Procurando por um romance sobre uma garota boa e poderosa? É hora de voltar aos clássicos

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Por Mary Claire Lagroue

O remake do clássico da Disney Cinderella, lançado no início desse ano, foi um sucesso de crítica. Na minha opinião, por um bom motivo: não somente o filme era lindo e bem feito, mas também por recontar o conto de fadas clássico como mais que um romance que o tema é a ascendência da heroína da pobreza à riqueza ou sua paixão por um nobre. Esta versão celebra a vida interior e feminilidade autêntica de sua heroína, Ella.

Esta versão de Cinderella afirma que os nossos maiores atributos vêm de dentro (bondade, força, compaixão e capacidade de perdoar). Da mesma forma, a beleza feminina começa no coração. Nós nunca temos que negar nossa feminilidade para sermos fortes nem subestimar nossa força para sermos femininas. Mulheres podem ser ao mesmo tempo gentis e extremamente resistentes. A gentileza pode precisar tomar coragem, mas nunca passará despercebida. A genuína beleza ofusca a vaidade. E a virtude nunca sai de moda.

Essa nova versão é notável e refrescante no atual cenário da cultura popular. Como subestimar temas como gentileza, perdão e beleza interior? Esse filme pode não ser o antídoto para a fixação da nossa cultura na vaidade e na aparência, onde as mulheres são examinadas e medidas por valores externos, tais como fama e fortuna. Mas Cinderella nos aponta uma boa direção — uma, eu ousaria dizer, que remete a temas que nos habituamos a ver com muito mais frequência em protagonistas femininas. Na próxima vez que você estiver procurando por uma heroína forte, considere qualquer um desses romances clássicos, que ainda falam a mulheres fortes até hoje.

Uma heroína que confia em sua força interior: Jane Eyre, de Charlotte Brontë

Os leitores vitorianos dos dias de Charlote Brontë consideraram Jane Eyre radical. Hoje, consideramos que é um dos primeiros romances feministas e uma história clássica de amadurecimento: Jane Eyre sai para uma jornada e retorna uma mulher mais sábia, mais madura e autoconfiante.

Como uma órfã conhecida por não ter beleza nem riqueza, Jane pode parecer, à primeira vista, despretensiosa, mas seu caráter não é nada simples. Por um lado, demonstra grande coragem e respeito próprios. Ela termina um relacionamento depois de perceber que seu noivo não era quem pensava. Jane acredita que deve fazer o que é correto.

Isto é talvez o mais admirável sobre Jane; ela nunca trai suas crenças. Jane se preocupa com os outros que se sentem abandonados, porque sabe o que é estar sozinha. Ela pode não ter muito, mas é responsável por sua própria riqueza material. E é grata, percebendo o quanto abençoada é, apesar de seu sofrimento.

Ela segue o seu coração e encontra satisfação no final. Jane lembra até as mulheres mais independentes que dar e receber amor são propósitos dignos. “Eu sei o que é viver inteiramente para quem eu mais amo na Terra”, ela diz.

Porque Jane Eyre nos ensina que o crescimento vem quando aprendemos a ser autossuficientes e a “sairmos de nós mesmos” (olhar não somente para nosso umbigo), ela definitivamente faz o modelo das heroínas fortes dos clássicos.

Uma história de amor entre irmãs e fortes relacionamentos femininos: Razão e Sensibilidade, de Jane Austen

Jane Austen criou duas dinâmicas, fortes e virtuosas heroínas que ainda são amadas até hoje. Razão e Sensibilidade apresenta duas heroínas, irmãs que compartilham laços de família e amizade íntima e são o melhor exemplo de Austen de como fortes relações femininas podem nos edificar e nos permitir crescer.

