Pamela, de Samuel Richardson

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Pamela, de Samuel Richardson, é um romance epistolar publicado pela primeira vez em 1740. Em cartas, em sua maioria para seus queridos pais, a personagem-título relata as peripécias e desventuras que sucedem a morte da rica senhora para quem trabalhava como camareira em Bedfordshire na Inglaterra.

Pamela Andrews é uma dedicada serva de sua patroa no interior da Inglaterra. Reconhecida entre todos que a conhecem por sua disposição, pureza e, sobretudo, beleza, a mocinha de apenas 15 anos acaba por atrair as atenções do jovem e nobre, filho de sua senhora, Mr. B— (ele não tem seu nome revelado no livro, pois fora inspirado por uma figura que ocupava alta posição na sociedade inglesa da época).

Nesse contexto, Mr. B— mal espera o cadáver da mãe esfriar no túmulo para dar início a uma série de investidas contra a dócil e vulnerável Pamela. Inicialmente, ele a trata de modo gentil e a enche de presentes, mas logo começa a demonstrar suas reais intenções. A mocinha, ao descobri-las, fica aterrorizada, ainda mais quando Mr. B. dificulta a sua saída daquele lugar em que não mais é útil, assim, vê sua tão preciosa virtude/virgindade severamente ameaçada.

Vale mencionar, antes de mais nada, que Pamela é uma moça muito simples em seus gostos, embora graciosa em suas maneiras. De origem humilde, ela foi abençoada com uma boa e distinta educação pela sua senhora e se equiparava a uma boa moça de classe média nesse aspecto, diferenciando-se dos outros servos, e sempre foi muito grata por todas as bênçãos que recaíram sobre si. Mas, em sua simplicidade, Pamela é muito mais nobre do que qualquer um que se intitulava como tal. Dona de um coração puro, leal e extremamente fiel à sua fé e aos seus princípios, a mocinha, longe dos pais, buscou vão refúgio nos braços de Mrs. Jervis, outra serva da casa que não foi capaz de impedir os constantes e cada vez mais indecentes avanços de seu patrão, mas que a considerava profundamente.

Um dia, porém, após muita insistência de Pamela e da intercessão de seus outros empregados, Mr. B— dispensa a menina em sua carruagem rumo à casa de seus pais. No entanto, imaginem a surpresa de Pamela ao perceber que o destino final era muito distante do que aquele que ela esperava encontrar! Aliás, por tantas vezes Mr. B— prometeu não importuná-la novamente e jurou que a enviaria para seus pais em segurança que neste ponto da história já era quase impossível depositar qualquer confiança no terrível nobre e mesmo assim fomos pegos de surpresa com tamanha artimanha.

Assim, Mr. B—, por puro desejo, alcança o ápice da insensatez e mantém Pamela prisioneira em sua propriedade em Lincolnshire, vigiada 24 horas por dia por sua empregada e terrível ser humano, Mrs. Jewkes. Lá, Pamela sofre duramente por permanecer fiel aos valores que seguia tão religiosamente. A pobre moça foi mantida em cativeiro por semanas antes de conseguir se comunicar clandestinamente com alguém além de Mrs. Jewkes e seu patrão (este último por meio de cartas já que ele ficou por um bom tempo sem ir até a propriedade). Contudo, o mais notável na obra de Richardson, é que vilão e mocinho se misturam no mesmo personagem. O leitor se vê, em determinado momento, torcendo pelo vilão, ou será mocinho?

Sim, o vilão também é mocinho. Aplausos para Richardson que conseguiu fazer um personagem abominável e ao mesmo tempo um adorável mocinho, digno de conquistar afeição de qualquer leitor. Parece inconcebível a ideia de um vilão tão cruel ser também um herói tão querido e, no entanto, foi justamente o que aconteceu. Richardson, como um mago muito hábil com a pena e a tinta, criou Mr. B— com essas duas distinções, mas de modo tão humano e comovente que Mr. B— conquistou não só a Pamela, mas todos.

