“Quase tudo que pensamos saber sobre Jane Austen está errado” | Helena Keller

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“Quase tudo que pensamos saber sobre Jane Austen está errado”. É isso o que afirma Helena Kelly, autora de Jane Austen, The Secret Radical (ainda sem título em português), um estudo brilhante, encorpado e bem acessível, sobre os seis maiores romances de Austen, publicado antes do lançamento da nova cédula de £10 com o rosto de Jane Austen, e antes do aniversário dos 200 anos da morte da escritora, em julho de 2017.

Em sua estreia, Kelly, que já lecionou para centenas de alunos na Universidade de Oxford e que, ao longo da última década, ensina sobre os romances de Austen, afirma que nos acostumamos com uma falsa Jane. Após 200 anos de biografias, estudos literários, filmes e adaptações de TV, canecas e xícaras de chá, Austen está tão incorporada em nossa consciência cultural que acabamos nos dispersando dos romances em si. A própria Kelly foi uma vítima disso: “Quando eu lecionava sobre Austen, eu geralmente tinha que voltar ao texto para verificar se aquilo de que me lembrava estava de fato nele. E sempre apareciam alunos escrevendo ensaios sobre cenas que não aconteceram de verdade nos romances, mas das quais eles se lembravam de ter visto em algum outro lugar”.

Se realmente quisermos entender Austen do jeito que ela queria ser entendida, afirma Kelly, precisamos eliminar esse pretenso conhecimento do seu trabalho e as nossas noções de “dramas recatados em salas de estar”, e, ao invés disso, reler os romances, munidos do contexto em que eles foram criados: um tempo turbulento de guerra, revolução, império, censura e vigilância estatal. Afinal de contas, Austen escrevia não para um público de TV, fã de Colin Firth, de 200 anos depois, mas sim para leitores atentos de sua época – “Eu não escrevo para elfos estúpidos que não têm muita criatividade”, como ela mesma escreveu.

Austen poderia presumir que tais leitores captassem as referências contemporâneas sobre política, acontecimentos do mundo e religião, assim como Zadie Smith prevê que voltaremos à sua obra com algum conhecimento e sensibilidade sobre a Grã-Bretanha multicultural. Revisitar os romances de Austen dessa forma irá, de acordo com Kelly, revelar uma escritora que, longe de se preocupar apenas com parceiros de dança e sorrisos tímidos na sala de estar, era radical, espirituosa, teimosa e extremamente preocupada com as questões políticas e sociais da época em que vivia. Uma escritora que acharia que Orgulho e Preconceito e Zumbis não é revolucionário o bastante.

Versões adolescentes

Quando adolescente, Kelly confessa que ficava impressionada (como muitas de nós ficamos) com os encantos do herói bonitão, que nadava no lago, com o peitoral de fora, representado pelo Mr. Darcy da adaptação televisiva de Orgulho e Preconceito de 1995. “Minha irmã e eu ganhamos a fita cassete dupla dessa adaptação e assistimos diversas vezes até as fitas ficarem deformadas. Mas eu acredito que o que me atraia de fato era a forma com que as adaptações destacavam a experiência das mulheres, e especialmente uma família de irmãs adolescentes, com uma combinação de afeto e vontade de estrangular umas às outras. Não se vê isso com muita frequência”.

Por outro lado, Mansfield Park, que Kelly estudou durante sua qualificação para o A-Level, foi uma frustração. “Eu achei ele muito difícil e cansativo. Eu me lembro de pensar: consigo perceber que há todo um trabalho artístico, mas não consigo entender o porquê. Onde está a essência, o eixo de tudo?” Kelly não estudou Austen novamente até o seu mestrado no King’s College, em Londres, e seu doutorado na sequência, em Oxford. Antes disso, uma curta experiência na faculdade de direito a convenceu que uma desejada carreira de advogada não era para ela, mas algo na experiência de se estudar direito deu a ela uma abordagem mais investigativa quanto aos romances de Austen. “Eu os abordei de forma bem diferente de antes e comecei a notar coisas diferentes”, diz Kelly.

Kelly escreveu sua tese sobre as petições da Lei de Cercamentos existentes na bibliografia sobre as Guerras Napoleônicas, e fez um estudo detalhado de Emma durante esse processo. “Cerca de 30% de todos os cercamentos legais aconteceram entre 1789 e 1815. É a época central de Austen, a época da sua vida adulta enquanto escritora. Quase todos os proprietários de terra da Inglaterra e do País de Gales estavam lidando com a questão dos cercamentos nessa época, e isso tomou um enorme tempo dos parlamentares. Portanto, é claro que Austen escreveu sobre isso”.