Marianne e Elinor Dashwood são tão diferentes quanto duas irmãs podem ser. Elinor é “compreensiva” e “afetuosa”; ela tem apenas dezenove anos, mas seu bom julgamento a torna apta para ser conselheira até da mãe. Ela tem “um excelente coração”, uma disposição afetuosa e sentimentos fortes; mas ela guarda seus sentimentos para si mesma. Marianne, ao contrário, é guiada pelo coração. Ela é “sensível e inteligente, mas ansiosa em tudo; seus pesares, suas alegrias não poderiam ter moderação”.

Elinor e Marianne tem uma ligação insubstituível. Quando os outros relacionamentos as decepcionam, elas se apoiam uma na outra. As irmãs são o maior suporte uma da outra em tempos de perdas e sofrimentos, e quando o destino dá uma guinada para melhor em suas vidas, elas celebram juntas. Suas diferentes personalidades até ajudam uma a outra a crescer: Elinor aprende a expressar seus sentimentos e Marianne aprende a ser mais equilibrada.

Austen nos mostra como amigas são companheiras; para suporte emocional, assim como para nosso crescimento e em cada fase da vida. Afinal de contas, o que seria da vida sem nossas amigas?

Uma heroína que luta pelo bem comum e encontra poder na perseverança: Agnes Grey, de Anne Brontë

Nunca subestime uma história de Cinderella: Agnes Grey, o romance de estreia de Anne Brontë, segue o modelo da Cinderella, mas também adiciona os problemas do século XIX de instrução social e opressão — tudo através do exemplo de uma  heroína que serve o bem maior.

Uma “sábia e boa preceptora”, Agnes tem um forte senso de propósito: quer ensinar crianças não somente “como viver”, mas como levar uma vida moralmente correta também. Bem, para sua surpresa, seus alunos tratam-na terrivelmente, afirmando seu poder sobre ela e atormentando-a.

Agnes pode não ter poder, como era o caso da maioria das mulheres do século XIX, mas ela persevera em seu compromisso com o bem maior. Agnes assume o controle de sua situação para fazer o que faz melhor, ensinar. Quando ela pega um menino torturando pássaros por diversão, sai em defesa dos indefesos — não sem compartilhar uma lição, claro. Ela explica que todos merecem misericórdia, mesmo aqueles que parecem inferiores e indignos.

Uma e outra vez, Agnes supera maus tratos escolhendo misericórdia ao invés de ressentimento — e no fim é mais feliz por isso. Em Agnes Grey, a vida virtuosa garante felicidade e, mais importante, a verdadeira realização. Simplificando: “a melhor maneira de desfrutar de si mesmo é fazer o que é certo e não odiar ninguém”, Brontë escreve.

Com todas as circunstâncias que poderiam tornar Agnes amarga, ela ainda resolve melhorar o mundo. Através de sua dedicação ao bem maior, Agnes nos lembra a perseverar em nossos propósitos, não importa os desafios que enfrentamos. Lembrem-se disso, mulheres!

Uma heroína que faz o melhor em cada situação: Anne de Green Gables, de Lucy Maud Montgomery

Você pode ter lido Anne de Green Gables no ensino fundamental, mas este clássico infantil pode cativar leitores mais velhos também, em virtude de suas lições atemporais e sua heroína peculiar, Anne Shirley.

Anne passou a infância em lares adotivos e orfanatos, contando com a imaginação para superar todas as provações. Por (um feliz) acidente, ela é adotada e trazida à Green Gables. Quando ela chega no novo lar, Anne ainda tem de lidar com os medos e sentimentos de rejeição. Mesmo assim, Anne enfrenta a vida com um espírito otimista. “É mais fácil ser alegre e aguentar a aflição em um dia de sol”, ela diz. Anne poderia facilmente perder tempo com a dor, mas invés disso foca na gratidão.

Anne pode adaptar-se a cada situação e com um toque mágico de imaginação, fazer o melhor em cada uma. Ela é talentosa, mesmo que seus esquemas bem-intencionados tragam problemas muito frequentemente. No final do romance, Anne cresce e torna-se uma determinada garota de dezesseis anos, ansiosa para ajudar na comunidade, começando (literalmente) em seu próprio quintal.

