Pride and Prejudice, uma análise

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O romance Pride and Prejudice (Orgulho e Preconceito) nasceu como First Impressions (Primeiras Impressões), entre 1796 e 1797. Recusado pelo editor Thomas Cadell, o manuscrito foi profundamente revisado por Jane Austen nos anos de 1811 e 1812, vindo a ser publicado em janeiro de 1813 pela editora de Thomas Egerton. Foram impressas 1.500 cópias, que já estavam totalmente vendidas em julho do mesmo ano. A boa receptividade do romance levou a uma nova edição, em novembro, tanto de Pride and Prejudice quanto de Sense and Sensibility (Razão e Sentimento), o primeiro romance publicado de Jane Austen.

Pride and Prejudice é considerado o mais popular romance de Jane Austen e também o melhor de seus livros (apesar de nas últimas décadas Emma ter ocupado este posto, pela sua técnica sofisticada, e também Persuasion (Persuasão), pelo tom diferente dos outros romances). É o mais publicado e traduzido para outros idiomas e para outras mídias – filmes, séries, gibis, fanfictions etc. Suas mais famosas traduções intersemióticas foram uma minissérie inglesa da rede televisiva BBC, produzida em 1995, um filme dos estúdios Universal, exibido nos cinemas em 2005, e uma websérie chamada The Lizzie Bennet Diaries (Os diários de Lizzie Bennet) no formato inovador de vlog, criada pelos roteiristas Hank Green e Bernie Su e lançada no site You Tube em 2013.

Apesar de parecer uma história simples, há uma complexidade temática excepcional em Pride and Prejudice. São tratados, com inteligência, temas como: a necessidade do casamento como meio de sobrevivência para as mulheres nos séculos XVIII e XIX; as intrincadas relações familiares; as diversas nuances do amor e da corte; as falhas que podem ocorrer na comunicação; as fraquezas humanas, como ignorância, vulgaridade, indelicadeza, inconstância, hipocrisia, vaidade, sentimento de superioridade baseado unicamente na posição social ou fortuna, orgulho e preconceito.

Os defeitos da sociedade e dos indivíduos, em particular, são esmiuçados e potencializados sob as lentes do sarcasmo e da ironia. Todos as personagens austenianas têm ao menos um defeito de caráter, o que inclui seus heróis, mas não são tratados como caricaturas, e sim com um toque de humanidade e veracidade que tem gerado o sentimento de identificação com os leitores, por gerações. Mas muito além de um romance de costumes, Pride and Prejudice é também um livro sobre amor: Elizabeth e o Sr. Darcy formam um dos casais mais amados da literatura, até hoje.

Uma descrição muito condensada da história, se atendo aos fatos principais: há um novo morador, rico e solteiro, chamado Sr. Bingley, na região onde moram os Bennets. A família Bennet é composta por: pai, mãe e cinco irmãs “casadoiras” – Lydia, Kitty, Mary, Elizabeth e Jane, as duas últimas as mais velhas e protagonistas. Jane Bennet e o Sr. Bingley irão se apaixonar, mas seu amigo, o Sr. Darcy, e suas irmãs o convencerão a partir antes que ele se comprometa. O grande paradoxo é que o Sr. Darcy irá se apaixonar pela inteligente, bem-humorada e sarcástica Elizabeth, e proporá casamento a ela, sendo, contudo, rejeitado.

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Nos capítulos 34 (o pedido de casamento) e 35 (a carta do Sr. Darcy) há a crise da ação: uma grande quantidade de novas informações é adicionada à trama e várias certezas são desfeitas – do leitor e de Elizabeth: a indiferença do Sr. Darcy se transforma em amor; suas atitudes para com o Sr. Wickham são justas e não cruéis; até mesmo seu orgulho e sua interferência na corte do Sr. Bingley e de Jane são justificáveis. A partir de e graças a esse ponto de virada, a história toma um rumo diferente, que prosseguirá com a transformação das personagens até o desfecho – a aceitação de Elizabeth do segundo pedido de casamento:

[…] A primeira aversão de Elizabeth por Darcy era inevitável por causa das circunstâncias em que travaram conhecimento, porque Darcy orgulhava-se de sua posição social e Elizabeth era estorvada por sua família pouco atraente e porque eram pessoas de caráter tão decidido que, no início, certamente deveriam antipatizar um com o outro. Elizabeth é fiel à sinceridade de seu espírito ao acreditar que Darcy é insensível, arrogante e vingativo; é de igual modo fiel a ela mais tarde ao reconhecer que está enganada e ao mudar de opinião. A ação é criada, aqui, por aquêles personagens que se mantêm fiéis a si mesmos; é sua constância que, como uma lei da necessidade, põe os eventos em movimento e, através dêstes, êles gradualmente se manifestam. (MUIR, 1928, p. 24)

Como afirma Deresiewicz, o amor é pedagógico em todos os romances de Jane Austen, mas apenas em Pride and Prejudice os amantes levam um ao outro em direção à verdade. É este amor transformador – que vai da antipatia ao ódio, do ódio à compreensão e ao remorso e daí para a estima, respeito e, finalmente, afeição – que prende o leitor a dois personagens por si só atraentes, mas que possuem um magnetismo ainda maior como um par.

