Os temas adultos escondidos em Beatrix Potter

The Tale of Samuel Whiskers 1908 (Crédito: Penguin)

The Tale of Samuel Whiskers 1908 (Crédito: Penguin)

Por Christian Blauvelt

Nascida há 150 anos, em 28 de julho, a autora britânica de livros infantis era mais subversiva do que pensávamos, afirma Christian Blauvelt.

“Seu pai sofreu um acidente lá; a Sra. McGregor o transformou em recheio de torta”.

A advertência assustadora que a Sra. Coelho faz aos seus filhos Flocos, Fluz, Rabo de Algodão e Pedro, aparece na página inicial do primeiro livro de Beatrix Potter, The Tale of Petter Rabbit (conhecido em português como A História de Pedro Coelho). Além de apresentar talvez o uso mais dramático de um ponto e vírgula na literatura infantil, o livro dá o tom do trabalho da escritora desde o início: de que há horror de sobra num mundo de luta Darwiniana, mas que este deve ser encarado de forma tranquila. Os seus pais, ou talvez os seus filhos, podem ser devorados por uma fazendeira vingativa, ou vendidos por fumo; uma coruja zangada pode arrancar o seu rabo; um rato invasor pode te amarrar em uma corda e fazer de você o ingrediente principal de um pudim. Mas a vida continua – os contratempos devem ser encarados e as tragédias devem ser superadas.

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A primeira história infantil de Beatrix Potter, A História de Pedro Coelho, foi lançada em 1902 – ela escreveria até 1930 (Crédito: Penguin)

Os contos de Potter sempre foram populares entre os adultos, assim como entre as crianças, desde que A História de Pedro Coelho foi publicada em 1902, quando ela tinha 36 anos de idade. Isso acontece não só porque a história contém criaturas adoráveis em situações angustiantes, mas porque seus animais falantes também comentam sobre a política de classe, os papéis de gênero, e sobre a vida econômica e doméstica da época. Será que ela examinou a sociedade britânica através dos animais, porque ela passou mais tempo com estes do que com crianças (exceto pela companhia de seu irmão Bertram), quando era jovem? Ou por que ela queria se rebelar contra os valores burgueses e a moral de sua família rica, de classe média, que ganhou dinheiro na indústria têxtil, mas só ousaria fazê-lo através de representantes peludos? Ou por que ela só poderia publicar histórias infantis, já que a sua verdadeira paixão, ciência, era um campo proibido para as mulheres no final do século XIX? Ou ainda por que ela tinha um mentor alemão que a apresentou ao ethos idílico do Romantismo?

A Tale of Two Bad Mice (A História dos Dois Ratinhos Maus, em português) pode ser interpretada como uma metáfora sobre as aspirações da classe operária, frustradas pela rígida hierarquia de classes (Crédito: Penguin).

A Tale of Two Bad Mice (A História dos Dois Ratinhos Maus, em português) pode ser interpretada como uma metáfora sobre as aspirações da classe operária, frustradas pela rígida hierarquia de classes (Crédito: Penguin).

A única coisa que sabemos com certeza é que quando Potter retrata camundongos usando aventais ou coelhos fumando cachimbos, suas histórias revelam, inevitavelmente, tanto sobre as virtudes e loucuras humanas, quanto sobre o mundo natural. Como relata M. Daphne Kutzer em Beatrix Potter: Writing in Code (ainda sem título em português), “Ela nunca tentou escrever um romance, mas é justo dizer que alguns dos seus livros infantis são, de fato, romances: seus personagens e enredos são tão complexos e abertos a interpretações quanto qualquer romance publicado naquela época”.

Sobre ratos e costumes

Críticas sobre as relações sociais britânicas do início do século XX aparecem em toda a obra de Potter. Sua escrita apresenta um tom de distanciamento investigativo, como se ela fosse uma jornalista que traça o perfil desses animais. (Em The Tale of Ginger and Pickles, ela escreve sobre o gato Ginger, e observa sua falência financeira: “Eu não sei que ocupação ele exerce”, como se ela descrevesse a história ao invés de inventá-la). Ela raramente foca naqueles muito ricos ou muito pobres – seus personagens trabalham para se sustentar. Assim como os animais antropomórficos de Kenneth Grahame em O Vento nos Salgueiros, publicado seis anos depois de A História de Pedro Coelho, os personagens de Potter foram moldados pela mudança de poder que ocorreu entre os britânicos – da aristocracia fundiária para a burguesia, de onde a própria Potter emergiu. “Quase todas as histórias se preocupam com hierarquia e poder”, afirma Kutzer – e elas refletem e incorporam os valores da classe média. A dedicação é uma virtude primordial dos personagens de Potter – quer seja o adorável alfaiate de Gloucester, a dona de casa exemplar Thomasina Tittlemouse, ou os esquilos que, com afinco, juntam nozes na Ilha da Coruja e cuja ingenuidade é nitidamente admirada pela autora.

