Por que Emma de Jane Austen ainda intriga 200 anos depois

Penguin Classics

Penguin Classics

 

O romance foi publicado em dezembro de 1815

Para muitos fãs de Jane Austen, a leitura de Orgulho e Preconceito é sua primeira e preferida experiência com a autora. Mas muitos críticos e estudiosos concordam que o melhor trabalho dela foi Emma, a história de uma altruísta mas também egocêntrica, rica e bonita jovem com uma propensão para casamenteira que jura nunca se casar, mas se apaixona, de qualquer jeito.

A superficial mas bem-intencionada Emma Woodhouse completou 200 anos em dezembro de 2015 e se ela não se parecia com uma perfeita dama, Austen concordou: ela uma vez descreveu sua personagem como “uma heroína que ninguém além de mim mesma gostará muito”. “A história ainda provou que Austen estava no auge de sua escrita,”a estudiosa Juliette Wells diz.

Wells, uma professora associada na Goucher College e editora da nova edição comemorativa de 200 anos de Emma da Penguin Classics, diz que além do romance exemplificar o melhor uso da linguagem de Austen, Wells diz:

“Ela combina o melhor de seus dois períodos como escritora. Nós vemos, certamente, algo do bom humor que está presente em Orgulho e Preconceito e algo da seriedade moral que há em Mansfield Park, mas não tão esmagadoras em Emma”.

O livro traz o melhor uso do livre discurso indireto por parte de Austen, com a narração perto o bastante da própria perspectiva de Emma, que o leitor permanece cego aos próprios segredos que ela não conhece, mas não tão perto a ponto de o egocentrismo da heroína se tornar insuportável.

A forma de execução de Austen, ainda relativamente nova no período, marca a volta a um importante ponto na literatura. Completa Wells:

“Ela não inventou o discurso livre indiretoele já havia sido usado por outros – mas ela certamente foi quem o levou mais longe e estabeleceu sua primazia e necessidade”.

O contraste entre clareza e obscuridade permite surpresas no desenlace do romance – um noivado secreto, uma proposta de casamento e até mesmo a chegada de um bebê. Diz Wells:

“Austen aderiu a convecção de que não falaria sobre gravidez até quase o final do romance. Se você está lendo Emma pela primeira vez, você não necessariamente se dá conta de quão velha (Mrs. Weston) é ou não.  E então, a gravidez vem como uma surpresa também”.

Mas a resistência do romance não é somente um problema de qualidade literária. Como muitos fãs de Jane Austen notaram, a natureza humana não mudou.

Embora a gravidez como surpresa para o final possa parecer estranha hoje, outros elementos da trama são mais facilmente reconhecíveis para os leitores modernos, Wells diz. Seus alunos que vem de culturas onde a devoção aos pais é valorizada entendem a escolha de Emma de não deixar a casa do pai, e outros que sentem pressão para casar, podem se relacionar com a corrida casamenteira no período da Regência Inglesa – e todos nós podemos reconhecer nossa família, amigos e conhecidos nos personagens secundários: faladoras com Miss Bates, presunçosos com Mr. Elton e reservadas com Miss Fairfax.

E, embora os leitores de hoje fiquem desconfortáveis com a diferença de idade entre Emma e seu amado, Mr. Knightley, o romance é moderno de muitas maneiras. Se eles não tem o apelo universal de Elizabeth Bennet e Mr. Darcy de Orgulho e Preconceito, tem um envolvimento realista e gradual. Emma tem a ideia de que nunca encontrará um amor e Mr. Knightley não tem essa ideia na cabeça no começo. “você tem a sensação de que ele acorda lentamente para o fato de que atualmente a deseja,” Wells diz.

Talvez tudo o que esteja faltando para os leitores contemporâneos apreciarem Emma como Orgulho e Preconceito é uma adaptação televisiva de primeira. A adaptação de 1990 é um trabalho de gênio, mas não existe uma adaptação que é consenso. Enquanto Gwyneth Paltrow – estrelando o filme de 1996 – e a minissérie da BBC de 2009 foram razoavelmente bem recebidas, ainda estamos a espera de uma grande adaptação de Emma. “Talvez tudo o que leitor moderno precisa para se apaixonar por Emma Woodhouse no livro é se apaixonar por Mr. Knightley na tela, algo como aconteceu com Colin Firth em Orgulho e Preconceito, na cena do lago”  (minissérie Orgulho e Preconceito da BBC de 1995).

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Fonte: Time

Dandara Machado

Sou de Santa Maria-RS. Amo literatura inglesa e pretendo cursar Letras Bacharelado e tradução inglês-português; mas estou fazendo ciências sociais. Minhas escritoras preferidas são Jane Austen, Anne Brontë, Charlotte Brontë, Georgette Heyer, Elizabeth Gaskell, Frances Burney, Virginia woolf e Katherine Mansfield (KM é a melhor de todas, na minha opinião, e meu conto preferido é "A casa de Bonecas”). Meus livros amados são Jane Eyre e Razão e Sentimento. Contato: dandaramachado210@gmail.com