Os Mistérios de Udolpho, Vol. II

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Foto: Pedrazul Editora

A situação da nossa heroína, Emily St. Aubert, não é das melhores ao final do volume I de Os Mistérios de Udolpho: Encarcerada no macabro castelo, sofre com terrores possivelmente sobrenaturais, armações por parte do Signor Montoni, que deseja a qualquer custo roubar a herança de Madame Montoni já prometida a jovem, dentre outras aflições. A tia de Emily foi aprisionada em uma parte isolada do castelo de Udolpho, sem água ou comida, em represália por não ter dado o seu dinheiro ao marido. Emily não tem certeza se ela está viva ou morta e sofre por se sentir cada vez mais distante de seu amado, Monsieur Valancourt.

Confesso que tive dúvidas se a história manteria o ritmo do volume anterior, pois muita coisa já havia acontecido. Felizmente, Ann Radcliffe possuía várias cartas ainda em sua manga, com muitos mistérios e situações para explicar.

Udolpho é tão macabro que qualquer barulho é considerado como algo sobrenatural, causando gritaria, confusão e, obviamente, desmaios. Emily, embora pareça uma moça frágil, precisou ter muita coragem, enfrentando os seus medos para saber da tia, além de pensar em alguma forma de escapar das garras de Montoni e seus caprichos.

A jovem logo descobre que Madame Montoni não está morta. Não ainda. Com ajuda de Annette, sua fiel criada, ela descobre o cativeiro da tia. Mesmo castigada e abandonada a própria sorte para morrer, Madame Montoni não satisfez os caprichos do marido, deixando todo o seu dinheiro para a sobrinha.

““Onde você esteve por tanto tempo?”, perguntou ela no mesmo tom. “Eu pensei que você tinha me abandonado.”

“Você está mesmo viva”, disse Emily, finalmente, “ou isto é só uma aparição terrível?”, ela não recebeu resposta alguma, e novamente pegou a mão.

“Isto é substância”, ela exclamou, “mas está fria…fria como mármore!” Ela a deixou cair. “Oh, se você está realmente viva, fale!”, disse Emily numa voz de desespero, “para que eu não perca os meus sentidos. Diga que você me conhece!”

“Eu estou mesmo viva”, respondeu Madame Montoni, “mas, eu sinto que estou prestes a morrer”.” (p. 30)

 

Quando Montoni soube da morte de sua esposa, e considerou que ela havia morrido sem dar a ele a assinatura tão necessária para alcançar seus desejos, nenhum senso de decência restringiu a expressão do seu ressentimento. Emily evitou sua presença ansiosamente e ficou de vigia durante dois dias e duas noites, com poucos intervalos, ao lado do corpo de sua tia falecida.” (p. 40)

Signor Montoni vai manter Emily em Udolpho, mesmo após a morte de Madame Montoni, praticamente como uma prisioneira, pois almeja roubar-lhe todo o dinheiro.

““Julgando como eu”, continuou Montoni, “não posso acreditar que você vá se opor em questões que sabe não poder ganhar, ou de fato, que você queira ganhar, ou ter avareza por qualquer propriedade, quando não tem a justiça do seu lado. Contudo, eu acho que é apropriado lhe informar da alternativa. Se você tiver uma opinião justa quanto ao assunto em questão, você será levada em segurança para a França dentro de pouco tempo; mas, se for tão infeliz a ponto de ser enganada pela afirmação recente da Signora, você continuará sendo minha prisioneira até se convencer do seu erro”.

Emily disse calmamente:

“Eu não sou tão ignorante, Signor, quanto às leis, neste assunto, a ponto de ser enganada por afirmações de qualquer pessoa. A lei, nesta instância presente, dá-me as propriedades em questão e a minha própria mão nunca trairá o meu direito. ”” (p. 44)

 

““Assine os documentos”, disse Montoni, mais impacientemente do que antes.

“Nunca, senhor”, respondeu Emily; “esse pedido teria provado para mim a injustiça de sua reivindicação, se eu estivesse ignorante quanto aos meus direitos”.

Montoni ficou pálido de raiva, enquanto o seu lábio tremendo e seu olhar à espreita quase a fizeram se arrepender da audácia de seu discurso.

“Então, toda a minha vingança cairá sobre você”, ele exclamou, com um juramento terrível. “E não pense que ela será adiada. Nem as propriedades em Languedoc, nem as de Gasconha serão suas; você ousou questionar o meu direito. Ouse questionar o meu poder agora. Eu tenho uma punição que você não imagina; ela é terrível!”” (p. 56 e 57)

O vilão, que está sempre envolvido com alguma falcatrua para enriquecer, tem o castelo atacado por inimigos, pouco depois da morte de sua esposa. A situação, em parte, foi boa para Emily, que pôde sair um pouco de Udolpho, embora na condição de protegida do Signor. Neste ínterim, ela precisava descobrir a identidade de um dos prisioneiros do castelo, que ela acreditava esperançosamente ser o seu amado Valancourt.

