Razão e Sensibilidade | Orgulho e Preconceito | Persuasão

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RAZÃO E SENSIBILIDADE

“Mas enquanto a imaginação das outras pessoas as levar a fazer julgamentos errados sobre a nossa conduta e a avaliá-la de acordo com aparências superficiais, nossa felicidade estará sempre de algum modo à mercê do acaso”.

O primeiro livro que li de Jane Austen foi Orgulho e Preconceito e, após ser arrebatada pelas pela escrita magnífica da autora, eu pensei que jamais nenhum livro conseguiria superar o que eu havia sentido ao lê-lo, nem mesmo entre os dela já que é uma verdade universalmente conhecida que a história de Lizzie e Darcy é, de longe, a queridinha dos fãs ao redor do mundo.

Ah, eu não podia ter me enganado mais! Razão e Sensibilidade não só me encantou, como se tornou o meu favorito de Jane Austen e me convenceu de que nada do que eu ler a seguir me conquistará desta forma, ao finalizar a leitura me senti extasiada por um espetáculo de palavras, sentimento e racionalidade.

O enredo é centralizado em duas irmãs não tão abastadas financeiramente: Elinor e Marianne Dashwood. A primeira – e mais velha – é o retrato da razão e a segunda, a personificação da sensibilidade. As moças e sua mãe têm que recomeçar a vida quando o patriarca da família falece e é em meio a todas as mudanças que este fatídico acontecimento traz que ambas as mocinhas encontram o amor.

Elinor, sagaz e, no entanto, discreta, apaixona-se pelos modos agradáveis e gentis de Edward Ferrars ao passo que Marianne não resiste aos encantos do charmoso Willoughby. Ambas cultivam grandes esperanças quanto aos seus romances e nós acompanhamos como nossas heroínas lidam com as alegrias e decepções que vêm com eles. Enquanto a mais velha mascara a sua dor com seus bons modos, a mais nova faz questão de exibir o seu sofrimento quando é chegada a hora e, assim, podemos compreender algumas facetas da complexidade humana tão bem retratadas por Jane.

“Não é o tempo nem a oportunidade que determinam a intimidade, é só a disposição. Sete anos seriam insuficientes para algumas pessoas se conhecerem e sete dias seriam mais do que suficientes para outras”.

Além disso, Jane Austen também não economiza em críticas à sua sociedade, ácidas e engenhosas, cada linha é embebida de ironia, certas vezes com até certo desprezo por algumas personagens que representam bem figuras de sua época e, na minha opinião, muitas delas são válidas atualmente.

“A timidez é apenas o efeito de um senso de inferioridade, de um modo ou de outro. Se pudesse convencer-me de que as minhas maneiras sejam desinibidas e graciosas, não seria tímido”.

O que mais posso dizer? É impossível não se emocionar em algum momento ou não se colocar no lugar de uma das irmãs ou de outros personagens memoráveis como o adorável Coronel Brandon. A inteligência e a mente brilhante desta autora me pegaram de jeito. É admirável que tantos trechos, tantas falas e mesmo críticas de Jane possam se encaixar no contexto atual sem a menor dificuldade, como suas palavras – e as verdades que elas carregam – transcendem o tempo e as barreiras físicas, sociais e culturais.  Não posso evitar sentir um amor pleno e genuíno por esta querida autora que viveu tão pouco, mas que enriqueceu e acrescentou tanto à nossa literatura.

“Às vezes somos guiados pelo que dizemos de nós mesmos e com muita frequência pelo que outras pessoas dizem de nós, sem que paremos para refletir e julgar”.

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ORGULHO E PRECONCEITO

O favorito entre os fãs de Jane Austen e sua obra mais aclamada, Orgulho e Preconceito é um clássico da literatura mundial que narra uma história repleta de mal-entendidos, orgulho, preconceito, vaidade, inveja e amor. O foco do enredo reside na pobre família Bennet com cinco filhas em idade de casar e nenhum herdeiro, sendo que as três irmãs mais novas são essencialmente tolas e fúteis ao passo que as duas mais velhas, Jane e Elizabeth, são o oposto: a primeira é doce e meiga e, a segunda, espirituosa e inteligente.

