Por que nós amamos Jane Austen?

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É uma verdade universalmente conhecida que alguém em posse de um livro de Jane Austen deve ser apaixonado (a) pela escritora.

Jane Austen é um fenômeno, o que é um feito e tanto considerando que ela está morta há quase dois séculos. Acontece que sempre que uma adaptação de suas obras é lançada seja na TV, seja no Cinema, ou mesmo adaptações baseadas/inspiradas em sua obra (como “O Diário de Bridget Jones”) acaba sendo um sucesso porque ela é um sucesso e tem sido desde que foi publicada pela primeira vez.

O que muita gente não entende (e eu mesma, ignorantemente, não compreendia antes de ter contato com suas obras) é o porquê de tamanho frenesi sobre uma autora que deixou relativamente pouco, não se casou, morreu cedo e da qual não sabemos tanto quanto gostaríamos.

Em virtude disso, resolvi elencar algumas fontes do amor incomensurável por Jane Austen que surge em seus leitores mais calorosos, a começar pelo fato dela ser uma mulher que escrevia sobre mulheres num tempo em que ser uma escritora além de não retratar mulheres como seres frágeis – mas como algo mais do que as típicas mocinhas vulneráveis de grande parte dos romances da época – era um escândalo.

Jane Austen retratou as mulheres como elas são. Aliás, quem melhor do que uma mulher para entender as idiossincrasias e complexidades femininas do que outra? Não me levem a mal, muitos autores homens desde então descreveram o humor das mulheres de forma um tanto precisa, mas Jane Austen conhecia a mente feminina, entendia como a mulher do seu tempo pensava e agia em suas nuances emocionais porque era uma e, melhor ainda, ela era engenhosa.

Além disso, ela via a variedade de facetas que compõem o seu sexo como um todo, expunha suas qualidades, mas não era parcial, desmascarava seus inúmeros defeitos. Suas personagens são retratos fidedignos às mulheres não apenas do seu tempo como às hodiernas também. A falsidade, o interesse e o egocentrismo de personagens como Caroline Bingley, Isabella Thorpe e Fanny Dashwood bem como a bondade, o carisma e a sensatez de Jane Bennet, Elizabeth Bennet e Elinor Dashwood não desapareceram da sociedade e Jane Austen conseguia captar essas matizes femininas e repassá-las em sua obra com tanta maestria que ficamos admirados com tamanha habilidade de percepção.

Outra razão para tanta admiração reside no fato de que Jane Austen não escrevia meramente por escrever. Suas obras eram fonte de ácidas críticas à sociedade do seu tempo. Com um engenho de dar inveja, Jane Austen arquitetava suas palavras de modo sutil e aterrador, somente as mentes mais espertas poderiam compreendê-la. Quase consigo imaginar Jane rindo das pessoas que leriam seus livros e não captariam o sarcasmo crítico a elas mesmas estampada em seus personagens. Como se não bastasse a sagacidade para tanto, ela o fez com um bom-humor raro, que nos deleita por sua inteligência e astúcia.

Nessa mesma linha, Jane nos presenteou com personagens memoráveis: heróis tão inteligentes quanto ela mesma, heróis que escolheram ficar com suas heroínas e superar os obstáculos por elas, heróis difíceis de se encontrar mesmo antigamente. Por que acham que Jane Austen não se casou? Só consigo acreditar que ela entendia as suas leitoras mais espertas e que se encontravam em situação semelhante à sua própria, entendia que os melhores rapazes eram fictícios e, aqueles que eram reais, eram tão inalcançáveis quanto um Mr. Darcy poderia ser, ele pertencia a outra realidade totalmente distinta da realidade de Elizabeth; ou quanto um Edward Ferrars, dentro de um compromisso que não lhe agradava, poderia ser; ou quanto um Capitão Wentworth diante de tantos rancores e mágoas guardadas. Os seus leitores homens também não ficam atrás: as mocinhas com um gênio tão poderoso quanto o de Austen geralmente eram reprimidas pelas normas convencionadas pela sociedade inglesa, levaria mais do que um olhar e uma dança em algum baile a um rapaz como os heróis da escritora inglesa para encontrar heroínas tão espirituosas quanto as dela, então saber que alguém pudesse criar mocinhas tão surpreendentemente inteligentes e engenhosas quanto Elizabeth Bennet significava que havia alguém que fosse tão brilhante quanto a protagonista de Orgulho e Preconceito por trás e que nem todas as moças da sociedade eram fúteis e vazias de sentido e significado, meramente reprodutoras de normas e convenções a elas impostas.

Além disso, os mocinhos e mocinhas de suas histórias são reais, o que é, de certo modo, um reflexo da ampla visão de mundo e capacidade de percepção, discernimento e compreensão que Austen possuía. Seus protagonistas não são exemplos de perfeição, muito pelo contrário, cada um apresenta pelo menos uma falha que se evidencia e influencia o curso de suas histórias, cada um tem pelo menos uma fraqueza. Seja pelo orgulho, pela vaidade, por alguns vislumbres de insensatez ou inocência, seus protagonistas possuem algum defeito, o que os torna mais humanos e parecidos conosco. O que delineava a forma humana dos personagens eram justamente suas falhas e complexidades de caráter. Austen se aproximava de nós ao esboçar personagens com os trejeitos de nossa vizinha, a tolice de algum amigo, a vaidade de um conhecido e a sensibilidade exacerbada (ou mesmo a falta dela) presente em muitos de nós mesmos e é por isso que sentimos como se pudéssemos encontrar uma grande amiga na autora e que, uma vez em contato com suas obras, passamos a admirá-la e a amá-la… ardentemente.

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Enza G. Said

Capixaba, acadêmica de Direito, amo a cultura inglesa, mas sonho em morar no sul da França. Sou apaixonada por música clássica, chá, cheiro de chuva e filmes antigos; passo horas relendo trechos dos meus livros favoritos e toco piano nas horas vagas. Contato: enzasaid@gmail.com

  • Cinthia Barbosa

    Parabéns pelo excelente texto!!! Concordo com tudo o que disse, é incrível como a Jane tinha sensibilidade para ver e escrever sobre as pessoas, seus defeitos e qualidades, isso me encanta cada vez que a leio, pois gosto muito de reler livros, e cada vez que releio Jane me apaixono mais pela sua escrita e pelos livros!! Um abraço!!