Pamela (Samuel Richardson)

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Oh, coração traiçoeiro! Como pudeste me tratar dessa maneira? Sem me dar sequer um aviso das brincadeiras de mau gosto que ias fazer comigo! Como pudeste te curvar tão facilmente ao invasor impetuoso, sem ao menos consultar tua pobre dona? Mas teu castigo será o primeiro e o maior de todos, e bem merecido, pérfido traidor.

À primeira vista, Pamela, de Samuel Richardson, não é o tipo de livro com o qual o leitor moderno sentiria muita identificação: trata-se de um romance epistolar que acompanha as desventuras de uma jovem de beleza incomum, a qual se aferra com unhas a dentes a sua virgindade como símbolo máximo de seu próprio valor contra um patrão aristocrata que, continuamente, tenta violentá-la, mas acaba mudando frente ao exemplo da moça e pelo amor que ela lhe inspira e, de libertino consumado, se torna marido piedoso.Não há muitas pessoas hoje em dia que possam dizer que escrevam cartas. Missivas, de vez em quando por e-mail; no mais das vezes uma ou duas linhas ou uma mensagem pelo whatsapp. Nada como Pamela faz aqui, traduzindo em seus relatos tudo o que está acontecendo ao seu redor.Escrever um romance epistolar não é fácil (tive minha experiência com a Ísis quando trabalhamos em Heróis de Papel). Você está escrevendo na voz de um único personagem, vê apenas aquilo que esse personagem pode enxergar e julga todos os outros pela forma como o correspondente as julga. É um meio extremamente restritivo para a ação, especialmente se você não transforma suas epístolas em cenas inteiras de diálogos rápidos – como Frances Burney faz em Evelina.

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Um romance epistolar é um constante exercício de introspecção e costuma ser bem mais lento do que o mundo moderno está acostumado a consumir. Mas quando nos dispomos ao desafio, muitas vezes encontramos histórias que nos convidam a reflexões bem mais profundas que um rom-com normal faria.

Pamela é, por vezes, repetitivo, mas não o achei nem de longe cansativo ou demasiado lento – pelo contrário, ele foi um vira-páginas frenético para mim, ansiosa de saber como cargas d’água Pamela conseguiria se livrar da lascívia do Sr. B. As situações em que a mocinha vai se encontrando são dignas dos melhores melodramas e folhetins.

Não me surpreendi com isso: publicado em 1740, ele foi um dos primeiros romances a se tornar um ‘best-seller’ no sentido como conhecemos hoje. As pessoas se reuniam para ouvir os capítulos, avançando um pouco mais na leitura a cada dia – sofriam, torciam e se entusiasmavam com o que estava acontecendo na história. E, acima de tudo, elas se identificavam com sua heroína: Pamela é uma das primeiras protagonistas de um romance que pertence à classe trabalhadora.

(Embora eu deva confessar que, considerando as reviravoltas em que Pamela vai se encontrando, e o típico ritmo de folhetim, fiquei na expectativa de que ela se revelasse na verdade uma nobre trocada no berço ou coisa parecida. Surpreendi-me por não ter sido assim e isso conta muitos pontos para o romance.)

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Podemos hoje estranhar a forma como a personagem crê que seu valor – e o valor das mulheres de uma maneira geral – só existe se ela se mantém casta. Contudo, se estudarmos Pamela com mais cuidado, descobriremos que ainda é possível ‘empatizar’ com a heroína e a defesa que ela faz de seus princípios. Ela é firme e convicta do que está fazendo e ninguém é capaz de demovê-la do caminho que escolhe para si. Através de suas cartas, ela se revela muito mais que uma pequena criada de rostinho bonito e é muito pela riqueza de seu caráter, sua compaixão e delicadeza entrevistas nessa correspondência que o Sr. B. acaba por se apaixonar.

Se, por um lado, a firmeza de convicção de Pamela a torna a nossos olhos uma personagem admirável, por outro, eu não me professo uma grande fã de seu envolvimento com o Sr. B. Não sou partidária da velha máxima de que os libertinos fazem os melhores maridos – e Richardson também não era, a julgar pela forma como ele encerra seu outro grande romance, Clarissa.

Eu talvez tivesse apenas rido se o romance entre patrão e empregada tivesse se dado através da sedução – as cláusulas do contrato em que o Sr. B. propõe a Pamela que seja sua amante são uma coisa inacreditável e as respostas dela são algo ainda melhor e se tornou minha parte favorita do livro. Mas ao longo de boa parte da história, é através do assédio e da violência que o homem tenta fazer valer sua vontade. A mágica conversão do ‘herói’ não me parece o suficiente para apagar todas as barbaridades que ele cometeu anteriormente, especialmente a se considerar que o desespero de Pamela quase a levou ao suicídio.