O ócio é considerado o maior dos pecados, esteja ele presente nas classes mais abastadas ou nas mais pobres. Samuel Whiskers usa uma jaqueta e um colete típicos de um dono de propriedades, mas passa a maior parte do dia sem fazer nada, fumando, enquanto sua esposa o aguarda. Squirrel Nutkin deixa os seus colegas mais velhos coletando nozes enquanto ele joga “boliche com maçãs silvestres e cones de pinheiro verde”. Os coelhos Flopsy Bunnies são raptados pelo Sr. McGregor por causa da gula: eles adormecem depois de tanto comer.

Os comentários de Potter sobre o capitalismo atingem o seu ápice em The Tale of Ginger and Pickles, que apresenta um camundongo que se esconde na cama depois de enganar seus clientes (Crédito: Penguin)

Os comentários de Potter sobre o capitalismo atingem o seu ápice em The Tale of Ginger and Pickles, que apresenta um camundongo que se esconde na cama depois de enganar seus clientes (Crédito: Penguin)

Potter trata a estupidez com o mesmo desprezo. Na celebração do laissez faire capitalista, presente em The Tale of Ginger and Pickles, ela demonstra a força do mercado que leva a loja dos personagens principais à falência, pois eles não gerenciaram o negócio com inteligência: concederam crédito ilimitado a todos os clientes. Ela também reprova aqueles que levam vantagem com a estupidez das pessoas, como o Sr John Dormouse, que vende velas com defeito a seus vizinhos: “E quando reclamavam para o Sr John Dormouse, ele ficava na cama, e não falava nada além de ‘muito confortável’ – que não é a forma adequada de se conduzir um negócio”. No entanto, ela aprova a mulher de negócios perspicaz, Tabitha Twitchit, que aumenta seus preços quando sua concorrência, Ginger e Pickles, vai à falência. Twitchit tem três gatinhos para criar, claro, mas isso também é um bom negócio. A visão de Potter é de que a natureza pode ser um caos Darwiniano, mas uma pessoa pode sobreviver por meio de trabalho árduo e bom senso.

Rebelde com causa

Para Potter, a mudança gradual de latifundiários ricos para comerciantes e industriários é inevitável e perceptível. Mas ela se opõe à violência contra as pessoas, mesmo que a descreva em suas histórias. No entanto, ela se regozija com a violência empregada contra símbolos de convenções sociais amplamente aceitas. O crítico Humphrey Carpenter afirma em seu artigo Excessively Impertinent Bunnies que ela exibe um “forte desprezo aos valores sociais mais aceitos na Era Vitoriana” e se encontra “definitivamente no lado transgressor”. Potter se mostra nitidamente alegre em sua descrição sobre como os camundongos vândalos Tom Thumb e Hunca Munca, destroem uma casa de bonecas. A boneca Lucinda mora nessa casa com sua cozinheira, Jane. Na maior parte da história, Potter descreve as bonecas como quem não tem o que fazer, a não ser ficar de bobeira, fazer poses e manter-se bonita na sua casinha de tijolos vermelhos. Elas não são apenas preguiçosas, mas também não têm um senso comum: depois que as bonecas deixam a casa, os camundongos descobrem que “a casa não era segura”.