Nesse sentido, a trama gira em torno da relação da família Bennet com o jovem de fortuna considerável que se estabelece na propriedade vizinha, Mr Bingley, e com as irmãs dele, além do orgulhoso e ainda mais rico amigo do rapaz, Mr Darcy, que se hospeda na residência de Bingley na região.

Logo, a desesperada Mrs Bennet começa a arquitetar planos para unir alguma das filhas ao rico e respeitável Mr Bingley enquanto, não tão secretamente, cultiva uma aversão a Mr Darcy em quem causa enorme repulsa. De todo modo, Mr Bingley acaba por se encantar pela primogênita dos Bennet, a gentil e delicada Jane, porém a relação dos dois é fortemente influenciada pelo desenrolar do relacionamento de Mr Darcy e Elizabeth Bennet.

Mr Darcy, representando o orgulho, e Elizabeth Bennet, a cara do preconceito, recebem maior destaque na história. Ambos os protagonistas são donos de personalidades fortes que estão em constante embate ao longo da trama. O enorme abismo social entre ambos atua como principal agente catalisador das batalhas travadas pelos dois, que também abarcam figuras do passado dos dois, irmãs tolas e tias ricas e rabugentas.

“- Creio que existe, em todos os tipos de disposição, a tendência a um determinado tipo de maldade peculiar, algum defeito natural, que nem mesmo a melhor educação é capaz de suplantar.
– E o seu defeito é uma propensão a odiar as pessoas.
– E o seu – respondeu ele com um sorriso – é voluntariamente, compreendê-las mal.”

Desde o primeiro encontro, o orgulho de um e o preconceito da outra edificaram um convívio conturbado entre os dois. Darcy é taciturno e altivo e condena o envolvimento do amigo com alguém de posição social e parentes tão indecorosos quanto os de Jane Bennet, entretanto, ao mesmo tempo, não consegue evitar se apaixonar pela inteligência e sagacidade de Elizabeth, ferrenha apoiadora de Jane e Bingley.

“- Eu poderia facilmente perdoar seu orgulho, se ele não tivesse mortificado o meu.”

Nesse contexto, em meio as peripécias e desventuras que se originam a cada encontro dos protagonistas, Jane Austen critica acidamente a sociedade a qual pertencia. Sutilmente e de modo extremamente perspicaz, ela disseca figuras emblemáticas da época representadas em seus personagens; expõe a hipocrisia de seu tempo e ainda passa uma mensagem atemporal aos seus leitores: as pessoas são muito mais do que o que nossas primeiras impressões conseguem capturar.

Orgulho e Preconceito vai muito além do romance entre os protagonistas, retrata, sobretudo, uma sociedade que vive de convenções e aparências, bem disposta a emitir julgamentos sem bases sólidas, profundamente marcada pela divisão social e que guarda muitas semelhanças com a sociedade de nosso próprio tempo. Além disso, a escrita bem-humorada de Jane é um deleite: inteligente e sarcástica sem nunca ser má nem injusta e, por tudo isso, esta obra é um clássico inesquecível, que deve ser lido por todos.

“Há poucas pessoas que eu ame de verdade, e menos pessoas ainda de que eu tenha boa opinião. Quanto mais conheço o mundo, mais me sinto insatisfeita com ele; e a cada dia se confirma minha crença na incoerência de toda personalidade humana, e na pouca confiança que podemos depositar na aparência de mérito ou razão.”

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PERSUASÃO

Persuasão foi o último trabalho completo de Jane Austen. O livro nos conta a história do reencontro entre Anne Elliot, uma moça da alta sociedade da região, e seu amado Frederick Wentworth, oito anos após a moça ter sido persuadida a deixar a felicidade ao lado de seu querido.

