Razão e Sensibilidade e os Feministas Acidentais de Jane Austen

O filme de 1996 de Ang Lee e Emma Thompson retrata uma masculinidade que compreende os desejos das mulheres por independência e bem-estar

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Hugh Grant em Razão e Sensibilidade 1996

Quando Colin Firth deu vida na tela à Mr. Darcy, o mais memorável dos homens criados por Jane Austen, a tendência era ofuscar todos os outros. A adaptação de Orgulho e Preconceito da BBC de 1995 para a televisão agradou audiências com a cena inventada de Darcy indo até Elizabeth Bennet de camisa molhada, após um mergulho, e ele se transformou em tal símbolo de masculinidade da era da Regência que uma estátua sua, de 12 pés de altura, aproximadamente 3,66 metros, foi erguida e exposta em um lago de Londres (onde permaneceu até ser levada para a Austrália). De muitas maneiras, o Darcy de Firth está na frente da concorrência como a personificação do homem ideal de Austen (com a exceção de dois outros personagens das adaptações dos anos 90 dos trabalhos da romancista).

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Serpentine, Hyde Park, Londres / imagem divulgação

Razão e Sensibilidade de Ang Lee, que estreou há vinte anos atrás no Reino Unido, é mais conhecido pela ótima direção e pela vencedora do Oscar de melhor roteiro Emma Thompson. Menos lembrada é a maneira radical com que o filme aperfeiçoou seus dois personagens masculinos – Coronel Brandon (interpretado pelo falecido Alan Rickman) e Edward Ferrars (Hugh Grant) – além do romance original. Razão e Sensibilidade deliberadamente deu aos heróis do primeiro romance publicado de Austen, qualidades que não tinham no original ou que não tinham no mesmo grau: atitudes igualitárias com relação às mulheres, afeição por crianças e sensibilidade emocional. Em outras palavras, Razão e Sensibilidade usou versões adaptadas dos heróis do início do século XIX para vender ideais emergentes de masculinidade do final do século XX, no momento em que os movimentos de homens pró-feministas estavam mudando as normas de gênero no campo da política e da cultura popular.

Para entender como Razão e Sensibilidade foi diferente, é necessário lembrar que o ganhador do Oscar de melhor fotografia de 1996 foi Coração Valente, de Mel Gibson. (Gibson, que também estrelou o filme, terminou aquele ano com o Oscar de melhor diretor). Coração Valente não resistiu ao tempo, tendo sido considerado uma vez o pior filme a ganhar o Oscar na categoria de melhor fotografia: o William Wallace de Gibson, baseado em um guerreiro escocês do século XIII, agora parece um cruzamento de Thor, Fabio e Rambo. O crítico William Luhr resumiu o filme como tendo uma visão conservadora, se não de masculinidade reacionária, e excessivamente violento para o momento em que a tradicional masculinidade estava sob ataque.

amazonRazão e Sensibilidade se propôs a fazer algo diferente: a receptividade masculina às necessidades e desejos femininos e um compromisso com a igualdade de gênero pareciam incrivelmente atraentes e historicamente inevitáveis. Com isso, o roteiro de Thompson fez severas adaptações no romance de Austen de 1811, como eu apontei em um ensaio que escrevi para o livro de 1998, Jane Austen In Hollywood. Louis Menand escrevendo no The New York Review of Books (resenha de livros) em fevereiro de 1996, chamou as mudanças do filme de melhorias do original de Austen, mesmo sabendo que o seu ponto de vista poderia ser considerado uma heresia. Ele argumentou que o principal problema do livro era a falta de sensibilidade dos homens com quem as irmãs Dashwood formavam par, um problema, Menand observou, que Thompson pareceu ter corrigido.

Razão e Sensibilidade de Austen investe muito mais energia em desenvolver suas personagens femininas que as masculinas – o que é compreensível. É, afinal de contas, um romance sobre o que acontece a uma família de quatro mulheres (uma mãe recentemente viúva e suas três filhas) forçadas a construir seu caminho no mundo, repentinamente sem meios e sem lar. A história foca especificamente nos pensamentos íntimos e temperamentos opostos das duas irmãs heroínas, a racional Elinor e a romântica Marianne. Seus respectivos interesses amorosos dificilmente poderiam ser considerados desejáveis: o tímido, sem beleza e sem ambição Ferrars, e o muito mais velho, silencioso e grave Coronel Brandon.

Razão e Sensibilidade usou versões adaptadas dos heróis do início do século XIX para vender ideais emergentes de masculinidade do final do século XX.

A primeira característica que faz o personagem de Grant ter sentimentos mais modernos e agradáveis é o seu amor por crianças. No roteiro, Thompson inventou uma amizade de Ferrars com a irmã mais nova de Elinor, Margareth Dashwood (Emilie Francois); em nota, Thompson disse que a conexão se cria quando Ferrars faz uma brincadeira para persuadi-la a sair de seu esconderijo no primeiro encontro dos dois. Não somente faz parecer ter uma intuitiva compreensão dos pensamentos e sentimentos das crianças, mas também se mostrar à vontade no papel de cuidador e professor. Mais tarde no filme, Ferrars ensina Margareth a esgrimir, uma habilidade esportiva diferente para uma mulher no início dos anos 1800.