Segundo Mooneyham, Pride and Prejudice é o único romance austeniano em que o cerne da narrativa é a relação entre o herói e a heroína (nos outros isto está um nível abaixo em importância). Ela afirma que a estrutura de Pride and Prejudice é um produto da relação de Elizabeth e do Sr. Darcy: o ritmo do romance é de uma intensidade dramática crescente quando eles estão juntos e de uma sensação de calmaria quando eles estão separados:

O segredo da popularidade de Pride and Prejudice reside na dinâmica entre o herói e a heroína. A faísca de seu relacionamento depende de sua igualdade de inteligência e percepção, pois Elizabeth e Darcy são mais completamente iguais nesse sentido do que quaisquer outros dos protagonistas de Austen. Cada um é tanto protagonista quanto antagonista; ou seja, sua luta é tanto um contra o outro como contra as pressões da sociedade ou da família. O romance apresenta um equilíbrio de poder não só entre duas personagens, mas entre dois conflitantes modos de julgamento, e, por extensão, entre dois sistemas conflitantes de linguagem que refletem e moldam esses julgamentos. Pride and Prejudice resolve estes conflitos com um compromisso; tanto Darcy quanto Elizabeth mudam, embora em diferentes direções. Além disso, em Pride and Prejudice, a resolução do romance não depende da rendição de um amante para o outro, como acontece em alguns dos outros romances de Austen.

Matéria da Rebeca

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Referências:

  • DERESIEWICZ, William. Community and Cognition in Pride and Prejudice. In: BLOOM, Harold (Ed.). Jane Austen. New York: Infobase Publishing, 2009. (Bloom’s Modern Critical Views). p. 113 – 144.
  • MOONEYHAM, Laura G. Darcy and Elizabeth as hero and heroine. In: BLOOM, Harold (Ed.). Jane Austen’s Pride and Prejudice. New York: Chelsea House Publishers, 2004. (Bloom’s Guides). p. 68 – 71.
  • MUIR, Edwin. A estrutura do romance. Tradução de Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Editora Globo, 1975 [1928].
  • AUSTEN, Jane. Orgulho e Preconceito. Tradução de Celina Portocarrero. Porto Alegre: L&PM, 2011.[1813].

[Adaptado da minha monografia “May I introduce you Mr. Darcy?”: focalização da personagem em Pride and Prejudice (UFBA, 2015)]

Ilustrações: http://www.pemberleypond.com/

Rebeca Lima Teixeira

Soteropolitana. Bacharel em Língua Inglesa. Cristã. Caseira e reservada, amo dias de chuva e de vento, solidão e silêncio, plantas e passarinhos, panetone e chocotone. Apaixonada por História e Literatura, especialmente a Inglesa - meus livros favoritos falam por mim. http://www.skoob.com.br/usuario/621503-rebeca Contato: rebecaausten@gmail.com

  • Lara

    Muito boa esse análise! Elizabeth e Mr. Darcy são um casal incrível e eu queria muito que tivesse outro livro contando mais sobre eles. Eles são muito inteligentes e instigantes, gostaria de saber como lidaram com a vida de casado, com as opiniões adversar e outras situações até comuns, mas que com eles seria bem interessante. Já assisti a adaptação feita em 2005, mas não sabia da existência dos “Os diários de Lizzie Bennet”! Obrigada pela dica, vou ver se acho para assistir! Amei sei blog!

    • Obrigada! Eu amo Elizabeth e Darcy, não só como um casal, mas como indivíduos também: Jane Austen era mestre em desenvolvimento de plot e de personagens.
      Eu também adoraria ler sequels de “Pride and Prejudice”! A única que eu li foi o incrível “Morte em Pemberley”, de P.D. James. Gosto muito de como a autora desenvolveu a vida de casados dos Darcys. E tem também a minissérie (“Death comes to Pemberley”), que é maravilhosa! Recomendo demais os dois.
      Ah, e aqui o link de “The Lizzie Bennet diaries”: https://www.youtube.com/user/LizzieBennet
      Lá já está com legendas.

  • Enza Said

    Amei a sua análise, Rebeca! Amaria ver mais textos seus assim por aqui… até me deu vontade de ler Orgulho e Preconceito mais uma vez… <3

    • Obrigada!
      “Reler ‘Orgulho e Preconceito hoje, reler ‘Orgulho e Preconceito amanhã’, reler ‘Orgulho e Preconceito para sempre!”
      hehehe

      Tem mais um pra ser publicado, no mesmo estilo (tirado da minha monografia), falando do Mr. Darcy: tudo que faz dele, bem, o Mr. Darcy.

      Beijinhos!