Persuasão: uma análise (Parte I)

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Persuasão foi o último romance completo que Austen escreveu – ela começou pouco depois de ter terminado Emma, por volta de agosto de 1815, terminando a primeira versão um ano depois, já doente. Considerando que ela escreveu Orgulho e Preconceito em 1796, no mesmo espaço de um ano, para depois revisá-lo e revisar de novo até 1811, é compreensível que por vezes Persuasão pareça uma obra… não digo inacabada… mas sem o devido polimento.
Pois é, eu também fiquei meio besta quando descobri que Tia Jane passou quase quinze anos revisando um livro…

Apesar disso, é meu livro favorito da Austen. Há um amadurecimento tanto no tema quanto na forma com que ela escreve. Para começo de conversa, a protagonista é quase uma balzaquiana, à beira dos trinta anos – o que, para os padrões da época, era já a meia-idade – ao contrário de todas as suas outras heroínas: Jane Bennet tem 22 anos e Lizzy, 21 ao começo de Orgulho e Preconceito; Elinor Dashwood tem 19 emRazão e Sensibilidade.

Nenhuma delas tem grande experiência – podem até ter um bom senso natural, mas não experiência – e todas elas estão ali se apaixonando pela primeira vez.

Essa é a primeira grande diferença de Anne Elliot para todas as suas outras colegas de estante. Ela tem vinte e sete anos e não se casou – o que a qualifica para se sentar com as matronas e solteironas em qualquer salão. Ela não é material para casamentos ou mesmo para felizes para sempre. Além disso, ela tem a experiência do primeiro amor – e também de um coração partido.

É engraçado, mas Persuasão foi criticada duramente por sua “falta de moral”: em 1818, quando primeiro publicada, criticou-se porque não parecia muito sábio que aos jovens fosse permitido escolherem com quem queriam se casar – a conduta de Anne era subversiva, quase escandalosa. Duzentos anos depois, os críticos reclamam que Anne é “quase perfeita, tediosamente desprovida de faltas”.

Vá se entender os críticos…

A verdade – ao menos na minha opinião de leitora – é que Persuasão é sim uma obra meio subversiva, especialmente a se considerar os padrões da época. De todos os casais de Austen, Anne e Wentworth são os mais passionais, os únicos que realmente desafiam convenções (e não apenas as convenções de classe).

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Não era o Sr. Wentworth, o antigo cura de Monkford como as aparências poderiam levar a supor, mas sim um capitão Frederick Wentworth, seu irmão, que, tendo sido promovido a comandante em sequência de uma batalha ao largo de São Domingos e não tendo sido imediatamente destacado, viera para Somersetshire no Verão de 1806; e, como já não tinha os pais vivos hospedara-se, durante meio ano, em Monkford. Ele era, nessa altura, um jovem esplêndido, muito inteligente, ativo e brilhante; e Anne era uma menina extremamente bonita, meiga, modesta e com bom gosto e bons sentimentos. Metade da atração sentida por cada uma das partes teria bastado, pois ele não tinha nada que fazer e ela não tinha praticamente ninguém para amar, mas a confluência de tão abundantes qualidades não podia falhar. Foram-se conhecendo gradualmente e, depois de se conhecerem, apaixonaram-se rápida e profundamente.

A natureza da relação de Anne e Wentworth pode perfeitamente ter sido um dos motivos para que Lady Russell tenha aconselhado sua protegida a desmanchar o noivado. Não era apenas uma diferença de classes, uma questão econômica, mas existia um componente quase incendiário na equação. Lady Russell podia ver ali uma semente para um Romeu & Julieta da vida: muito rápido, muito intenso e pouquíssimo aconselhável.

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Claro, em nada facilitava que Wentworth estivesse para partir de novo e quisesse apressar as coisas o máximo possível. Vamos concordar que além de impulsivo, o cara era bastante cabeça-dura e teimoso.

Mas eu o desculpo porque ao final das contas, Wentworth é um pirata institucionalizado – ainda que ele divida o botim com o Estado, não deixa de ser um pirata, pilhando navios franceses e espanhóis – e há poucas figuras mais charmosas que um bom e velho pirata.

Ok, esse foi um comentário cretino. Voltemos ao que interessa…

Aliás, nos primeiros estágios do “reencontro e reconhecimento” de Anne e Frederick, podemos ver esse elemento passional com bastante clareza.

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A emoção que sentiu ao descobri-lo deixou-a completamente sem fala. Ela nem sequer conseguiu agradecer-lhe. Só conseguiu ficar junto do pequeno Charles, sentindo-se muito perturbada. A amabilidade dele ao vir socorrê-la, a sua atitude, o silêncio em que tudo se passou, os pequenos pormenores, juntamente com a convicção que logo lhe ocorreu, pelo barulho que ele estava a fazer propositadamente com a criança, de que ele tencionava evitar ouvir os seus agradecimentos e procurava mostrar que o que menos queria era conversar com ela, produziram um turbilhão de sensações confusas e dolorosas de que só conseguiu recompor-se quando Mary e as Meninas Musgrove entraram, e ela pôde entregar a criança aos seus cuidados e sair da sala. Ela não podia ficar. Talvez fosse uma oportunidade para observar os amores e os ciúmes dos quatro; eles estavam agora todos juntos, mas ela não podia mesmo ficar.

