O SEGREDO DA INDÚSTRIA DE JANE AUSTEN

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A versão cinematográfica de “Orgulho e Preconceito e Zombies” está em produção. FOTO: CROSS CREEK FOTOS

 

Por ALEXANDER MCCALL SMITH

Qual é a explicação para o apelo duradouro da escritora? Uma voz com uma sensibilidade moderna, diz Alexander McCall Smith

O poeta W. H. Auden disse a Sigmund Freud que ele não era mais apenas uma pessoa, mas tinha se tornado uma atmosfera de opinião. Isso é quase tão efusivo quanto um elogio, como se pode imaginar, e há muito poucos pensadores ou escritores que o merecem. Mas, sem dúvida, Jane Austen é uma que merece. Ela não é apenas uma atmosfera de opinião, ela é um movimento, um estado de espírito, um estilo de vida, uma atitude e, talvez o mais revelador de tudo, ela fixa como um imã em nós.

O que explica a popularidade continua de Jane Austen e o punhado de romances que ela escreveu? É, afinal, bastante notável que uma mulher que passou uma vida tranquila em circunstâncias provinciais na Inglaterra do inicio do século 19  tornou-se, a título póstumo, uma celebridade literária suplantando todos os autores desde então. Tolstoy, Dickens e Proust são todos lembrados e ainda lidos, mas eles não têm inúmeros fãs ao redor do mundo que relem seus livros a cada ano, que aguardam ansiosamente a mais recente adaptação para a TV ou filme, que frequentam convenções com trajes da época  e que sem dúvida sonham com os heróis e heroínas de seus romances.

E fica ainda melhor. Embora a sequência literária seja um gênero estabelecido, não há outros escritores que tenham tantos imitadores. A cada ano, as editoras trazem suas safras de romances de Austen, sejam eles prequels, sequels ou um novo enredo tratando de uma nova perspectiva. No ano passado vimos um particularmente bom, “Longbourn” de Jo Baker, uma releitura de “Orgulho e Preconceito” no ponto de vista dos empregados. A veterana romancista do crime P.D. James também se juntou a ela em “A morte vem para Pemberley”, que trouxe um assassinato para o mundo ordenado dos personagens de Austen. Esse romance foi devidamente adicionado à lista de sequels de Austen que terminaram na tela, incluindo a contribuição ímpar de Bollywood.

Nas margens de tudo isso está algumas adições bizarras para ampliar o cânone de Jane Austen.  O mais famoso deles seja “Orgulho e Preconceito e Zombies” de Seth Grahame-Smith. Este segue a trama geral do romance original, mas as pessoas do Inglaterra Regencial convivem com zumbis agressivos, tornando a vida no campo um pouco difícil. A mesma Editora Philadelphia depois lançou “Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos”.

Depois, veio as novelas eróticas, que vão desde o levemente sensual até o altamente explícito. Uma série apresenta os livros com seus títulos originais e acrescenta: “The Wild and Wanton Edition”. Estes são puras imitações, usando a prosa de Austen, mas, de repente se desvia para o oposto do que realmente aconteceu nos livros de Austen. Ao que parece existem dezenas de romances e, muitos deles, com foco nas proezas sexuais do muito admirado Mr. Darcy. Raramente um personagem romântico pode ter feito tal dever incansável pela causa da fantasia feminina? Que herói!

A vida continuada da indústria de Jane Austen deve ter um segredo. No coração disto é, provavelmente, o apelo simples e persistente de romance. Austen escreveu sobre as mulheres se envolverem com homens na eterna dança atração entre os sexos. Que, ao que parece, é o que as pessoas querem ler e ver retratado de uma forma ou outra na tela. A mulher identifica seu homem ou ele identifica-a. Eles se deparam com obstáculos, sejam pessoais ou sociais, mas, se é para ser, eles superam são felizes no final. Então resoluções e felicidades são lançadas nesta mistura, e mesmo estando enfadados, parece que nunca nos cansamos delas.

No entanto, há muito mais de Jane Austen do que isso. Há uma abundância de romances superficiais que são esquecidos tão logo são lidos. Austen está longe de ser superficial. Embora seus livros sejam definidos, exclusivamente, dentro dos limites de uma certa classe social, ela dá uma imagem fascinante das formas dessa fatia da sociedade e dos limites dentro dos quais os seus membros, particularmente mulheres, são obrigadas a viver. Ela também é extremamente engraçada, capaz de pintar as fraquezas dos personagens com uma sagacidade seca de quem namorou muito pouco. Seus livros são íntimos e convincentes. Ela tem uma voz que, de algum modo, parece dialogar com uma sensibilidade moderna. Ela é, em essência, atemporal.

Então, se você é um autor ou um editor e lhe pedem para reescrever um romance de Jane Austen, colocando-o nos tempos modernos, o que você diria? Levou-me não mais do que 45 segundos para dizer sim a um convite para reescrever “Emma”. E, então, foi muito mais divertido fazer isso do que qualquer outra coisa que eu possa me lembrar.

Anteriormente na mesma série, Joanna Trollope e Val McDermid se divertiram muito e Curtis Sittennfeld, que está montando seu “Orgulho e Preconceito” nos EUA, deve estar se divertindo também. Afinal, somos apenas humanos!

O último livro de Mr. McCall Smith, “Emma: uma releitura moderna” (Pantheon), será lançado em 7 de abril.

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Fonte: The Wall Street Journal

Marcia Bock Belloube

Tradutora e revisora, apaixonada por livros, filmes e cultura britânica. Fã e leitora incondicional de Jane Austen e Chalortte Bronte, mas não recuso um bom livro de escritores contemporâneos.

  • Eduarda Graciano

    Ótimo texto. Já quero pra hoje essa versão moderna de Emma!

    Parabéns pela tradução Marcia Bock Belloube.

    :*