Os Mistérios de Udolpho | Volume I (Ann Radcliffe)

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Foto: Pedrazul Editora

 

“Na manhã seguinte, fez um dia lindo, e Catherine se preparou para novas investidas do grupo reunido. Os Tilneys vieram buscá-la na hora combinada; e como não surgiu nenhum novo obstáculo, nenhuma recordação súbita, nenhum chamamento inesperado, nenhuma intrusão impertinente para perturbar os seus planos, minha heroína, por incrível que pareça, pôde cumprir seu compromisso, embora com o próprio herói. Decidiram passear por Beechen Cliff, a nobre colina cuja bela vegetação de arbustos suspensos fazia dela um objeto tão impressionante quando vista de Bath.

– Nunca olhei para lá – disse Catherine, ao caminharem às margens do rio – sem pensar no sul da França.

– Já viajou para o exterior, então? – disse Henry, um pouco surpreso.

– Ah, não! Só me refiro ao que li a respeito de lá. Sempre me faz lembrar do país pelo qual Emily e seu pai viajaram, em Os Mistérios de Udolpho. Mas o senhor nunca lê romances, não é?

– Por que não?

– Por que eles não são inteligentes o bastante para o senhor… Os homens leem livros melhores.

– Aquele que, homem ou mulher, não sente prazer na leitura de um bom romance deve ser insuportavelmente estúpido. Li todas as obras da sra. Radcliffe, e a maioria delas com grande prazer. Quando comecei a ler Os Mistérios de Udolpho, não conseguia largá-lo; lembro-me de que o li em dois dias… de cabelos arrepiados o tempo inteiro.”

(AUSTEN, Jane. A Abadia de Northanger. São Paulo: Martin Claret, 2012. p. 129)

 

O fragmento acima é apenas uma das passagens em que Os Mistérios de Udolpho (1794), de Ann Radcliffe, é citado em A Abadia de Northanger (1818), de Jane Austen. Lembro-me de terminar a leitura do romance de Austen e ir logo pesquisar sobre Udolpho, pois ele havia não só sido muito bem recomendado pelos queridos personagens de A Abadia de Northanger, como também, obviamente, pela própria Jane Austen. O antigo desejo de ler a obra em português se tornou possível com a publicação de Os Mistérios de Udolpho pela Pedrazul Editora! Agora, todos nós podemos nos sentir como Catherine Moorland, com o coração disparado a cada página e a cada mistério!

A princípio, Udolpho é uma leitura que demora algumas páginas para deslanchar. Acho que isso se deve, em parte, pela ansiedade de conhecer o famoso castelo. Ficamos acostumados com Miss Moorland falando de Udolpho, mas a realidade é que demoramos um pouco para chegar lá. Quando conseguimos entrar no ritmo da história, entretanto, é impossível parar de ler! Trata-se de um romance riquíssimo em detalhes e em conteúdo, surpreendente a cada página!

O livro começa dando informações sobre a vida e o dia a dia da família St. Aubert. O ano é 1584 e o primeiro castelo que conhecemos é o de Monsieur St. Aubert, localizado nos agradáveis bancos do rio Garona, na província da Gasconha (p. 9). Nele, vivem Madame e Monsieur St. Aubert e também sua filha, Emily.

 

“Em pessoa, Emily lembrava sua mãe; tendo a mesma simetria elegante da forma, a mesma delicadeza das feições e os mesmos olhos azuis cheios de doçura terna. (…)

St. Aubert cultivava o discernimento dela com o cuidado mais escrupuloso. Ele a deu visão geral das ciências, e uma familiaridade exata com cada parte da literatura elegante. Ele a ensinou latim e inglês, principalmente para que ela pudesse compreender a sublimidade de seus melhores poetas. Ela descobriu em seus anos mais jovens um gosto pelas obras dos gênios; e foi o princípio de St. Aubert, assim como a sua inclinação, promover cada meio inocente de felicidade. ‘Uma mente bem informada’, ele dizia, ‘é a melhor segurança contra o contágio da insensatez e do vício. A mente vaga está sempre à procura de alívio, e pronta para mergulhar no erro, para escapar do langor da ociosidade. Carregue-a de ideias, ensine-a o prazer de pensar, e as tentações do mundo lá fora serão contrabalanceadas pelas gratificações derivadas do mundo de dentro. Pensamento e instrução são igualmente necessários à felicidade de uma vida no campo e uma vida na cidade; na primeira eles previnem as sensações inquietas da indolência, e fornecem um prazer sublime no gosto que criam pelo belo e o grandioso; na última, eles fazem a depravação ser menos um objeto de necessidade e, consequentemente, de interesse.'” (p. 13)

 

Logo no início da história, Emily passa por sua primeira tragédia: a morte da mãe. Uma tristeza muito grande abateu a família St. Aubert, que já era bem pequena. Nessa ocasião, surge o primeiro mistério: Na tristeza de seu quarto, Monsieur St. Aubert buscou a imagem de uma dama, que estava guardada em uma caixa. Emily o viu observar o retrato com ternura, beijá-lo e o levar ao coração, com uma paixão tremenda. A jovem pôde observar que a mulher do retrato não era a sua mãe e ficou surpresa com tal fato. Vendo o sofrimento do pai, ela se retira silenciosamente de seu quarto e ele parece não perceber a presença da filha.