“Enquanto ela olhava, com essas emoções, para as torres do castelo, subindo sobre a floresta, por entre a qual ela serpenteava, o estranho, que ela acreditava estar preso lá, voltou à sua memória, e a ansiedade e o medo que ele fosse Valancourt passaram sobre a sua felicidade como uma nuvem. Ela relembrou cada circunstância sobre essa pessoa desconhecida desde a noite em que ela o ouviu tocar a canção de sua província natal pela primeira vez; circunstâncias que ela já havia relembrado e comparado antes, sem extrair delas nada perto de convicção, e que só a faziam acreditar que Valancourt era um prisioneiro em Udolpho. Era possível, contudo, que os homens que a conduziam pudessem dar-lhe informações sobre esse assunto; mas, temendo questioná-los imediatamente, com receio de que eles não quisessem contar nada para ela na presença dos outros, ela esperou por uma oportunidade de falar com eles separadamente.” (p. 62)

Após o conflito, Emily volta para Udolpho, pois Montoni a quer bem debaixo de seu nariz, pelo menos até conseguir todo o dinheiro da moça. Na esperança de voltar para França, a jovem fraqueja e cede às ameaças do Signor.

“Ela foi incapaz de assiná-lo por um tempo considerável e seu coração estava dividido com interesses opostos, pois estava prestes a desistir da felicidade de todos os anos de seu futuro: a esperança que a havia sustentado durante tantos momentos de adversidade.

Após ouvir de Montoni uma recapitulação das condições da aceitação e uma demonstração de que o seu tempo era valioso, ela colocou sua mão no papel; quando o fez, caiu para trás em sua cadeira, mas, logo, recuperou-se e pediu para que ele desse ordens para a partida dela e que deixasse que Annette a acompanhasse. Montoni sorriu. “Foi preciso lhe enganar”, disse ele, “não havia outra maneira de fazer com que você agisse racionalmente; você irá, mas isto não será no presente. Primeiro eu devo garantir essas propriedades tomando posse; quando isso for feito, você poderá voltar para a França, se quiser. ”” (p. 94) 

O mistério sobre o tal prisioneiro é revelado, frustrando as expectativas de Emily a princípio. Contudo, o homem misterioso será a passagem da jovem de volta a França, longe do Signor Montoni e do castelo de Udolpho.

““Meu nome é Du Pont; eu sou da França, da Gasconha, a sua província natal, e tenho lhe admirado há muito tempo, e,  por que eu deveria tentar esconder isso? Eu tenho lhe amado a muito tempo.”” (p. 104)

De volta a seu país de origem, é hora de sabermos os mistérios que envolvem outra propriedade, e que podem ter ligação direta com Emily: o Chateau-le-Blanc, antigo lar da Marquesa de Villeroi, a qual Emily guarda absurda semelhança. Haveria alguma relação entre o falecido pai de Emily e a Marquesa? Seria a mesma dama pela qual Monsieur St. Aubert sofrera em lágrimas na solidão de seu quarto, há algum tempo?

Monsieur Valancourt, antes um dedicado e amoroso cavalheiro, reencontra Emily, mas já não é o mesmo de antes. Envolvera-se com mulheres e jogatinas em Paris, tendo sua reputação jogada na lama, influenciado por amigos, na ocasião da guerra.

“Valancourt ficou mais agitado do que antes. “Eu sou indigno de você, Emily”, disse ele, “eu sou indigno de você”; palavras que, pela maneira que foram faladas, fizeram Emily ficar mais chocada com elas do que com o seu significado.” (p. 154)

““Oh, Valancourt! ”, ela exclamava, “tendo sido separados por tanto tempo… nós nos encontramos só para ficarmos infelizes… só para nos despedirmos para sempre? ”” (p. 159)

O casal precisará superar alguns obstáculos e mal-entendidos para, finalmente, encontrarem a felicidade juntos. Antes disso, Emily ainda terá mais alguns segredos envolvendo sua família para serem revelados.

Os Mistérios de Udolpho é o tipo de livro que pode assustar pelo tamanho, mas é certeza de satisfação garantida. Quando pensamos já ter acontecido de tudo nas viagens e nos castelos, algo mais, acontece e prende a nossa atenção. Os personagens secundários surpreendem e os cenários são minuciosamente retratados, o que nos permite embarcar de forma mais realista possível nos acontecimentos. Um ponto negativo, talvez, em minha opinião, seja o casal Emily e Valancourt, que não são do tipo apaixonantes. Neste volume, inclusive, achei o rapaz um tanto quanto chato. Acredito que o personagem atendia aos padrões da época da publicação (1794) e com tantas aventuras e mistérios para desvendar, o romance dos dois acabou fazendo um papel secundário na obra. Como fã de Jane Austen, foi ótimo ter lido este livro em português e o considero como uma das publicações mais importantes da Pedrazul Editora até o momento. Como foi dito na resenha do volume I, Os Mistérios de Udolpho é item indispensável na estante dos fãs de literatura inglesa, sobretudo dos fãs de Jane Austen.

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Título: Os Mistérios de Udolpho
Autora: Ann Radcliffe
Tradução: Bianca Costa Sales
Editora: Pedrazul
Páginas: 312
Avaliação: 4/5 estrelas e favorito

Tamires de Carvalho

Estudante de Letras (Português/Literaturas), sempre foi apaixonada pelo universo dos livros. Descobriu na Literatura Inglesa uma grande fonte de prazer e inspiração. Também acha estranho falar de si mesma na terceira pessoa. Contato: ts.carvalhosantos@gmail.com

  • Raquel

    Muita curiosidade sobre esse livro, excelente resenha!!

    • Tamires

      Obrigada! É uma ótima leitura! 🙂

  • Leila Maciel

    Tenho fé que ainda terei e lerei esse livro.

    • Tamires

      Leia sim! 😀