E, de fato, conforme Kelly nos mostra, Emma é permeado de referências a cercas e barreiras. Lembram-se daquelas crianças ciganas desagradáveis que tentaram roubar Harriet Smith? Elas estão pedindo esmola na estrada porque ficaram para fora da cerca feita em seu acampamento. O entusiasmo da nova interpretação feita sobre Emma libertou Kelly para voltar a estudar outros romances de Austen de novo. “É uma questão de confiar no autor. Se você olhar os textos com seriedade, então você precisa confiar que o autor quer realmente escrever aquilo que eles escrevem. Austen não faz comentários inúteis. Se há algo ali é porque é para que você o capte”.

Em Jane Austen, The Secret Radical, Kelly afirma que Razão e Sensibilidade revela a indignação de Austen quanto à primogenitura, e que a situação lamentável das mulheres existiam, geralmente, devido à incompetência financeira de seus parentes homens. Mansfield Park é um “romance passional”, pesado e profundamente preocupado com a abolição da escravidão, claramente marcado pelo seu título (Lord Mansfield era um dos abolicionistas mais importantes do fim do século 18). Northanger Abbey, no qual Austen chega mais perto de temas sexuais, trata dos perigos do parto, bem como das consequências de não se ler livros com a atenção necessária. Persuasão, o último romance completo de Austen, é uma meditação agridoce do caos inerente de nossas vidas em um mundo marcado pela instabilidade e mudança constantes.

O orgulho antes da queda

E quanto a Orgulho e Preconceito? O mais amado romance de Austen é agora, Kelly afirma, o mais difícil que ela tentou ler. “Pensamos em Elizabeth e Darcy tendo um caso de amor clássico, mas, naquela época, era completamente o oposto. Retratar a abordagem sobre o amor como sendo algo gradativo e atencioso não era o que os romances faziam na época. O romance clássico da época é de Jane e Bingley. Eles se encontram e se apaixonam instantaneamente, seguindo o roteiro”.

Kelly classifica Orgulho e Preconceito como “um conto de fadas revolucionário”, e demonstra que o caso de amor sincero e intenso que acontece entre Elizabeth e Darcy é muito radical: uma união, em um período de guerra e revolução, de duas pessoas que, embora sejam de classes sociais diferentes, são iguais em muitos outros aspectos. “É sobre um casamento incomum, mas não pelas razões que imaginamos”, afirma Kelly. Não é mera coincidência que o romance também apresente Lady Catherine de Bourgh, a personagem aristocrática mais desagradável de Austen, a que tem um nome francês ainda por cima.  “De relance, podemos ver a sombra da guilhotina”, escreve Kelly.

A ideia de Kelly de escrever um livro para o público em geral, explicando sua compreensão particular do trabalho de Austen tomou forma nos árduos primeiros meses após ela ganhar o seu primeiro filho, Rory, que agora tem 3 anos e meio. “Tanto meu marido quanto eu sofríamos com a privação do sono. Eu tinha alucinações com bebês engatinhando no teto, era tudo muito difícil. Acredito que há uma característica um pouco delirante na forma que o livro tomou também, sobre a qual eu comecei a pensar: como Austen se parece se tirarmos tudo, tudo aquilo que pensamos saber, e simplesmente voltar aos textos? Como ela se parece então, e o que ela está realmente tentando dizer às pessoas para as quais ela realmente escrevia?”

Essa é a descoberta que Kelly nos convida a fazer na época do bicentenário de Austen. Parece uma forma apropriada para homenagear uma das nossas grandes romancistas, uma que pode ser, de fato, maior do que jamais imaginamos.

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Publicado em 07 de novembro de 2016. Por Caroline Sanderson para The Bookseller
Esse artigo foi publicado originalmente na revista The Bookseller em 9 de setembro de 2016.

Mariana Almeida

"Apaixonada por idiomas e todo o universo textual, trabalha com revisão e tradução (inglês-português) nas áreas de meio ambiente, administração, marketing, linguagem, literatura, sociologia e autoajuda. Formada em Letras e em Administração, especialista em Comunicação Empresarial, especialista em Tradução, mestre em Ciências Humanas e Sociais, atua também como professora universitária, orientadora de trabalhos de conclusão de curso na área de comunicação, participação em bancas examinadoras de trabalhos, em eventos na área científica (congressos, seminários, simpósios) como ouvinte e como expositora, com artigos publicados em periódicos científicos."

  • 검은 고양이

    que visão interessante e verdadeira sobre as obras da Jane!! e como é bom desconstruir tudo que imaginamos antes (e também nossas mentes influenciadas por adaptações dos dias de hoje) para entender o que a autora quis realmente passar em seus textos. quero muito esse livro!

    • Maria Sônia Oliveira

      Eu também fiquei muito curiosa. Vamos aguardar o livo Cartas de Jane Austen para saber mais da autora e suas intenções. Será lançado pela Martin Claret.

  • Adorei! Penso muito nisso também. Todo romance possui um contexto que vai além do que ele mostra em suas páginas. Nós estamos tão mergulhados na fantasia “Mr.Darcy” (que eu amo, claro) que às vezes esquecemos de olhar para o verdadeiro trabalho da Jane… não valorizamos ela de fato. Espero que seja publicado aqui!

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