Shirley (Charlotte Brontë)

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“O amor pode desculpar qualquer coisa, exceto a maldade. A maldade mata o amor, aleija a afeição natural e, sem estima, o amor verdadeiro não pode existir.”

É curioso como esse livro, a princípio, fazia perder-me em comparações. As primeiras 50 páginas, que contam dos esforços de Robert Moore com sua fábrica, imediatamente me lembraram a incansável dedicação de Mr. Thornton, de Norte e Sul. Quando surge em cena Miss Caroline Helstone (e esse sobrenome também é familiar para quem leu o romance de Gaskell), sua imagem de quase perfeição me remeteu para Evelina. Caroline, contudo, destaca-se lá pela página 100, quando demostra admirável autoconhecimento e dá os primeiros passos para escapar do que enxerga como perigoso sentimentalismo e um amor fadado a partir seu coração. A suposta real protagonista, que dá seu nome ao título, só surge na página 138.

É engraçado: demorei a começar a ler Shirley, em parte por compromissos da ‘vida real’ (dezembro e janeiro foram massacrantes…) e em parte porque Villette, da mesma autora, deixou-me emocionalmente exausta. A intensidade de Lucy Snowe é fascinante, mas pode sua jornada pode ser bastante dolorosa, inclusive pelo final em aberto que deixa implícito apenas tristezas.

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Uma vez tendo começado, contudo, foi difícil separar-me do livro para banalidades como comer ou dormir. Shirley é um romance folhetinesco vira-páginas, daqueles em que você anseia desesperadamente em saber o que vai acontecer a seguir. Foi por muito pouco que não virei uma noite às voltas com ele – ao final, terminei-o em dois dias e ao chegar ao final, descobri que não me importaria se pudesse passar mais tempo na companhia daqueles personagens.

Em Villette e Jane Eyre (em menor medida nesse último), Charlotte nos apresenta a protagonistas introspectivas, que, embora passionais sob a superfície, se fazem invisíveis na aparência para poder sobreviver. Por mais que Lucy e Jane perambulem pelo mundo, suas histórias não me parecem ter o mesmo tipo de constante movimento que nos é passado em Shirley. Talvez porque temos o industrial Mr. Moore indo de um lado para o outro tentando resolver o problema das máquinas e dos operários revoltados; pela necessidade que Caroline tem de se ocupar, de se perder em outras preocupações para não pensar em sua própria dor; ou mesmo pela vivacidade por vezes delirante da jovem Shirley. O fato é que tudo acontece rápido, o passo é ligeiro, como o progresso que Moore deseja trazer ao condado.

Ao terminar e refletir com mais vagar sobre o que lera, percebi também que era um livro cheio de raiva e raiva era muito do que estava por debaixo do ardor de Shirley. Raiva da hipocrisia, da necessidade de aparências, do tratamento dado a mulher… Essa sensação de injustiça, contra a qual Shirley por vezes tenta lutar, é um grito da própria Charlotte e permeia boa parte de suas obras.

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Há uma miríade de personagens, com suas próprias agendas e interesses e não podemos classificá-los em heróis e vilões – o contexto social da guerra e da revolução industrial nunca é esquecido e está constantemente no centro das motivações dos personagens. Do ponto de vista humano, é um livro muito real, muito crível pela forma como todos eles se movimentam na história (exceto por algumas coincidências folhetinescas, mas não posso falar muito delas sem entregar spoilers).

Concordo com a defesa da editora ao colocar Caroline junto a Shirley no subtítulo. Embora muitos dos temas defendidos ao longo do livro sejam masculinos – no sentido de serem preocupações da esfera masculina à época – a história nos é apresentada principalmente pelos olhos dessas duas mulheres, e sob o prisma da amizade que as une (amizade essa, aliás, que foi um dos meus pontos favoritos do enredo).

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Em resumo, um excelente livro, daqueles que não apenas nos brindam com excelentes romances, mas que também nos fazem refletir. Já deixou saudades…

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Nota: 4
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Shirley – a história da órfã Caroline Helstone e da herdeira Miss Keeldar
Autor: Charlotte Brontë
Tradução: Fernanda Martins
Editora: Pedrazul
Ano: 2014

Luciana Darce

Sou uma bibliófila desde que me entendo por gente e leio praticamente de tudo um pouco. Administro o Coruja em Teto de Zinco Quente e sou mediadora de um clube do livro voltado ao debate de clássicos. E nas horas vagas, sou advogada. Você pode me encontrar escrevendo para luciana.darce@gmail.com

  • Leila Maciel

    Ai, que resenha arretada! Fiquei louca agora pra ler esse livro!

  • Raquel

    Parecendo com o Norte e Sul, a vontade de ler aumenta de maneira sem igual 😉