E não esqueçamos das palavras do próprio Frederick, que falando sobre James Benwick, está obviamente dando vazão aos próprios sentimentos:

Parece, pelo contrário, ter sido um sentimento perfeitamente espontâneo da parte dele, e isso surpreende-me. Um homem como ele, na sua situação! Com o coração ferido, quase destroçado! Fanny Harville era uma criatura superior; e o seu amor por ela era verdadeiramente amor. Um homem não se refaz facilmente de uma tal dedicação por uma mulher assim! Ele não deve, não pode, fazê-lo.

Ok, agora vamos considerar o seguinte… nessa época, se uma garota se encontrasse sozinha na presença de um rapaz por uma certa quantidade de tempo, isso era motivo suficiente para que ela tivesse sua reputação manchada, bem como para que a família exigisse reparação – em outras palavras, casamento.

A mulher era educada para ser uma dama perfeita, de sensibilidade e modéstia, romântica, frágil – Austen, aliás, faz constante graça com essa imagem moldada em muitos romances seus contemporâneos; no inacabado Catherine or The Bower, Mrs. Percival sente-se tão absoltamente confusa com o enorme número de regras existentes para criar uma moça que acaba decidindo-se a reduzir todo aquele imenso código moral em uma única regra a ser aplicada a sua protegida, Catherine: não deixe sua filha conhecer um homem e você estará segura.

Sob essa compreensão do período, o comportamento de Anne – que puxa conversa com Wentworth no concerto em Bath, buscando seu olhar, tentando desesperadamente, por todas as formas possíveis, comunicar-lhe seus sentimentos – ora, isso era realmente subversivo, escandaloso, uma imoralidade!

Antes, contudo, que cheguemos a essa parte da história, há muito chão e muitas observações a fazer.

Embora, realmente, a persuasão esteja constantemente presente, constantemente alguém esteja sendo persuadido, influenciado, mas esse não é o único grande tema da história.

Existe aqui realmente um conflito moral. Por um lado está tudo aquilo que Anne aprendeu durante sua vida, todas as convenções sociais, tudo aquilo que é certo pelo julgamento dos outros… e tudo aquilo que é certo pelo seu julgamento.

Durante a primeira parte da história, Anne é – com o perdão da palavra – um capacho, uma verdadeira mosca-morta. De todas as heroínas de Austen, ela é a mais solitária: diferentemente das Dashwood ou das Bennet, Anne não tem em nenhuma das irmãs um apoio, uma confidente.

A única pessoa no mundo que se importava com ela era Lady Russell e, após a amargura de sua despedida de Wentworth, mesmo ela, Anne afastou.

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O engraçado é que Anne, figurativamente, a garota perfeita. Ela tem boas maneiras, é gentil, delicada, gosta de livros, toca bem, fala italiano com fluência, é capaz de administrar uma casa apesar dos mandos e desmandos da irmã e do pai, é inteligente, tem senso de humor – ela é, enfim, o modelo daquela moça prendada que Lizzy, os Bingley e Darcy discutem em Netherfield.

Mas Anne é, também, uma pessoa vazia. Tendo escolhido viver por princípios e pelo julgamento da sociedade – uma decisão completamente racional – ela sacrificou sua felicidade. E o que ganhou com isso? Vivendo à sombra da família, uma sombra ela mesma, permitindo que todos usem e abusem de si: ao início do livro, Anne perdeu toda a energia, toda a vontade de viver. Ela passa pelas horas e dias de forma mecânica.

Em outras palavras, Anne é um zumbi.

Não há nenhuma ação positiva da parte de nenhum dos protagonistas para precipitar o reencontro. Anne e Frederick terminam a história juntos por um golpe de sorte: em quase oito anos, nenhum deles fez qualquer tentativa de contatar o outro; não tivessem eles se reencontrado, independente do quanto tenham sido obviamente feitos um para o outro, independente de nenhum dos dois ter encontrado felicidade nos braços de outra pessoa (e ambos obviamente tiveram a chance de tentar), não fosse o acidente de percurso dos Croft terem ido parar em Kellynch Hall, eles nunca teriam agido em seus sentimentos.

Obviamente que se isso tivesse acontecido, não haveria muita graça em ler a história, não é verdade?

Ok, acho que já dei o suficiente para vocês pensarem por hoje. Volto à carga amanhã, desta vez com captain, my captain Frederick Wentworth.

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Luciana Darce

Sou uma bibliófila desde que me entendo por gente e leio praticamente de tudo um pouco. Administro o Coruja em Teto de Zinco Quente e sou mediadora de um clube do livro voltado ao debate de clássicos. E nas horas vagas, sou advogada. Você pode me encontrar escrevendo para luciana.darce@gmail.com