Sempre romântica, a jovem Anne diz que gostaria de ser “notável”. No fim, Anne cria uma vida notável para si mesma nas formas mais comuns, “através do trabalho sincero, aspirações dignas e amizades agradáveis”. Anne vive e ama incondicionalmente. Nunca deixa o pensamento de fracasso impedi-la de tentar novamente. Ela encontra beleza em todo lugar, deleitando-se com a dádiva que cada dia traz. Acima de tudo, Anne é incrivelmente esperançosa, imaginativa, leal, determinada e corajosa.

O exemplo de Anne mostra que a atitude muda tudo. E com esperança, gratidão e talvez um pouco de imaginação, temos o poder de fazer o melhor em cada situação.

Um romance que celebra os dons e vocações das mulheres: Mulherzinhas, de Louisa May Alcott

A história do amadurecimento de quatro irmãs, Mulherzinhas nos traz as mesmas lições que as Irmãs March aprenderam com a experiência — lições de amor e sacrifício, ambição e humildade, pesar e alegria.

As irmãs March — Jo, Meg, Beth e Amy — tem diferentes personalidades, talentos e defeitos. São perfeitas heroínas imperfeitas, garotas comuns de uma família comum. No entanto, a família March é rica em amor, laços familiares, gratidão e alegria, “as bênçãos reais da vida”.

As garotas March põem amor em seus trabalhos. Jo, a principal protagonista, publica histórias para ganhar dinheiro para a família. No entanto, acredita que as suas realizações como jovem escritora não são as melhores medidas de sucesso. Ao invés disso, ela acha que “o verdadeiro sucesso, que é possível para todos”, reside no coração — na genuína virtude, boa vontade e habilidade para amar. Seu generoso coração faz com que use seu dom de escrever para o benefício da família, em vez do seu próprio — e esse é o “verdadeiro sucesso”. Em Mulherzinhas, virtudes e talentos não são usados para proveitos próprios; dádivas como a criatividade e compaixão devem ser compartilhadas.

Louisa May Alcott considera o significado da feminilidade em suas diferentes formas, e leva seus personagens da infância para a vida adulta, para o romance, casamento e maternidade. Quando as irmãs crescem, seus dons femininos servem bem a elas; elas encontram maneiras de usarem suas virtudes e talentos em diferentes vocações. Em Mulherzinhas, as variadas vocações das mulheres (artistas, mães, escritoras ou professoras) são igualmente importantes.

Mulherzinhas nos lembra a aceitar, se não celebrar, o que nos é dado — personalidade, circunstâncias, talentos e até mesmo provações. Através das nossas vocações, podemos usar diferentes dons e dar algo bonito em troca.

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Fonte:  Verily

Dandara Machado

Sou de Santa Maria-RS. Amo literatura inglesa e pretendo cursar Letras Bacharelado e tradução inglês-português; mas estou fazendo ciências sociais. Minhas escritoras preferidas são Jane Austen, Anne Brontë, Charlotte Brontë, Georgette Heyer, Elizabeth Gaskell, Frances Burney, Virginia woolf e Katherine Mansfield (KM é a melhor de todas, na minha opinião, e meu conto preferido é "A casa de Bonecas”). Meus livros amados são Jane Eyre e Razão e Sentimento. Contato: dandaramachado210@gmail.com

  • Tamires

    Adorei o artigo! 🙂

  • Raquel

    Que lindo, dos livros que você mencionou eu ainda não li os livros das Irmãs Bronte, e sinto vergonha disso, preciso ler logo. Bom saber que há mais pessoas que conhecem essas obras, ás vezes, parece que são tão poucas as pessoas que leem literatura inglesas, sendo esses clássicos. Amo o blog de vocês, é tudo muito lindo^^

  • Leila Maciel

    Ah, que esse artigo maravilhoso vai me fazer revisitar Jane Eyre e Razão e Sensibilidade.

  • Júlia Knightley

    Artigo perfeito para esse dia 08 de março.