Persuasão (Jane Austen)

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Será o tempo o melhor remédio para um casal apaixonado impedido de seguir ao próximo “nível” pelas convenções sociais do século XIX? Será a “persuasão” uma amiga conselheira?

Anne Elliot foi uma menina bonita, mas para seu pai, os anos a deixaram magra e enfraquecida. Ele não alimentava esperanças de que ela se casaria com alguém do nível social da família do baronete Sir Walter Elliot. Essa esperança ele alimentava para a irmã mais velha de Anne, Elizabeth, que ele considerava ser mais bonita. Seu pai e sua irmã Elizabeth a tratavam com uma certa indiferença e até insignificância.

“Acontece que algumas vezes que uma mulher seja mais bonita aos 29 anos do que era dez anos antes”.

Sabemos que uma mulher naquela época, que não estivesse casada nessa idade, não era digna de ainda alimentar esperanças. Mas a Elizabeth Elliot os anos fizeram bem. Como Sir Walter não teve nenhum filho homem, seu título e propriedade, Kellynch Hall, passariam após sua morte para Sir William Elliot, primo das irmãs Elizabeth, Anne e Mary. Elizabeth, persuasiva, tentou conquistar o herdeiro do título de seu pai, sonhando em se tornar a Sra. Elliot, dona de Kellynch Hall para manter a propriedade em sua família, mas William não se mostrou nem um pouco interessado na beleza da prima. O que causou enorme rancor por parte Elizabeth e Sir Walter Elliot.

Ele em sua vaidade, enfrentava dificuldades financeiras, pois esbanjava luxo e aparência. Não poderiam mais continuar em Kellynch Hall com as enormes despesas. Decidiu então arrendar a propriedade discretamente, e para que seus conhecidos mais próximos não soubessem de sua real condição, se mudou para um palacete em Bath juntamente com Elizabeth, já que Mary era casada com Charles Musgrove, herdeiro de Uppercross, propriedade de uma respeitável e rica família rural.

A presença de Anne foi requisitada em Uppercross por um tempo pela dramática e imatura Mary, irmã mais nova. Kellynch Hall foi arrendada pelo almirante Croft. Era casado mas não tinha filhos. Quando o sobrenome de solteira da Sra. Croft, “Wentworth”, veio ao conhecimento de …” Anne que fora a mais atenta ouvinte do grupo, deixou a sala em busca do alívio do ar fresco para suas faces coradas e, caminhando ao longo de um arvoredo preferido, disse, com um leve suspiro:  Mais alguns meses e ele, talvez, poderá estar passeando por aqui.”

Anne Elliot conheceu o então capitão Wentworth quando ele passou uma temporada com seu irmão, pároco de Monkford. Ela tinha 19 anos, era jovem, bonita, gentil, sensível e modesta.

…” apaixonaram-se rapidamente e profundamente. Seria difícil dizer quem, de ambos, vira maior perfeição no outro, ou quem fora mais feliz: ela, ao receber suas declarações e propostas, ou ele, por vê-las aceitas.”

Mas a felicidade dos dois não durou muito. Ao pedi-la em casamento ao pai de Anne, este reagiu com enorme frieza e indiferença. Frederick Wentworth não vinha da nobreza, não tinha grande fortuna e Anne, ainda muito jovem e imatura, deixou-se persuadir por Lady Russel, vizinha e amiga de sua falecida mãe. Ela não via com bons olhos a união do casal pelo mesmo motivo que o pai de Anne. Assim, deixando-se influenciar, Anne não escutou a voz do coração e o recusou.

Frederick de coração partido pela recusa de Anne deixou o país no comando de uma fragata. Sete anos depois, o sofrimento e o remorso levaram embora a alegria, a juventude, o brilho e a graça de Anne, menos seu afeto por Frederick. Anne não se casou e não conheceu nenhum cavalheiro que despertasse sua vivacidade em 7 anos. Foi pedida em casamento por Charles Musgrove, mas ela recusou, então este casou-se com sua irmã mais nova, Mary.

Anne sabia pelos jornais e anais da Marinha que Frederick fizera fortuna e conhecendo-o pela sua constância, desconfiava que também não tinha se casado. Frederick rapidamente voltou a Kellynch Hall, desta vez, para visitar sua irmã que agora morava lá. Anne já estava morando temporariamente com sua irmã Mary e não era raro o convívio entre vizinhos. O reencontro tímido dos dois, carregado de ressentimento e arrependimento, se deu em uma manhã em que ele passou na casa de Charles e Mary para saber sobre o estado de saúde do filho deles.

“Seu olhar cruzou rapidamente com o do capitão Wentworth, uma inclinação de cabeça, uma reverência; ela ouviu a voz dele; falou com Mary…” Oito anos, quase oito anos haviam se passado desde que tudo terminara. Como era absurdo voltar a sentir uma inquietação que o tempo relegara à distância e à sombra!” … “os anos que nela haviam destruído a juventude e o viço, a ele deram apenas uma aparência mais radiante, viril, segura, sem de modo algum empanar suas qualidades pessoais. Ela vira o mesmo Frederick Wentworth.”