A saúde de Monsieur St. Aubert não estava nas melhores condições, principalmente levando em consideração o trauma recente. Seu médico lhe recomenda, então, uma viagem: o ar de Languedoc e da Provença poderiam lhe fazer retornar à sua melhor constituição. Sendo assim, ele e Emily saíram do castelo em viagem às margens do mediterrâneo, em direção à Provença.

Na viagem, conhecem Valancourt, que se apaixonará por Emily. A jovem, muito devido à preocupação com o estado de saúde de seu pai e também pela tristeza causada pela recente morte de sua mãe, inicialmente se mostra tímida e não dá muitos sinais de encorajamento ao rapaz. Este, contudo, parece adquirir os sentimentos mais profundos por Emily desde o momento que conhece a jovem. Mas, como cada qual tem o seu destino, Valancourt logo se despede dos St. Auberts, que prosseguem em busca do ar da Provença.

 

“Ele (M. St. Aubert) sentiu muito quando chegaram ao local onde as estradas se separavam, e seu coração se despediu mais afetuosamente dele do que é comum depois de um relacionamento tão curto. Valancourt falou muito ao lado da carruagem; pareceu que ia embora mais de uma vez, mas ainda se demorava e parecia procurar ansiosamente por assuntos para a conversa a fim de justificar sua demora. Enquanto ia, St. Aubert o observou olhar para Emily com um olho sincero e pensativo, enquanto a carruagem seguia em frente. St. Aubert, por qualquer que fosse a razão, logo em seguida olhou pela janela, e viu Valancourt em pé na beira da estrada, se apoiando sobre a sua lança com os braços cruzados, e seguindo a carruagem com os olhos. Ele acenou, e Valancourt, parecendo ter acordado de seus devaneios, retornou a saudação, e se afastou apressadamente.” (p. 42)

 

O leitor vai perceber que nem tudo serão flores e galanteios na vida da jovem Emily: seu pai morre no meio da viagem, longe de casa, na cama de estranhos que lhe permitiram a estadia, pois não havia nenhum outro lugar em que ele pudesse ficar. Percebendo que seus últimos momentos estavam próximos, M. St. Aubert faz Emily lhe prometer que quando voltar para casa pegará uns papeis que estão em seu escritório, escondidos debaixo de uma tábua, e que vai queimá-los sem ver do que trata o conteúdo. Mesmo surpresa com o pedido, Emily promete ao pai que vai cumprir com o que ele pediu, de acordo com as suas orientações.

Órfã, Emily foi posta aos cuidados da tia, Madame Cheron. A partir daí a história, em minha opinião, deslancha. Foi nessa parte que eu já não conseguia mais sair de casa sem levar o meu Udolpho! Madame Cheron é uma mulher mesquinha e insensível desde as primeiras páginas. Não lembra em nada o irmão, inclusive justifica sua postura sugerindo que M. St. Aubert teria sido um homem fraco ao longo da vida e que lhe destinou uma tarefa muito ingrata após a morte, cuidar da sobrinha praticamente adulta.

Madame Cheron, ao chegar a La Valée, se irrita profundamente ao encontrar Valancourt conversando com sua sobrinha. Ela faz julgamentos precipitados sem conhecer o rapaz e o caráter de Emily, o que deixa a jovem bastante triste, contudo, preparada para o que pode vir. Sua tia é enfática, quer partir o mais rápido possível para Toulouse e a Emily só resta se despedir do castelo onde viveu com sua falecida família.

 

“E quem é este jovem aventureiro, diga-me?’, perguntou Madame Cheron, ‘e quais as intenções dele?’ Emily respondeu: ‘isso ele mesmo deve explicar, senhora, meu pai não era ignorante quanto à família dele e eu acredito que ela seja irrepreensível’. (…)

‘Eu lamento perceber, sobrinha’, disse ela, aludindo a algo que Emily havia dito sobre fisionomia, ‘que você herdou muitos dos preconceitos de seu pai, e dentre eles aquela predileção repentina pelas pessoas por causa da aparência delas. Eu posso ver que você acha que está apaixonada violentamente por aquele jovem aventureiro, após conhecê-lo por apenas alguns dias. Também havia algo tão encantadoramente romântico na maneira do encontro de vocês’.

Emily  conteve as lágrimas que caíram de seus olhos enquanto falava: ‘quando a minha conduta merecer tal severidade, senhora, você fará bem em exercê-la; até lá a justiça, senão a ternura, deveria restringi-la. Eu nunca a ofendi deliberadamente; agora que perdi meus pais a senhora é a única pessoa de quem eu posso esperar bondade. Não me faça lamentar mais do que nunca a perda desses pais.'” (ps. 111 e 112)

 

Emily fica totalmente à mercê de Madame Cheron, de seus humores e vontades. A vida da jovem não vai ser nada fácil junto da tia, que faz o papel da típica madrasta má, embora seja irmã do pai de Emily.