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Alan Rickman em Razão e Sensibilidade 1996

O Brandon de Rickman tem uma masculinidade mais enigmática e um forte, porém silencioso, cosmopolitismo, mas seu personagem também é complementado pela sincera afeição por mulheres. Diferente de Ferrars, Brandon é um guardião experiente, tendo ajudar a criar uma garota deixada a ele em custódia, Beth (no original Eliza). Brandon admite no romance e no filme que cometeu erros como guardião, que resultaram na ruína de sua pupila por um libertino. (O libertino se mostrou o mesmo trágico e primeiro amor de Marianne, Willoughby, interpretado por Greg Wise). O filme ainda introduz um novo diálogo para Brandon, que sente que deu a sua pupila adolescente muita “liberdade”. Em outras palavras, Thompson apresenta Coronel Brandon como uma figura paterna que deu muita independência a uma garota. E no filme, a fuga de Beth não é resultado da negligência de Brandon, uma falha muito comum nos pais dos romances de Austen, incluindo o Senhor Bennet de Orgulho e Preconceito e Sir Thomas Bertram, de Mansfield Park.

Thompson apresenta Coronel Brandon como uma figura paterna que deu muita independência a uma garota.

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Razão e Sensibilidade 1996

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Razão e Sensibilidade 1996

A performance de Rickman oferece a mais completa versão de masculinidade ao filme. Brandon usa as habilidades que adquiriu com cuidador de sua pupila no namoro, quando ajuda Marianne – apaixonada pelo infiel Willoughby – que fica doente e com febre. Diferentemente do romance, o filme se demora na cena na qual Brandon lê para Marianne enquanto ela se recupera em uma cadeira de descanso. Assistindo o devotado companheiro que o Brandon de Rickman foi para Marianne, vemos uma reviravolta: isso marca o reconhecimento dela e do público que ele está apaixonado. O romance toma pouco tempo para explicar as razões por trás do crescimento da afeição de Marianne por Brandon, o que faz com que o romance deles seja muito mais significativo e mais fundamentado no filme.

A performance diferenciada, contida e torturada de Rickman só acrescenta profundidade emocional à seu personagem – à primeira vista, contém semelhanças com o Darcy de Firth (como Megan Garber do The Atlantic observou, o falecido ator também se mostrou um galã romântico). E, no entanto, Darcy é distante, enquanto o Brandon de Rickman é uma figura íntima e confiável para as mulheres ao seu redor. Sua masculinidade vai além de superficiais exibições de heroísmo e seu apelo romântico decorre do fato de ser muito diferente do hedonista Willoughby. As mudanças que Ang Lee e Thompson fizeram na história original de Austen significaram que o título Razão e Sensibilidade não aludiu apenas às características de suas heroínas. É agora ampliado aos heróis, com os personagens de Alan Rickman e Hugh Grant provando que homens podem combinar sensitividade emocional (“sensibilidade”) com a tradicional racionalidade masculina (“razão”).

Michael Kimmel, um sociologista conhecido por seu ponto de vista de que a igualdade de gêneros é boa para homens e mulheres, publicou seu trabalho de história cultural, Masculinidade na América, em 1996. O ano também trouxe filmes como James Maguire, onde a capacidade do personagem de Tom Cruise de se relacionar com uma mãe solteira, provou sua impetuosidade romântica. (Em uma cena Maguire ainda aparece em um sala cheia de mulheres divorciadas, estereotipadas e com raiva). Também em 1996 a crítica aclamou Fargo, dos irmãos Coen, que satirizou a masculinidade ultrapassada de seus personagens masculinos. Como Tasha Robinson, do The Dissolve observou “Ultimamente todos os homens nos filmes são exibicionistas de diversas maneiras – exceto talvez Norm (Gunderson), que expressa sua masculinidade cozinhando ovos para sua esposa comer antes de ir para o trabalho. Como resultado, ele é o único que acaba vivo, livre e feliz”.

Razão e Sensibilidade serviu para marcar uma virada, provando que a masculinidade pro-feminista nas adaptações de Austen funcionaria. Obrigada a Lee e Thomson, porque os heróis de Austen não serão lembrados como pedantes orgulhosos. Eles renasceram na tela – através das atuações de Grant e Rickman – como cuidadores irresistíveis, influenciando não somente a maneira como as pessoas releem o romance hoje, mas também a como imaginar novamente os homens no romance Razão e Sensibilidade.

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Sobre a autora:

Devoney Looser é professora de inglês na Universidade do Estado do Arizona. Ela já escreveu para o The Independent, para o Los Angeles Review of Books e The Chronicle of Higher Education.

Fonte
The Atlantic

Dandara Machado

Sou de Santa Maria-RS. Amo literatura inglesa e pretendo cursar Letras Bacharelado e tradução inglês-português; mas estou fazendo ciências sociais. Minhas escritoras preferidas são Jane Austen, Anne Brontë, Charlotte Brontë, Georgette Heyer, Elizabeth Gaskell, Frances Burney, Virginia woolf e Katherine Mansfield (KM é a melhor de todas, na minha opinião, e meu conto preferido é "A casa de Bonecas”). Meus livros amados são Jane Eyre e Razão e Sentimento. Contato: dandaramachado210@gmail.com