Ao longo dos dias, doía no coração de Anne Elliot a aparente indiferença de Frederick Wentworth. Este, dedicava muita atenção às moças Musgrove – Louisa e Henrietta, irmãs de Charles seu cunhado. Mas a generosa Anne não transparecia sentimentos de inferioridade e ciúmes, somente compaixão e resiliência.

“Seu afeto por ela tinha sido muito intenso e, desde então, nunca encontrara uma mulher que a igualasse. Mas, exceto por alguma natural sensação de curiosidade, não tinha qualquer desejo de vê-la novamente. Seu poder sobre ele desaparecera para sempre.

Seu objetivo atual era o casamento. Estava rico e, de volta à terra firme, decidido a se casar tão logo fosse devidamente tentado; na verdade, olhava em volta, pronto para se apaixonar tão depressa quanto lhe permitia uma mente esclarecida e uma rápida escolha. Seu coração seria de ambas as moças Musgrove, se o soubessem conquistar; seu coração seria, aliás, de qualquer moça agradável que lhe cruzasse o caminho, a não ser Anne Elliot. “

As moças Musgrove sentiam-se maravilhadas com os dotes naturais do capitão Wentworth. Ele realmente impressionava pela beleza e cavalheirismo. Henrietta até deixou parcialmente de lado seu antigo admirador Charles Hayter. O que não demorou muito pois o coração de Henrietta era no fundo no fundo de Charles Hayter. Louisa, aparentemente, seria a escolhida do capitão Wentworth, pelo menos era o que todos pensavam, exceto ele mesmo.

Frederick Wentworth não deixava transparecer mas era incapaz de ver Anne sofrer e não fazer nada. Apesar de não perdoá-la e guardar ressentimentos, ainda era capaz de pequenos gestos discretos que provavam sentir resquícios de um sentimento antigo, e que tinha um coração bom e afetuoso como quando Anne o conhecera.  Isso demonstrava a ela uma espécie de amizade silenciosa.

Um grupo foi formado para uma viagem até a cidade litorânea de Lyme. Anne mais uma vez estaria na presença do capitão Wentworth. Nesta cidade encontrariam os companheiros de Wentworth na Marinha: o capitão Harville e o capitão Benwick.

O capitão Harville era casado e vivia em uma pequena casa em Lyme. O solitário e melancólico capitão Benwick, vivia com o casal. Foi noivo da irmã de Harville, mas esta e a família dela, esperando que Benwick fizesse fortuna no mar, faleceu antes de sua volta. Deprimido e muito quieto, tinha como companhia os livros, principalmente os de poesia. Assim, com esse interesse em comum, Anne pôde se aproximar e travavam longas conversas. O capitão Harville era grato a Anne por fazê-lo falar e diminuir um pouco seu abatimento, o que não acontecia com muita frequência desde a morte de Fanny Harville.

Anne Elliot tinha esse dom: de calar em si seus próprios sofrimentos e diminuir o dos outros, mesmo que com uma simples conversa e doação de seu tempo para escutar. Ainda em Lyme, um terrível acidente aconteceu à Louisa Musgrove e o capitão Wentworth se sentiu culpado. Ele voltou a Uppercross com Anne para avisar os pais da moça que ela estava em Lyme na casa do capitão Harville, sob os cuidados da Sra. Harville, impossibilitada de voltar… Sentindo-se culpado, se ela se recuperasse e ele estivesse por lá, deveria como honra pedi-la em casamento, então partiu para não mais voltar, pois não era intenção dele casar-se com ela…

Bath era agora o destino de Anne. Mary não necessitava mais de sua companhia então partiu para a cidade que não lhe despertava qualquer ansiedade para estar lá. O convívio com o pai e a irmã de Anne era-lhe penoso. Eram pessoas frívolas e muito vaidosas. Também, Bath lhe despertava lembranças de quando sua mãe faleceu. Ela foi enviada a Bath para estudar assim que sua mãe descansou em seu leito de morte. Ainda assim, no fundo do seu coração algo a animava. Lá talvez ainda estaria sua antiga amiga, Srta. Hamilton, dos tempos de estudo, que mais tarde passou a ser Sra. Smith, a qual poderia ser um consolo.

Camden Place era sua residência agora, um endereço nobre e digno, mas nada disso importava a Anne. Para a surpresa de todos, seu primo e herdeiro do título de seu pai, Sr. Elliot estava em Bath e havia estranhamente reatado relações com a família.

O Sr. Elliot era agora um jovem viúvo que aparentemente havia despertado um certo interesse por Anne. Lady Russel via com bons olhos esse interesse mas o que todos não sabiam, nem desconfiavam era que ele, apesar de gentil, agradável, atencioso e muito charmoso, não era o que aparentava ser. Nas visitas que fazia à Sra. Smith, soube sobre o real passado do Sr. Elliot.

