Por que Middlemarch é o melhor romance britânico?

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O vasto romance sobre a vida no campo de George Eliot triunfou em uma enquete feita pela BBC Culture a respeito de quais eram os melhores romances britânicos, votada pelo resto do mundo. Michael Gorra explica o porquê.

Oh, deixe-me contar os motivos! Vou começar com uma personagem que me faz pensar que este livro grande não é grande o suficiente: Mrs. Cadwallader, a esposa de língua afiada do Reitor de Tipton e Freshitt. Seu nome, tão imponente quanto cômico; sua arrogância estranhamente despretensiosa; seus julgamentos de outros personagens do livro baseados no senso comum que, frequentemente são irrelevantes.

Eu valorizo cada palavra que ela diz e, às vezes, não posso perdoar George Eliot por não ter escrito mil palavras narradas por ela. Mas, de qualquer forma, não há um personagem secundário neste romance cheio de gente dos quais não quero um pouquinho mais, seja o severo advogado conservador Frank Hawley, o leiloeiro pomposo Borthrup Trumbull ou a criada totalmente leal Tantripp.

Há também a densa descrição de Middlemarch sobre a vida comum, o campo, as vilas ao redor, além de sua narrativa; a trama mais intrincadamente atada a um século que era especialista nelas.

George Eliot escreve que qualquer um vendo a “furtiva convergência de conteúdo humano”, notará uma “vagarosa preparação de efeitos” já que as ações de uma pessoa começam a nos revelar as ações de outra pessoa. E essa vagarosa preparação é, de certa forma, o próprio romance já que ele conecta quatro histórias, aparentemente separadas, em uma só. Inicialmente, essas histórias mal se tocam, mas, quanto mais se aprofundam, mais elas começam a se misturar, mais difícil de dizer a história a qual um acontecimento pertence. No final, um pedaço de papel disperso une tudo. Matéria e forma tornam-se indissolúveis.

BG1T10 GEORGE ELIOT - English writer (1819-80) pseudonym of Marian Evans

Mary Ann Evans, que escrevia sob o pseudônimo de George Eliot, nasceu em Nuneaton, Warwickshire em 1819 (Foto: Pictorial Press Ltd/Alamy Photo).

Muitos romances ainda fazem isso, mas este tem algo mais. Tem George Eliot, uma narradora cuja voz e presença são tão memoráveis quanto qualquer personagem da literatura inglesa. Seus pronomes atraem o leitor à narrativa com sabedoria, não raro sugerindo que nossas primeiras reações são superficiais. Se você realmente ler este romance, vai aprender sobre si mesmo; se ouvi-la, se deixar as frases lhe penetrarem, vai descobrir coisas sobre si mesmo que você não sabia e talvez nem queira saber.

Força de personalidade

Middlemarch tem pelo menos três personagens cujos nomes se tornaram “ditados”, a começar pela sua grande heroína, Dorothea Brooke. Os outros são o jovem médico Tertius Lydgate e o primeiro marido de Dorothea, o pedante Edward Casaubon. Eles fazem parte da mente do leitor tanto quanto Jane Eyre ou Jay Gatsby em uma era em que muitos romances focavam no período de tempo em que o homem cortejava a mocinha, a corte. Ao invés disso, George Eliot utilizou os personagens para focar no casamento. Seus protagonistas se casam cedo no livro e então ela permite que nós possamos assistir às suas vidas começando a se desgastar. Comparamos um casamento, uma pessoa, com outra e outra e aprendemos a verdade desconcertante de que más pessoas, como o banqueiro Nicholas Bulstrode, podem ser bons maridos.

A mais importante dessas comparações é a que há entre Dorothea e a bela e loira esposa de Lydgate, Rosamond. Elas se encontram apenas três vezes, mas o romance gira em torno das duas e até o clímax requer um ato de generosidade extraordinária da parte de Dorothea em relação à mulher que se tornou sua rival. Mas requer que ela dê um salto imaginário.

Centenas de páginas antes, George Eliot havia iniciado um capítulo assim: “Em uma manhã, algumas semanas após sua chegada em Lowick, Dorothea… mas por que sempre Dorothea? Seu ponto de vista era o único possível?” E isso é bem fácil para a romancista dizer, mas para o resto de nós não é tão simples, não quando nós mesmos estamos tão envolvidos nas obscuras dificuldades da vida. Dorothea tem que se ensinar a se questionar da mesma forma que George Eliot o faz.

Ela estava sozinha naquela cena? O acontecimento pertencia apenas a ela?” Ela devia aprender – e devemos aprender com ela – como levar completamente em conta as outras pessoas que possuem “equivalentes porções de si mesmas” em relação umas às outras. Essa é uma das grandes lições que Middlemarch oferece e não apenas por intermédio do seu enredo, mas a partir do momento que nos coloca dentro das mentes de seus mais variados personagens ao mostrar seus contornos e a própria linguagem de suas vidas interiores. Os críticos chamam isso de “discurso indireto livre” e, para a maioria dos autores, trata-se, sobretudo, de uma questão de técnica literária. Mas não para George Eliot. Para ela, trata-se de um imperativo ético.

Lisonjeira ilusão

Algumas das melhores passagens de Middlemarch oferecem um tipo de “guia de usuário” como se o livro por si só dissesse como deve ser lido. O melhor é a metáfora do espelho no início do Capítulo 27. Ela sugere que não há nenhum tipo de ordem intrínseca no nosso mundo. Muito pelo contrário, “a lisonjeira ilusão” desta ordem deve ser criada; depende do ponto de vista – da luz que reflete no espelho – e da visão de mundo de cada um, que sempre vai deixar algo de fora. Então não há como capturar a soma das coisas como elas são e o sonho do realismo literário, o sonho do qual um romance depende, deve continuar sendo impossível no final. George Eliot era completamente autoconsciente assim como seus herdeiros modernistas. Ela foi a vitoriana mais cética de todos eles, sempre desconfiada do ambiente que trabalhava.

Middlemarch ... New edition

Uma ilustração da primeira edição de Middlemarch mostra a impressão do artista da fictícia cidadezinha em homenagem da qual o livro é intitulado.

“Isto é uma casa séria em uma Terra séria,/ Em cujo misto ar nossas compulsões se encontram,/ E são reconhecidas e revestidas assim como os destinos”, escreveu Philip Larkin indo à Igreja e, não raro, tem-se dito que nossos melhores romances são as catedrais do mundo moderno. O romance é a forma por intermédio da qual uma era secular tenta definir e conter todas as compulsões da vida humana e, se eu forçar bastante os meus olhos posso até ver a Mrs. Cadwallader esculpida em um capitólio um pouco abaixo da nave na igreja. Nenhuma casa parece maior do que Middlemarch e, ainda assim, sua forma combina uma sólida estrutura com as mais radicais dúvidas sobre a sua própria estrutura. É uma igreja aberta, cheia de buracos e furos que parece um lenço contra o vento e, mesmo assim, a construção permanece de pé.

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Tradução do artigo da BBC Culture

Enza G. Said

Capixaba, acadêmica de Direito, amo a cultura inglesa, mas sonho em morar no sul da França. Sou apaixonada por música clássica, chá, cheiro de chuva e filmes antigos; passo horas relendo trechos dos meus livros favoritos e toco piano nas horas vagas. Contato: enzasaid@gmail.com