OS VITORIANOS CONSIDERAVAM CHARLOTTE BRONTË RUDE E IMORAL | SEMANA CHARLOTTE BRONTË

http://falling-inlove-with-books.tumblr.com/

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Jane Eyre transformou-se em um campeão de vendas instantâneo quando foi publicado em 1847, mas desenvolveu uma reputação de “livro ousado”.

Este ano celebramos o bicentenário do nascimento de Charlotte Brontë. Ela morreu em março de 1855, com quase 39 anos, fato que também fez aniversário esse ano, em março. Seu trabalho mais conhecido, Jane Eyre, tem a mesma capacidade de um conto de fadas de transcender o tempo, com a Cinderela dessa história sendo uma indesejada criança que se transforma em uma pobre e simples preceptora, mas que termina, vencendo todas as dificuldades, com o herói byroniano Senhor Rochester.

Os pontos altos das grandes adaptações do romance incluem a versão de Hollywood com Joan Fontaine e Orson Welles e, mais recentemente, a ópera de Michael Berkeley, o romance gráfico Jane, A Raposa e Eu, de Fanny Britt e as imagens assombrosas da artista Paula Rego. No entanto, apesar de seu fascinante poder de resistência, posteriormente não se soube como classificar Jane Eyre. Atualmente, tem sido rotulado como um bom livro para crianças, aclamado como uma grande bíblia feminista e comercialmente explorado como um clichê sexy (eu recentemente comprei um sutiã sedutor chamado “Brontë” em sua homenagem). No entanto, os leitores puderam imaginar quando isso começou?

Jane Eyre transformou-se tão naturalmente em parte de nosso cenário cultural, que é difícil nos imaginarmos de volta à mentalidade dos vitorianos que primeiro conheceram-no quando apareceu do nada em 1847, publicado sob o pseudônimo de som masculino “Currer Bell”. Transformou-se em um instantâneo campeão de vendas, mas rapidamente desenvolveu uma reputação como um “livro ousado”, como GH Lewes colocou. Ninguém pôde duvidar do que Lewes chamou de seu “estranho poder de representação subjetiva”, dada à intensa autenticidade de seus personagens narrados em primeira pessoa. Mas tão logo os críticos concluíram que o misterioso Currer Bell devia ser uma mulher, o livro foi atacado como rude e imoral.

A crítica mais notavelmente depreciativa, publicada no conservador Quarterly Review, acusou Currer Bell de “jacobinismo moral” – de tentar iniciar uma revolução. Isso surgiu da insinuação de que, se realmente fosse uma mulher, ela devia ter “por alguma forte razão… perdido a convivência com o próprio sexo”, que ela devia ser uma mulher decaída, a qual o livre comportamento sexual a tinha feito uma pária nos círculos decentes. Poucas críticas podem ter sido piores ao longo do tempo. Charlotte Brontë – na realidade, a filha solteira de um clérigo provinciano e Tory de longa data – ficou perplexa de ser acusada simultaneamente de liberalismo político e libertinismo pessoal.

Atualmente, é fácil considerar os críticos vitorianos de Jane Eyre como puritanos cegos. O fato de que o crítico anônimo do Quarterly era ela própria uma mulher, Elizabeth Rigby, indignou as feministas do século XX, que viram isso como uma afronta ao próprio sexo por parte de uma conservadora inflexível. No entanto, vale a pena perguntar se a intensidade da resposta contemporânea foi uma reação mais honesta à abrasividade insistente de Jane Eyre do que a tendência moderna de remover seu rótulo, categorizando-o brandamente como um clássico.

O confronto de gêneros políticos e suas relações com a própria política eram mais sutis e ambíguos no final da década de 1840 do que alguém possa supor. À primeira vista, Elizabeth Rigby – que mais tarde se casou com o diretor da National Gallery – parece uma mulher vitoriana em conformidade de sentimentos com a própria Brontë. Conseguiu uma carreira jornalística de sucesso com seus próprios méritos e conquistou um privilégio masculino quando foi nomeada a crítica principal do famoso Quarterly Review. Tal como ela, personificou na vida real os ideais expressados pela fictícia Jane, que diz ao Senhor Rochester que as mulheres eram tão desejosas quanto os homens de exercitarem suas faculdades.