 

“‘Estou contente por me encontrar em minha própria casa de novo’, disse ela, jogando-se em um grande divã, ‘e por ter minha própria criadagem à minha volta. Eu odeio viajar; embora, é claro, eu devesse gostar disso, pois o que vejo lá fora sempre me deixa maravilhada, ao voltar para o meu próprio castelo. O que lhe deixou tão silenciosa, criança? O que é que está lhe incomodando agora?'” (p. 117)

 

Pouco tempo depois somos apresentados ao personagem que nos deixará de cabelos arrepiados, como disse Mr. Tilney, em A Abadia de Northanger: Signor Montoni. Sedutor e misterioso, o italiano se torna amante de Madame Cheron e para a surpresa de Emily, casa-se com sua tia de uma hora para outra, sem que ninguém além do casal soubesse dos planos de matrimônio.

 

“Emily mal havia entrado no vestíbulo quando observou, com surpresa, o abatimento no rosto de sua tia, e a alegria contrastante de seu vestido. ‘Então, sobrinha!’, disse, e ela parou com algum grau de constrangimento. ‘Eu a chamei… eu… eu queria vê-la; tenho notícias para lhe dar. A partir deste momento você deve considerar o Signor Montoni seu tio, nós nos casamos esta manhã.'” (p. 138)

 

Se, até o momento, a vida de Emily não estava das mais tranquilas, embora sua tia tenha permitido o seu noivado com Valancourt, depois de descobrir um parentesco entre ele e uma (rica) conhecida sua, Madame Clairval, as coisas ficariam ainda piores. Com o casamento, todos os assuntos da agora Madame Montoni e de sua sobrinha e protegida Emily viraram assunto do Signor Montoni! Depois do casamento, ele se tornou uma pessoa impraticável e apenas a sua vontade seria levada em conta. Emily, que pouco podia decidir sobre a sua vida, agora perdera o direito a qualquer reivindicação. Madame Montoni, que inicialmente concordava com todas as opiniões do marido, vê sua vida se transformar em um inferno a partir do momento em que todos deixam a França e se mudam para a Itália, principalmente quando chegam ao castelo de Udolpho.

 

“Apenas algumas semanas haviam decorrido desde o casamento, quando Madame Montoni informou Emily que o Signor pretendia retornar à Itália tão logo os preparativos necessários à viagem fossem feitos. ‘Nós iremos para Veneza’, disse ela, ‘onde o Signor tem uma bela mansão, e de lá para a propriedade dele na Toscana. Por que você está tão grave, criança? Você que é apaixonada pelo interior romântico e por belas vistas, sem dúvida ficará encantada com essa jornada.’

‘Então eu deverei fazer parte do grupo, senhora?’, disse Emily, com surpresa e emoção extremas. ‘Certamente’, respondeu sua tia, ‘como você pode imaginar que nós a deixaríamos para trás? Mas eu vejo que você está pensando no cavalheiro; ele ainda não foi informado da viagem, creio eu, mas logo ele será. Signor Montoni foi informar Madame Clairval de nossa jornada, e dizer que não se deverá pensar mais na conexão proposta entre as famílias, de agora em diante.'” (p. 140)

“Mas Montoni, que havia sido atraído pela aparente fortuna de Madame Cheron, agora estava severamente desapontado com a sua pobreza relativa e altamente irritado com a enganação que ela havia empregado para escondê-la, até que esconder não fosse mais necessário. Ele havia sido enganado quando pretendia ser o enganador; superado pela astúcia superior de uma mulher, cujo discernimento ele desprezava, e por quem ele havia sacrificado o seu orgulho e a sua liberdade, sem se salvar da ruína que agora pendia sobre a sua cabeça.” (p. 183)

 

Signor Montoni garantirá momentos de suspense e terror para Emily, sua tia e para nós, leitrores de Udolpho! Quando chegamos ao final do volume 1 e percebemos que ainda tem muita história e mistérios pela frente, fica impossível não partir imediatamente para a leitura do volume 2! Os Mistérios de Udolpho superaram todas as minhas expectativas, foi uma ótima leitura, que recomendo a todos, especialmente para os fãs de Jane Austen. Para estes, é item obrigatório para ter na estante!

 

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Título: Os Mistérios de Udolpho
Autora: Ann Radcliffe
Tradução: Bianca Costa Sales
Editora: Pedrazul
Páginas: 316
Avaliação: 5/5 estrelas e favorito

Tamires de Carvalho

Estudante de Letras (Português/Literaturas), sempre foi apaixonada pelo universo dos livros. Descobriu na Literatura Inglesa uma grande fonte de prazer e inspiração. Também acha estranho falar de si mesma na terceira pessoa. Contato: ts.carvalhosantos@gmail.com