As histórias ganham significado na interação cômica de palavras e imagens, e têm nos animais anatomicamente perfeitos, que agem como humanos, a sua graça. (Crédito: Penguin)

As histórias ganham significado na interação cômica de palavras e imagens, e têm nos animais anatomicamente perfeitos, que agem como humanos, a sua graça. (Crédito: Penguin)

Os camundongos proletários tentam comer o que as bonecas deixam para trás, mas o presunto e o peixe são, na verdade, feitos de gesso: são enfeites de ricos. Então os camundongos começam a destruir a comida com pegadores de brasa – é sem gosto, pobre em nutrientes, duro e facilmente destruível – depois eles desmantelam o resto da casa de bonecas. A destruição da réplica de uma casa vitoriana sugere que, para Potter, a vida doméstica na Era Vitoriana é artificial. Os camundongos aparecem como mocinhos quando recompensam Lucinda e a cozinheira Jane pelo estrago, e quando Hunca Munca entra sorrateiramente na casa de bonecas todas as manhãs para limpá-la, sem as bonecas perceberem – “o tipo de reviravolta hiper-realista que Umberto Eco admiraria”, escreve Stuart Jeffries no jornal The Guardian. Assim como a classe operária, os camundongos ainda são guiados pelas necessidades, enquanto a classe mais abastada, que controla o destino deles, é guiada pelos desejos.

Patty-pan e o patriarcado

Quando Lucinda e a cozinheira Jane estão fora da casa de bonecas, elas passeiam em um carrinho de bebê. É difícil não ver esse tipo de transporte como uma crítica de Potter à infantilização das mulheres pela sociedade peculiar do final do século XX. Outra história, The Tale of the Pie and the Patty-Pan, pode apresentar a mais poderosa crítica sobre o papel das mulheres daquela época. As duas protagonistas femininas escondem a verdade uma da outra – que ambas têm ressalvas quanto à futura festa da qual irão participar. Duchess, uma cadela, tenta substituir uma torta feita por Ribby, uma gata, por outra que ela mesma fez, já que ela pensa que a torta de Ribby tem recheio de rato. É uma comédia de erros complexa, cujo clímax é atingido quando Duchess se engasga com o que ela pensa ser uma “abóbora” assada no meio de sua torta. Ela está, na verdade, engasgando com um símbolo da submissão feminina. Mas o que acontece é que, no fim das contas, foi oferecida a ela a torta de rato, sem abóbora. Sua asfixia é a reação de um hipocondríaco – um ato simbólico de como algo que não existe no mundo físico, como convenções sociais cunhadas por homens, ainda conseguem reprimir alguém a ponto de sufocar e causar histeria; e de como essa sociedade peculiar obriga as mulheres a mentirem entre si, e para si, apenas para evitarem ofender alguém.

 O camundongo cortês Whiskers não faz nada, traga seu cigarro, e dá várias ordens a sua esposa, em uma paródia sobre o patriarcado vitoriano. (Crédito: Penguin)

O camundongo cortês Whiskers não faz nada, traga seu cigarro, e dá várias ordens a sua esposa, em uma paródia sobre o patriarcado vitoriano. (Crédito: Penguin)

O quanto dessas críticas sobre classes, política, negócios e etiqueta vieram diretamente da própria experiência de Potter? Sua biografia sugere que uma boa parte. A vida na casa dos seus pais era uma versão acentuada do típico lar vitoriano: seu pai passava os dias no clube, sua mãe não tinha nada para fazer e ambos se opuseram ao noivado de Beatrix – aos 39 anos de idade – com seu editor Norman Warne por que ele era “do comércio”, ainda que seus pais tenham ganhado dinheiro nesta mesma área. Depois da morte de Warne, antes do casamento, eles opuseram-se novamente quando ela finalmente se casou com William Heelis aos 47 anos de idade – o que era inconveniente, já que seu marido era um advogado. Em Beatrix Potter, parece que o pessoal e o político, o privado e o público são perfeitamente ligados. Talvez seja por isso que seus animais não apenas falam, mas têm algo a dizer.

 

 

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Traduzido da BBC_Culture

Mariana Almeida

"Apaixonada por idiomas e todo o universo textual, trabalha com revisão e tradução (inglês-português) nas áreas de meio ambiente, administração, marketing, linguagem, literatura, sociologia e autoajuda. Formada em Letras e em Administração, especialista em Comunicação Empresarial, especialista em Tradução, mestre em Ciências Humanas e Sociais, atua também como professora universitária, orientadora de trabalhos de conclusão de curso na área de comunicação, participação em bancas examinadoras de trabalhos, em eventos na área científica (congressos, seminários, simpósios) como ouvinte e como expositora, com artigos publicados em periódicos científicos."

  • Raquel

    Amo a literatura de Beatrix Potter, lembro que cresci vendo seus os desenhos!! E apenas quando maior percebi essa temática mais adulta. Excelente resenha^^