“Sua mente é pura como a de um anjo e tanto transcende a minha. Sua sagacidade e seu julgamento, sem elogios falsos, são mais do que iguais ao meu: você tem todas as graças que a educação pode dar a uma mulher, aumentadas por um gênio que faz com que sejam naturais para você. Você tem uma doçura de temperamento, uma sinceridade nobre, além de toda comparação; e na beleza de sua pessoa, você excede todas as senhoras que eu já vi. […] se as riquezas da sua mente, e sua virtude imaculada, fossem colocadas contra a minha fortuna, (que um bem acidental, como posso chamá-lo, é tudo que eu tenho para me orgulhar) a vencedora será você; e eu não acho que posso possivelmente merecer você, até que, após o seu exemplo doce, minha vida futura deva se tornar tão inocente quanto a sua.”

A história é tão angustiantemente cativante no início e tão recompensadoramente bela em sua segunda parte que não surpreende o sucesso que fez à época de seu lançamento. Pamela é uma obra que exorta as jovens moças a se manterem castas, é verdade, mas não só isso: é uma exortação ao valor e às recompensas de se manter fiel aos próprios princípios e de ser bondosa para todas as pessoas sem distinção de posição social, uma lição de amor e humildade. Pamela sempre foi bondosa e prestativa, dava respostas sagazes sem nunca ser má; jamais cultivou o orgulho e a inveja e abençoou os seus algozes mesmo quando era esfacelada por eles. Por isso, muito mais do que por sua beleza, ela era amada e encantava aqueles que a cercavam.

Além disso, vale destacar a importância de Pamela e seu autor, pioneiro no gênero do romance na Inglaterra, que ganharia força e encontraria em Jane Austen e Charlotte Brontë seus maiores expoentes. Aliás, a influência de Richardson é evidente em vários aspectos de romances das aclamadas autoras inglesas como na ambientação das obras.

Por fim, é importante lembrar antes de embarcar na leitura desta obra, que ela foi escrita em um período na história onde a virgindade da mulher era tudo que ela poderia ter. Para as mulheres das camadas mais baixas, perder sua virtude significava dar adeus às perspectivas de casamento que já eram as mais remotas possíveis. Mesmo assim, era um comportamento frequente entre os homens daquela época seduzir mocinhas ou mesmo forçá-las sem o seu consentimento para satisfazer seus apetites sexuais e não era lá tão condenável para o rapaz se a mocinha em questão fosse tão pobre quanto a querida Pamela. Por isso, antes de iniciar a leitura, é fundamental que se tenha a mente voltada para os costumes e a cabeça de alguém do século XVIII e que, por mais odiosos que sejam, alguns modos de agir descritos no livro eram tidos como natural manifestação de condutas normais quando se está loucamente apaixonado (digo de paixão, desejo, algo efêmero e inconstante comparado ao verdadeiro amor) por alguém tão abaixo de si em posição social. Richardson então revoluciona a literatura em mais um sentido: Pamela vem para romper com os tradicionais costumes e se projetar como uma protagonista feminina de origem humilde, mas uma mulher digna, inteligente e determinada a não ceder e deixar que lhes roubem o que tem por mais valioso em sua vida, sendo, assim, justamente recompensada.

“Presunção, vocês irão dizer; e é, mas o amor não é uma coisa voluntária: amor, eu disse – mas espero que não, pelo menos não espero que tenha ido tão longe a fazer-me muito desconfortável; porque não sei como veio, nem quando começou, mas rastejou, rastejou como um ladrão sobre mim; e antes que eu soubesse o que estava acontecendo, parecia amor.”

 

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Enza G. Said

Capixaba, acadêmica de Direito, amo a cultura inglesa, mas sonho em morar no sul da França. Sou apaixonada por música clássica, chá, cheiro de chuva e filmes antigos; passo horas relendo trechos dos meus livros favoritos e toco piano nas horas vagas. Contato: enzasaid@gmail.com

  • Dandara Machado

    Muito bem escrita, amei!

    • Enza Said

      Obrigada, Dandara!

  • Adorei a resenha.
    Já queria ler.Agora fiquei com mais vontade! 😀

    • Enza Said

      Que otimo! É uma leitura muito cativante da qual podemos extrair muitas lições, tenho certeza que vai gostar 🙂