiras não são sempre um sinal de virtude. […] Austen é sempre um pouco desconfiada das maneiras sedutoras, pois ela reconhece que a virtude tem um lado duro e até mesmo desagradável. […] Austen não sugere que todas as coisas boas andam juntas. Ela não defende o Sr. Darcy […] em sua falta de amabilidade, mas ela defende a virtude. E até certo ponto ela desconsidera a importância das maneiras atraentes. Há uma linha tênue entre usar a conversa para fazer os outros se sentirem mais confortáveis e usá-la para chamar a atenção para a seu próprio bem-estar.

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Segundo Wilson, Austen, cuidadosamente, preserva a premissa de que o Sr. Darcy é um homem reservado, relutante em falar sobre si mesmo. Ele mesmo revela isso sobre si: “Com certeza não tenho o talento que alguns possuem de conversar livremente com pessoas que nunca vi antes. Não consigo acertar o tom da conversa ou parecer interessado em seus assuntos, como vejo tantas vezes ser feito.”

Ainda segundo Wilson, o Sr. Darcy é valorizado por não ser dissimulado: mesmo quando tenta agradar, ele não o faz de uma maneira insincera. Ele diz para Elizabeth: “Ceder sem convicção não é elogio ao discernimento de ninguém.”, e apesar de não procurar parecer rude, é isso que pode parecer para quem não presta atenção à integridade de ideais que está imbuída nessa afirmação. O Sr. Darcy é um homem íntegro. Ele também é um senhor de terras honesto e um bom irmão – o tipo de homem que pode levar a Inglaterra adiante, em direção a uma aristocracia rejuvenescida. “Darcy oferece uma nova visão sobre o que significa ser um homem bom e gentil. ”

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E o melhor resumo que se pode dar a cerca do Sr. Darcy é feito por ele mesmo, num diálogo com Elizabeth. Uma declaração de amor e uma autoanálise das mais sinceras possíveis:

Tenho sido egoísta durante toda a vida, na prática, ainda que não em sentimentos. Quando criança, ensinaram-me o que era correto, mas não como corrigir meu gênio. Recebi bons princípios, mas me deixaram praticá-los com orgulho e arrogância. Infelizmente único filho (e por muitos anos filho único), fui mimado por meus pais, que, embora bons (meu pai, sobretudo, era todo benevolência e amabilidade), permitiram, encorajaram, quase me ensinaram a ser egoísta e altivo; a não considerar pessoa alguma fora do círculo familiar; a desprezar o resto do mundo; a acreditar, pelo menos, serem sua inteligência e valores inferiores quando comparados aos meus. Assim fui, dos oito aos vinte oito anos; e assim poderia ainda ser não fosse por minha querida, amada Elizabeth! O que não lhe devo? Consigo aprendi uma lição, dura a princípio, é verdade, mas muito proveitosa.

Esta é a fala direta mais longa do Sr. Darcy em todo o romance. É a confirmação, na voz da própria personagem, de vários traços de sua personalidade, com enfoque na transformação causada pelo amor que ele sente por Elizabeth – de reservado a declaradamente apaixonado; de orgulhoso a humilde.

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Referências

  • AUSTEN, Jane. Orgulho e Preconceito. Tradução de Celina Portocarrero. Porto Alegre: L&PM, 2011.[1813].

 

  • CASAL, Elvira. Laughing at Mr Darcy: Wit and Sexuality in Pride and Prejudice. Persuasions On-line [online], vol. 22, n. 1, 2001, sem paginação. Disponível em:< http://www.jasna.org/persuasions/on-line/vol22no1/casal.html>. Acesso em: 01 de março de 2015. ISSN 1559-7520.

 

  • CRIPPEN RUDERMAN, Anne. Mr. Darcy’s virtues. In: BLOOM, Harold (Ed.). Jane Austen’s Pride and Prejudice. New York: Chelsea House Publishers, 2004. (Bloom’s Guides). p. 73 – 78.

 

  • HODGES, Horace Jeffery. Darcy’s Ardent Love and Resentful Temper in Pride and Prejudice. Persuasions On-Line [online], 30, n. 1, 2009, sem paginação. Disponível em: <http://jasna.org/persuasions/on-line/vol30no1/hodges.html>. Acesso em: 01 de março de 2015. ISSN 1559-7520.

 

  • KAPLAN, Laurie. The Two Gentlemen of Derbyshire: Nature vs. Nurture. Persuasions On-Line [online], vol. 26, n. 1, 2005, sem paginação. Disponível em: < http://www.jasna.org/persuasions/on-line/vol26no1/kaplan.htm>. Acesso em: 01 de março de 2015. ISSN 1559-7520.

 

  • WILSON, Jennifer Preston. “One has got all the goodness, and the other all the appearance of it”: The Development of Darcy in Pride and Prejudice. Persuasions On-Line [online], v. 25, n. 1, 2004, sem paginação. Disponível em: . Acesso em: 01 de março de 2015. ISSN 1559-7520.

 

  • ZOHN, Kristen Miller. “A Fine House Richly Furnished”: A Look at Pemberley and its Owner. Persuasions On-Line [online], vol. 34, n. 1, 2013, sem paginação. Disponível em: . Acesso em: 01 de março de 2015. ISSN 1559-7520.

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[Adaptado da minha monografia “May I introduce you Mr. Darcy?”: focalização da personagem em Pride and Prejudice (UFBA, 2015)]

Rebeca Lima Teixeira

Soteropolitana. Bacharel em Língua Inglesa. Cristã. Caseira e reservada, amo dias de chuva e de vento, solidão e silêncio, plantas e passarinhos, panetone e chocotone. Apaixonada por História e Literatura, especialmente a Inglesa - meus livros favoritos falam por mim. http://www.skoob.com.br/usuario/621503-rebeca Contato: rebecaausten@gmail.com

  • Júlia

    Ótima análise! Já havia conferido a sua análise do livro e agora suas considerações sobre o sr. Darcy me deixaram ainda mais interessada na obra. Adoraria ler mais textos assim por aqui 🙂

    • Obrigada! Espero que os próximos textos possam agradar tanto quanto esses.
      Abraços!

  • Leila Maciel

    Amei demais essa análise sobre o Darcy! Eu adoro o Darcy, a Lizzie, os diálogos enfim tudo. Perdi a conta de quantas vezes reli esse livro.