Orgulho e Preconceito 20 anos depois: A cena que mudou tudo

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São 20 anos desde que o Sr. Darcy saiu encharcado do lago na adaptação da BBC de Orgulho e Preconceito. A televisão – e Jane Austen – nunca mais foram os mesmos (por Nicholas Barber)

“Eu estava lendo um artigo na Radio Times no outro dia” – diz Andrew Davies- “O jornalista estava perguntando: ‘Por que todos esses folhetins clássicos têm seus protagonistas masculinos tirando a roupa?” E eu pensei: ‘Ei! Eu comecei isso!'”

Ele certamente o fez.

Foi Davies, que escreveu o roteiro para a adaptação da BBC em seis episódios de Orgulho e Preconceito de Jane Austen, que foi exibida pela primeira vez, exatamente, 20 anos atrás. E foi Davies, não Austen, que fez o Sr. Darcy (Colin Firth) mergulhar de improviso em seu lago particular, antes de caminhar com sua camisa molhada agarrada ao peito e esbarrando em sua futura noiva, Elizabeth Bennet (Jennifer Ehle). Desde então, ao que parece, os roteiristas de cada novo drama de época da BBC têm incluído a sua própria homenagem a este momento, seja o Aidan Turner sem camisa ceifando em Poldark, seja o mal vestido carpinteiro Richard Madden em O Amante de Lady Chatterley, ou Ben Batt nadando nu em The Go-Between. É justo dizer que, quando Darcy mergulhou na água, duas décadas atrás, ele fez bastante estrago.

“É quase como imposto o romance original na mente do público – Deborah Cartmell”

Mas antes mesmo de seu herói taciturno fazer o mergulho no episódio quatro, Orgulho e Preconceito foi uma sensação. Dez milhões de espectadores estavam grudados nela; naquele tempo a colunista do Independent Helen Fielding – mais notavelmente conhecida por O Diário de Bridget Jones antes que livro e filme fossem um sucesso – foi atingida pela ‘Darcymania’. Era uma verdade universalmente reconhecida que nunca tinha havido um drama de época como Orgulho e Preconceito. O mais impressionante é que não houve outra série semelhante desde então. Há o bollywoodiano Bride & Prejudice e a Elizabeth Bennet, interpretada pela Keira Knightley, no filme de Joe Wright em 2005. Mas, por mais adaptações de Jane Austen que há nas telas do cinema ou TV, é a versão Davies que, invariavelmente, tentam – e falham – em debater.

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Jennifer Ehle e Colin Firth estrelam a adaptação da BBC em 1995 do romance de Jane Austen.

“É quase imposto o romance original na mente do público”, diz a Professora Deborah Cartmell da Universidade de DeMontford, autora de Jane Austen’s Pride and Prejudice: The Relationship Between Text and Screen. “Desde o seu lançamento, toda referência cultural de Jane Austen, e de cada adaptação, teve tanto a ver com Andrew Davies quanto Jane Austen.” Duas comédias recentes são exemplos claros: Lost in Austen, minissérie de 2008 da ITV e Austenland, um filme de 2013, giram em torno do viciante Orgulho e Preconceito – mas é com o Mr. Darcy molhado, interpretado pelo Colin Firth, que elas sonham. “Eu ensinei a cena do lago tantas vezes” – diz a professora Cartmell -“que quando meus alunos leram o romance pela primeira vez eles ficaram absolutamente chocados que aquela cena não está nele.”

Qualquer desculpa

Ainda assim, há muito mais na série do que roupas masculinas encharcadas. A professora Kathryn Sutherland analisa a adaptação de Davies em seu livro Jane Austen’s Textual Lives: from Aeschylus to Bollywood. Para ela, a chave para o apelo do programa é a sua combinação de recursos visuais cinematográficos e estimulo televisivo. “Ela tem as mesmas qualidades que associamos as adaptações de Jane Austen para os cinemas da época, como Razão e Sensibilidade de Ang Lee e Emma de Douglas McGrath com Gwyneth Paltrow. Como eles, a série tem câmeras móveis, cortes rápidos, paisagens abertas e a intensidade emocional de uma forte partitura musical. Mas como ela foi transmitida ao longo de seis semanas, poderia nos manter à espera do final feliz, com um acúmulos de emoções e uma participação pública que não poderia ter em um filme de duas horas.”

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Entre as muitas e varias adaptações de Orgulho e Preconceito está Bride e Prejudice – adaptação de Gurinda Chandha ao estilo Bollywood de 2004.

Antes de Orgulho e Preconceito, ninguém teria comparado um drama de época da televisão britânica com um longa-metragem. “Eles eram muito bem feitos” – diz Davies sobre os esforços de seus predecessores -“mas, pelo menos, 70% das cenas eram filmadas em estúdios, com equipamentos bem trêmulos, pessoas ao redor e em pé, abotoado até o pescoço e tendo conversas educadas.”

Davies e a produtora da série, Sue Birtwistle, tinham algo mais bem planejado. Seu Orgulho e Preconceito sairia do estúdio e iria para o campo banhado pelo sol. Seria inteiramente rodado em película de 16mm, ao invés de cair na combinação de cinema e vídeo mais baratos do que os dramas anteriores. E, quatro anos antes de The West Wing se tornar conhecida por suas cenas com diálogos “walk-and-talk”, seus personagens estavam sempre em movimento, ou eles estavam em carruagens, ou a cavalo, ou vagando através dos prados.