“O Sr. Elliot é um homem sem coração ou consciência; um indivíduo manipulador, desconfiado, frio, que só pensa em si mesmo; que seria culpado de qualquer crueldade, ou qualquer traição que pudesse ser perpetrada sem riscos para seu nome.”

Anne recebera a notícia em Bath através de uma carta de sua irmã Mary que Louisa Musgrove, após muito tempo instalada na casa do capitão Harville por causa do acidente, iria se casar com o capitão Benwick. Anne não poderia estar mais feliz! Havia esperança agora de que talvez, algum dia, o capitão Wentworth a perdoasse e quem sabe, talvez…

“Ela não via razões para que não fossem felizes. Louisa, para início de conversa, adorava a Marinha, e logo os dois se pareceriam mais. Ele ganharia exuberância e ela aprenderia a se entusiasmar com Scott e Lord Byron… com certeza se apaixonaram por meio da poesia.”

“Não, não era tristeza o que, a despeito dela mesma, fazia bater o coração de Anne e coloria suas faces quando pensava no capitão Wentworth livre e desimpedido. Havia alguns sentimentos que se envergonhava de investigar. Pareciam-se demais com alegria, insensata alegria!”

Logo em seguida, o capitão Wentworth partira para Bath. Ele e Anne Elliot em várias ocasiões se encontraram. Muitas vezes, aparentavam constrangimento, ruborizavam-se, e até um pouco frios.

Mal poderia esperar nossa heroína, Anne Elliot, que o capitão Wentworth temia profundamente pelos boatos que corriam em Bath, que ele, agora que estava livre, teria a perdido para sempre para o Sr. Elliot. Até que um dia estavam presentes na mesma sala, em que Frederick escrevia uma carta para Benwick e Anne conversava com o capitão Harville. Quando os cavalheiros saíram, o capitão Wentworth voltou inesperadamente “tirou uma carta debaixo dos papéis espalhados, colocou-a diante de Anne com os olhos brilhantes de ansiedade fixos nela por alguns segundos” e saiu apressadamente. “Do conteúdo daquela carta dependia tudo o que o mundo poderia fazer por ela… os seus olhos devoraram as seguintes palavras:

Não posso mais ouvir em silêncio. Devo falar-lhe com os meios que estão ao meu alcance. Meu coração está dilacerado. Estou em estado de semiagonia, semiesperança. Não me diga que cheguei tarde demais, que sentimentos tão preciosos se foram para sempre. Ofereço-me uma vez mais com um coração ainda mais seu do que quando o partiu, há oito anos e meio. Não ouse dizer que um homem se esquece mais depressa do que uma mulher, que o amor dele conhece primeiro a morte. Nunca amei outra pessoa. Injusto posso ter sido, fraco e rancoroso posso ter sido, mas nunca inconstante. Apenas por sua causa eu viria a Bath. Apenas por sua causa penso e planejo. Não percebeu tudo isso?  Não foi capaz de compreender meus desejos? Eu não teria esperado sequer estes dez dias caso tivesse lido seus sentimentos, como acredito que deva ter interpretado os meus. Mal consigo escrever.  A cada instante ouço algo que me angustia.  Sua voz se abaixa, mas posso reconhecer os tons dessa voz mesmo quando se misturam aos demais. Boníssima, extraordinária criatura! Faz-nos justiça, sem dúvida. Acredita que existam a verdadeira afeição e constância entre os homens. Acredite serem mais ardentes, mais inalteráveis, em

F.W.

“Preciso ir, incerto quanto ao meu destino. Mas voltarei aqui, ou me reunirei a seu grupo, o mais depressa possível. Uma palavra, um olhar, serão o bastante para que me decida a ir à casa de seu pai esta noite ou nunca.”

Não é preciso imaginar a felicidade que uma mulher como Anne, que após tanto tempo, tem a confirmação que o homem que amou, ama e amará para sempre também sempre a amou, ama e pretende amar para sempre.

Quando estavam a sós caminhando na Union Street, selaram o sentimento que seguiria para imortalidade. Conversaram sobre o passado, o presente e planejaram o futuro. Agora Anne não seria mais persuadida por ninguém. Seria dirigida somente pelo amor que sentia por Frederick.

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Ficha Bibliográfica

Título: Persuasão
Autora: Jane Austen
Tradutora: Celina Portocarrero
Editora: L&PM
Páginas: 256

 

Solange Peretti

Sou uma Química cosmética proprietária do blog Desvendando Cosméticos e alguns outros, alquimista amante de poções do amor. Nas horas vagas a literatura, a escrita e os filmes de época me fazem companhia. Contato: solangeperetti@yahoo.com.br

  • Cinthia Barbosa

    Parabens pela resenha!! Amo Persuasão, é um dos meus livros preferidos da vida!! Essa carta de Wentworth é maravilhosa, nunca me canso de ler!! Beijos

    • Solange Peretti

      Obrigada 😉 !

  • Isladi Rossi

    Meu livro preferido, amo de paixão. Amei a resenha!! <3