Para minha sensibilidade moderna, é estranho que Pamela aceite voltar para o Sr. B. E, se eu tivesse lido esse livro apenas pelo romance, teria terminado desapontada, porque esse é um relacionamento que não acho particularmente saudável (mas, bem, isso é questão de gosto…). Contudo, boa parte do meu interesse em Richardson vem do fato de ele ser um dos principais autores do século XVIII e uma das mais importantes inspirações para Jane Austen – e assim é que as expectativas que eu tinha para ele foram muito bem atendidas.

De fato, à medida que ia avançando na leitura, peguei-me fazendo mil e uma comparações. O tom geral da história provavelmente inspirou Sandition e Os Watsons; Fanny Price parece ter saído do mesmo molde de Pamela e todos os patifes charmosos de Austen – e em especial Mr. Willoughby – homenageiam o Sr. B.

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No cômputo geral, eu me diverti mais do que esperava com o livro. E fiquei particularmente enamorada da edição da Martin Claret, com a capa dura ilustrada – gosto muito dessas capas com ilustrações originais que eles têm colocado em seus romances. A tradução foi bem fluida e, a despeito de ter sido escrito mais de dois séculos atrás, a linguagem de Pamela não é um empecilho para o leitor moderno.


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Ficha Bibliográfica

Título: Pamela, ou a Virtude Recompensada
Autor: Samuel Richardson
Tradução: Carlos Duarte e Anna Duarte
Editora: Martin Claret
Ano: 2016

Onde Comprar

Amazon || Cultura || Saraiva

Luciana Darce

Sou uma bibliófila desde que me entendo por gente e leio praticamente de tudo um pouco. Administro o Coruja em Teto de Zinco Quente e sou mediadora de um clube do livro voltado ao debate de clássicos. E nas horas vagas, sou advogada. Você pode me encontrar escrevendo para luciana.darce@gmail.com

  • Comecei hoje e estou gostando muito! A narrativa é muito mais fluida que “Evelina”, que eu achei muito cansativo (e, na verdade, estou achando a Pamela com mais têmpera que a Evelina…).

    Você já leu “A ascensão do romance”, de Ian Watt? Super recomendo. É muito bom para entender mais sobre o contexto histórico e sobre o Richardson e tem uma análise ótima sobre a obra. Ele trata não só de “Pâmela”, como de “Clarissa” também. Vou ver se consigo reler (pelo menos a parte de “Pâmela”) depois da leitura do romance.

    Essa edição da Martin Claret está incrível. Livro de luxo mesmo. Eu comentei lá no Skoob. E essa ilustração é linda! Um viva para as promoções da Amazon, hehehe.

    Abraços!

    • Luciana Darce

      Não li ainda o livro do Watt, mas esta na minha lista para futuras leituras. Bom saber que ele faz comentários sobre o contexto histórico dessas obras, vou ver se o adianto na fila, porque agora fiquei curiosa… Obrigada pela dica 😉

      É também preferi a Pamela a Evelina. Acho que Evelina tem um problema de ritmo, não se decide ente ser prosa e epístola, fica num meio termo é isso me irrita um pouco. Mas, enfim… São leituras interessantes para entender melhor o contexto da época e os autores que vieram em seguida – especialmente a Austen.

      • Depois de ler “Evelina” (e agora posso ver isso em “Pamela” também) reconheço ainda mais a genialidade de Jane Austen. O trabalho de edição daquela mulher era incrível; a capacidade de criar ritmo perfeita. Sem contar no desenvolvimento de personagens, tanto femininas quanto masculinas. Enfim, é um salto gigante. Por isso ela fica tão isolada nas classificações literárias, porque ela foi uma pioneira em muitos sentidos.

        Uma das coisas que me aborrece tremendamente em “Evelina” é que ela não tem voz – literalmente. Ela nunca diz nada nos diálogos, é quase como se não estivesse ali.

        Eu queria ler o “Clarissa” do Richardson pra ver a evolução dele. Até porque eu vou ficar com muita raiva do final de “Pamela”. Que final sem sentido! Mas o Watt explica bem o que está por trás desse fim (preciso reler).
        Ah, eu sabia que Mr. B. era odioso, mas nunca pensei que fosse TÃO odioso! Que personagem desprezível!

        • Maria Sônia Oliveira

          “Clarissa” está entre os cem maiores romances britânicos, na posição 14.
          O bom é que você e a Luciana podem ler toda essa riqueza literária em inglês mesmo. Eu tenho que esperar pelas traduções.?

          • Não sei se eu consigo não… Já tenho preguiça & receio de ler livros modernos, que dirá um com inglês do século XVIII. E, além disso, o Richardson não me parece valer todo o esforço: já estou de saco cheio de “Pamela”.
            E só pra não perder o hábito: viva Jane Austen!