Por que, então, Elizabeth Rigby odiou tanto Jane Eyre? Uma resposta fácil poderia ser que ela tinha que estar em conformidade com a visão da velha-escola do Quarterly para manter seu emprego. Mas a sua crítica não está de acordo com essa ideia. De fato, se alguém a ler com atenção fica claro que ela não ataca o romance de Brontë de uma posição conservadora. Suas acusações de jacobinismo são um disfarce para sua própria plataforma política progressiva.

Como, Rigby perguntou-se, pôde Currer Bell fazer do Senhor Rochester um herói? Ele é um rico, privilegiado, de meia-idade, homem casado que seduziu a preceptora adolescente que ele empregou para ensinar sua filha ilegítima. Primeiro, ele a escolhe para contar detalhes íntimos de sua vida sexual anterior. Então, vai tentar leva-la para a cama através de falsos pretextos, de um casamento simulado. De acordo com Rigby, a maioria das mulheres com presença de espírito iria recuar diante de uma exploração tão flagrante de poder para fins sexuais. Mas Jane, claramente uma masoquista autoiludida, sentia prazer em dirigir-se a ele como “senhor”. Quanto à “questão da preceptora”, Rigby é mordaz. Como nós agora sabemos, na realidade Charlotte Brontë tinha recebido meras 16 libras por ano quando trabalhou como preceptora particular para uma família, o que em termos equivalentes atualmente seria considerado dinheiro de bolso para um casal. Rigby entendia que tal emprego mal-remunerado era praticamente a única opção de trabalho para as mulheres pobres e educadas naquele tempo. No entanto, ela detona Jane Eyre, por causa da sugestão de que a única solução para o dilema da preceptora seria casar com o patrão. Em vez disso, Rigby lamentou o fato de que as preceptoras fossem impedidas, por causa do sexo, de formarem um sindicato. Salários mais altos, ela argumentou, seria a verdadeira solução para o problema delas.

Apesar do rótulo “jacobino”, Rigby não via Jane Eyre como um livro voltado para o futuro, mas como um retrocesso à tempos menos igualitários. Essa visão, geralmente considerada equivocada pelos críticos modernos, nos ajuda a entender como o sucesso de Jane Eyre em diferentes gerações de leitores deriva de contradições implícitas, as quais contribuíram para a sua intensidade e permitiram ser interpretadas de maneiras muito diferentes.

A assertividade de Jane é realmente feminista, realocando o ego byroniano na figura da pobre e simples preceptora. Mas, seu masoquismo erótico reflete o ponto de vista de relações de gênero de Cinquenta Tons de Cinza, promovido pela literatura comercial sub-byroniana da década de 1820 e 1830, o qual a jovem Charlotte Brontë assimilou, juntamente com o amoral, libertino e misógino anarquismo Tory das revistas Blackwood’s Magazine e Fraser’s Magazine, suas leituras favoritas na juventude.

Como uma provinciana, Charlotte Brontë estava atrasada e fora da cena literária de Londres. Ela não tinha ideia do quanto vulgar e ingênuo o seu byronismo feminino poderia parecer em 1847 para a nova e progressiva geração vitoriana, que voltou seu foco do individualismo romântico para as melhorias sociais. No entanto, mesmo Rigby, apesar de todas as suas dúvidas, reconheceu que Jane Eyre era um trabalho de gênio. Jane Eyre é muito cheio de paradoxos para ser lido como um manual de moral, mas sobreviveu porque, artisticamente, dificilmente seria superado.

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Por  Lucasta Miller/ Quinta-feira, 10 de março de 2016.

O livro de Lucasta Miller “O Mito Brontë”. Seu ensaio sobre o porquê de os livros de Brontë serem considerados rústicos sairá no Blackwell – A Companion to the Brontës.

http://www.independent.co.uk/

Dandara Machado

Sou de Santa Maria-RS. Amo literatura inglesa e pretendo cursar Letras Bacharelado e tradução inglês-português; mas estou fazendo ciências sociais. Minhas escritoras preferidas são Jane Austen, Anne Brontë, Charlotte Brontë, Georgette Heyer, Elizabeth Gaskell, Frances Burney, Virginia woolf e Katherine Mansfield (KM é a melhor de todas, na minha opinião, e meu conto preferido é "A casa de Bonecas”). Meus livros amados são Jane Eyre e Razão e Sentimento. Contato: dandaramachado210@gmail.com