Persuasão: uma análise (Parte Final)

Imagem da série Persuasão (2007) da BBC

Imagem da série Persuasão (2007) da BBC

Depois de falarmos de Anne e Frederick; só para arrematar essa análise, vamos tratar um pouco de outros personagens e temas da obra hoje.

Persuasão escancara na crítica – inclusive social -, que, em outros livros, era mais sutil – o preconceito de Orgulho e Preconceito não interfere tanto na relação de Darcy e Elizabeth quanto na de Anne e Frederick.

Aqui nós temos dois personagens em espectros sociais completamente diferentes (e não um cavalheiro rico e a filha de um cavalheiro; ainda que pobre): Anne é filha de um baronete, membro da aristocracia; Frederick… bem, considerando que Frederick e o irmão trabalham (um como oficial naval e outro como clérigo), não acho que eles tenham herdado nada de família: cresceram por seus méritos; fazem parte de uma classe que começava a despontar na época.

Lembrem-se, afinal, que o trabalho não era exatamente uma ocupação de gentis-homens à época.

Eles são separados não por suas próprias opiniões e preconceitos, mas por uma sociedade arcaica, tradicionalista – representada, especialmente, nas figuras de Sir Walter e Lady Russell.

Aliás, se formos pensar direitinho, os membros da aristocracia que aparecem nas histórias de Austen – entre os quais podemos citar Lady Catherine, Sir Walter e Mr. Elliot – aparecem como caricaturas, seres mesquinhos, cheios de si, preocupados apenas consigo mesmos.

Eu tenho uma particular teoria que desenvolvi enquanto comentava este livro com algumas pessoas. Não sei se vocês sabem, mas Austen foi meio que “convencida” a dedicar o romance anterior dela, Emma ao príncipe regente, que ficou conhecido exatamente por gostar de lançar moda e se preocupar demasiado com a aparência – diz a História que ele foi nosso primeiro “dândi”, ou o “primeiro cavalheiro da Europa” (nas palavras do próprio).

Considerando que Austen escreveu Persuasão logo após terminar Emma, pergunto-me se sir Walter não seria uma cutucada no Príncipe George (futuro George IV, à época).

Teorias da conspiração…

Enfim… Já tratei aqui antes do fato de que temos de enxergar a história sob o prisma da época em que ela foi escrita. Estes preconceitos são fruto de uma geração, de uma compreensão de mundo – compreensão esta que estava passando por uma mudança que podemos acompanhar no livro.

A Revolução Francesa abrira as feridas da divisão de classes – primeiro, segundo e terceiro estado (nobreza, clero e a plebe ‘rude e ignara’…) -, situação esta que somada ao início da Revolução Industrial e nascimento da burguesia, força outros Estados Europeus a fazerem mudanças em seus sistemas.

São essas mudanças, no espírito da meritocracia – que permitem tanto Frederick quanto seu cunhado e outros oficiais, subirem suas posições – são eles o que chamamos hoje de novos ricos.

Isto se reflete na obra porque, até então, a maior parte das heroínas de Austen tinham encontrado seus finais felizes em homens de sua mesma classe social – ou superiores – senhores de propriedades e bens, representando assim um elemento de segurança; ao contrário de Anne, que, constante em seu afeto, quase se arruina (pelos padrões de seu tempo, lembrem-se): se ela não tivesse reecontrado o capitão, eu acredito que, no final das contas, terminaria seus dias solteira (eu não acho que ela teria se casado com Mr. Elliot, mesmo na circunstância de não ter reencontrado Wentworth) e, muito provavelmente, sem recursos, tendo de trabalhar, talvez até como governanta.

Oh, o horror…

Há aqui também a questão da família. Acho que já observei em alguma passagem anterior o quanto Anne é solitária. Sua família, como um todo, é um poço de egoísmos, egos e contradições. Ela é por todos preterida, considerada praticamente insignificante.

Eu sou a única que sente vontade de quebrar o nariz da Elizabeth toda vez que ela entra em cena? A Mary ainda é mais ou menos engraçada com sua tendência à hipocondria – embora seja tão egocêntrica e preconceituosa quanto o resto da família – mas a mais velha das meninas Elliot é simplesmente insuportável.

Todas as pessoas que admiram o valor de Anne são de fora da família – a família Musgrove é mil vezes mais atenciosa que qualquer das irmãs; bem como a própria Lady Russell e os Croft.

Família, para os outros Elliot, é aquela que pode lhes trazer vantagens.. como a viscondessa, Lady Dalrymple e o grande vilão, o escorregadio Mr. Elliot – outro imagem não muito lisonjeira dessa “grande sociedade” capturada pela obra de Jane Austen.

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Luciana Darce

Sou uma bibliófila desde que me entendo por gente e leio praticamente de tudo um pouco. Administro o Coruja em Teto de Zinco Quente e sou mediadora de um clube do livro voltado ao debate de clássicos. E nas horas vagas, sou advogada. Você pode me encontrar escrevendo para luciana.darce@gmail.com