Quando tinha 19 anos, Anne se apaixonou por Frederick Wentworth e foi correspondida. Ambos planejavam se casar, porém forças maiores da família e da melhor amiga Lady Russell persuadiram a jovem Anne do contrário. A mocinha era filha de um baronete orgulhoso para quem, juntamente com a irmã Elizabeth e a amiga Lady Russell, a posição social e as conexões eram de extrema importância e não podiam ser ignoradas. Por isso, uma união com o marinheiro pobretão Wentworth era demasiadamente desvantajosa e indesejada para a família da heroína e, à época, a impotente Anne nada pôde fazer para resistir à pressão destas pessoas em quem depositava sua total confiança e consideração.

“Fora obrigada a ser prudente na juventude, e aprendera o romantismo à medida que envelhecia: a sequela natural de um começo antinatural.”

Após anos de angústia, tristeza, e amadurecimento, Anne viu seu caminho cruzar com o de Frederick novamente quando seu pai decidiu mudar de casa e alugar a que viviam. Os novos inquilinos eram familiares de Frederick, agora, o respeitável Capitão Wentworth, que prosperara na Marinha ao longo dos últimos oito anos e que agora era mais abastado e um pretendente perfeitamente elegível para qualquer mocinha em idade de se casar.

“[…] não podia haver dois corações tão abertos, gostos tão parecidos, sentimentos tão uníssonos, rostos tão bem-amados. Agora eram como dois estranhos; pior do que estranhos, pois jamais poderiam relacionar-se. Seriam perpetuamente dois estranhos.”

Nesse contexto, os dois passam a se encontrar cada vez mais, começam a frequentar as mesmas reuniões e a se verem com uma frequência tão grande que beirava o desconfortável para os antigos pombinhos porque os sentimentos de ambos ficavam à flor da pele. Tanto que não fora dito e tanto que queriam dizer… a cada gesto, uma sensação de esperança, uma vontade enorme de confessar o que ficara escondido por tanto tempo no recôndito de seus corações, mas as circunstâncias eram diferentes e, se antes eram fatores externos a eles que obstava seu relacionamento, agora a dúvida e a amargura de oito anos imperava entre os dois de modo que impossibilitavam quaisquer declarações aclamadas vindas de Anne e Wentworth acerca de como se sentiam em relação um ao outro e de tudo que havia acontecido entre eles.

Como em seus outros livros, Jane Austen não poupa a sociedade de seu tempo, denunciando sua futilidade e hipocrisia em cada diálogo. Além disso, Jane nos brinda com personagens cheios de sentimento, uns mais exagerados do que outros, e protagonistas humanos, cada um com suas fraquezas, que se tornam grandes quando do seu fortalecimento nelas.

Persuasão é um livro para reler várias vezes, as lições dadas por Austen nesta obra são atemporais e mostram que sempre haverá pessoas para julgar nossas escolhas, não importa quais sejam elas; mostram que mais vale perseguir a nossa própria felicidade ao invés de tentar agradar os outros porque nem sempre conseguiremos agradar a todos e a vida é muito curta para isso, nem sempre teremos uma segunda chance nas oportunidades que nos são dadas para sermos felizes.

“[…] tudo declarava no mínimo que o coração dele estava voltando a ser dela, que a raiva, a mágoa, a repulsa não mais existiam, e que haviam sido substituídas não simplesmente pela amizade e pela consideração, mas pela mesma ternura do passado. Sim, um pouco da ternura do passado. Não conseguia interpretar a mudança de outro modo. Ele a amava, com certeza.”

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Enza G. Said

Capixaba, acadêmica de Direito, amo a cultura inglesa, mas sonho em morar no sul da França. Sou apaixonada por música clássica, chá, cheiro de chuva e filmes antigos; passo horas relendo trechos dos meus livros favoritos e toco piano nas horas vagas. Contato: enzasaid@gmail.com