“Trata-se de jovens e seus hormônios” – Andrew Davie

“Sue e eu conversamos muito sobre isso” – diz Davies – “Queríamos muita energia na série e o livro justifica isso porque Elizabeth está sempre correndo e andando em longas caminhadas pelo campo, ficando vermelha, suada e com sua anágua enlameada, o que parecia ser um tesão para Darcy. Então pensamos, vamos torná-lo tão físico quanto possível, sem cair no ridículo. Vamos lembrar o público de que esta não é apenas uma comédia social – mas é sobre desejos, pessoas jovens e seus hormônios – e vamos tentar encontrar maneiras de mostrar isso, tanto quanto possível. Então, para as meninas, eu escrevi um monte de cenas onde os personagens estão nos bastidores, como por exemplo: estão se vestindo, estão com suas camisolas e falando de amor. E nós queríamos que os caras fizessem um monte de coisas físicas: montar a cavalo, esgrima, tomar banho, mergulhar no lago. Qualquer desculpa legítima para ter um personagem tirando a roupa”.

Consequências não intencionais

Ao trazer esse dinamismo juvenil para a tela, Davies e Birtwistle tiveram alguns colaboradores inestimáveis. Simon Langton, diretor da série, manteve a ação que flui de forma tão elegante que surpreende pelo fato dele não ter sido abocanhado por Hollywood. O tema enérgico da música de Carl Davis leva o ouvinte ao longo do filme como uma folha em uma brisa, imediatamente assegurando-nos de que Orgulho e Preconceito não será empoeirado e educacional: será divertido. E a Elizabeth Bennet de Ehle envia a mesma mensagem. Seu desempenho vivaz tende a ser ofuscado pela inspiração Darcymaniaca de Firth. Mas, cada vez que ela ri ou levanta as sobrancelhas, ela nos permite saber que Elizabeth está rindo de todo o esnobismo ao seu redor, por isso é claro para nós rirmos também.

“Nunca imaginei que deveria ser uma cena sexy de forma alguma” – Andrew Davies

Mas, por mais importante que as contribuições de Langton, Davis e Ehle foram, foi Davies que incutiu a série com vitalidade emocionante, começando com a sua primeira cena. “O caminho óbvio para começar” – diz ele – “seria com uma cena em torno de mesa do café com o Sr. Bennet dizendo: ‘Eu vejo que há uma nova família na área.’ Mas eu não queria fazer isso. Além disso, eu queria fazer a adaptação muito pró-Darcy, então eu pensei, ‘Vamos começar com ele e Bingley galopando em seus cavalos – ninguém jamais fez isso antes. E isso é a coisa que define toda a história: Bingley vendo Netherfield Hall e sendo rico o suficiente para tomar a decisão precipitada de alugá-la para a temporada. Então eu pensei, ‘Vamos ter Elizabeth em uma encosta vendo esses dois caras deliciosos galopando e algo a respeito deles faz com que ela vá até a colina’. Lembro-me de escrever aquelas primeiras páginas e pensar: ‘Isto é um pouco diferente das habituais adaptações de Jane Austen. Eu corri para cima e mostrei a minha filha, que estava estudando para seu preparatório acadêmico. Eu disse: ‘O que você acha disso? Ela disse: ‘Muito bem, papai’, porque ela tem sido educada para não dizer, ‘Isso é uma porcaria, pai.’ E essas páginas me deram muita confiança para seguir, neste ritmo, em frente.”

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“É justo dizer que, quando Darcy mergulhou na água, duas décadas atrás, ele fez bastante estrago”.

E assim chegamos à cena do lago, afirma Davies, que nunca foi destinada a desencadear a Darcymania. “Quando as mulheres começaram a fixar a foto de Colin em suas paredes, foi um enigma e uma surpresa” – diz ele – “porque eu apenas pensei que era uma cena engraçada. Era sobre Darcy sendo um cara, mergulhando em seu lago em um dia quente e não tendo que ser educado – e, de repente, ele se encontra em uma situação onde ele tem que ser educado. Então você tem duas pessoas tendo uma conversa pomposa e, educadamente, ignorando o fato de que um deles está encharcado. Nunca imaginei que deveria ser uma cena sexy de forma alguma.”

Se os escritores de Poldark, O Amante de Lady Chatterley e The Go-Between podem fazer a mesma reivindicação já é outra questão.

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Fonte: http://www.bbc.com/

Marcia Bock Belloube

Tradutora e revisora, apaixonada por livros, filmes e cultura britânica. Fã e leitora incondicional de Jane Austen e Chalortte Bronte, mas não recuso um bom livro de escritores contemporâneos.

  • Mariana Barbieri

    Adorei…. a serie é mesmo muito boa, exatamente por ter 6 capitulos… mas eu sempre me apaixono mais e mais pelo livro.
    Nada se compara a minha imaginacao sobre cada cena….

  • Luciana Campelo

    Eu amo a série, sou apaixonada. O filme de 2005 eu também sou muito fã (amo o Matthew Macfadyen), mas a série é mais completa. 🙂 E essa cena do lago do Colin Firth eu acho ótima, mas concordo com o roteirista, que não acho sexy. Na verdade eu acho sexy mesmo são os olhares do Mr. Darcy (Colin Firth) em cima da Lizzy quando está em Netherfield ou em Pemberley.