O que Jane Austen me ensinou sobre ser uma mulher forte

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Por Lindsey Weishar

Foi minha mãe – uma mulher forte e resistente – que me apresentou ao maravilhoso mundo de Jane Austen. Claro que sou apaixonada pelos incríveis atores do cinema britânico, o elegante sotaque inglês e a sagacidade e humor encontrados dentro das páginas dos romances. Mas o que me atrai nas obras de Jane Austen são as suas personagens femininas fortes. Suas personagens são inteligentes, dinâmicas e bonitas de uma forma tão relevante para as mulheres de hoje como era no século XIX.

Se Austen me ensinou alguma coisa, é que não só as mulheres são fortes, mas também, há uma incrível quantidade de maneiras com que elas podem manifestar essa força – e que a definição da sociedade de uma mulher forte nem sempre representa a força em seu coração. Os pensamentos, sentimentos e esperanças que florescem lá dizem mais sobre ela do que o modo como ela se expressa externamente.

Jane Austen me ensinou que há…

01 – FORÇA COM GENTILEZA

Quando eu ouço “Jane Austen” eu penso, quase que imediatamente, em Lizzy Bennet, a animada heroína de Orgulho e Preconceito, que não teve medo de, inicialmente, recusar o belo e arrogante Mr Darcy com palavras ferinas:

“Eu não o conhecia há um mês, quando senti que o senhor seria o último homem no mundo com quem eu me casaria.”

A personagem de Lizzy está imbuída de um espírito que não podemos deixar de admirar, o modo como ela faz o seu caminho através de interações com os membros altivos da classe alta e as conversas sobre casar-se por amor ao invés de posição. Sua independência das opiniões dos outros chega a ser refrescante.

Embora Lizzy seja definitivamente a favorita entre as fãs de Austen, outra heroína que merece atenção é Fanny Price de Mansfield Park. A filha de uma família de classe trabalhadora chefiada por um pai bêbado, Fanny é adotado pela família de seus parentes mais ricos. Considerando que Lizzy não hesita em falar o que pensa, Fanny é extremamente tímida e sem propensão a compartilhar suas emoções. Ao passo que Lizzy pode caminhar três milhas para visitar uma irmã doente, Fanny se cansa de passear por entre os arbustos. E levando em conta que Lizzy pode pensar em uma resposta espirituosa para silenciar uma futilidade, Fanny apenas enrubesce e mais tarde reage à situação através de lágrimas.

Mas há uma lição na personagem de Fanny Price. No mundo de hoje, ela poderia ser considerada alguém que “precisa de uma espinha dorsal para crescer” ou quem deve “sair da sua concha.” O que é impressionante sobre Fanny é a sua bússola moral forte, sua capacidade de discernir se algo é bom ou ruim. Ela é uma pessoa em quem muitos outros personagens veem falhas (por exemplo, os parentes dela querem que ela se case com um homem elegível, mas inconstante e a acusam de ser ingrata com eles por não aceitá-lo), mas Fanny não se dobra aos desejos enganados daqueles ao seu redor. E para nos ajudar a entendê-la, Jane Austen nos introduz ao coração de Fanny.

De Fanny, eu aprendi a força incrível que é preciso para ser gentil e carinhoso no “mundo real”, onde a dor da injustiça e de ser mal interpretado poderia levar à amargura. Eu aprendi que sua gentileza é uma escolha e não significa, necessariamente, que ela é um capacho. Para Fanny, sua gentileza, na verdade, permite discernimento adequado das decisões que vêm a caminho. Como Lizzy, Fanny ama profundamente e não vai se contentar com um homem qualquer. Ela está olhando não só para o marido, mas também para um amigo. É desnecessário dizer, ela o encontra.

02 – FORÇA EM ENFRENTAR O SOFRIMENTO

Nenhuma personagem revela isso de forma mais pungente do que Anne Elliot, a heroína de Persuasão. Considerando que os outros personagens se recusam aos pequenos inconvenientes da vida ou se afundam em sentimentos de melancolia e auto piedade, Anne enfrenta, com graça, o sofrimento de ter recusado o arrojado Capitão Wentworth oito anos antes, o homem que ela ainda ama. Austen deixa claro que esta proposta não foi recusada por fraqueza de coração da parte de Anne:

“Não era somente uma precaução egoísta, sob a qual ela atuava, colocando um fim nisso. Se Anne não tivesse pensado estar buscando o bem dele, mais que seu próprio, ela mal poderia ter desistido dele”.

Na época, Anne foi convencida por  uma amiga influente da família que isso seria o melhor para a sua família, que ela e o Capitão Wentworth eram jovens e que seria insensato casarem quando ele estava apenas começando a ganhar seu próprio sustento. Embora esta decisão significasse que ela teria que sofrer muito, Anne sentiu necessidade de considerar mais do que a si mesma na decisão.

Em vez de tornar-se imobilizada pelos arrependimentos, especialmente quando o Capitão Wentworth reaparece em seu círculo social, o foco de Anne está sempre centrado sobre os outros. Ela não deixa a dor corroê-la. Porque Anne sofreu, ela é capaz de suportar as pessoas em sua vida que experimentaram perda semelhante. Ela cresceu a partir de sua mágoa, e por causa da força de sua personagem, o Capitão Wentworth é capaz de emergir de sua própria dor e amargura sobre o passado e admitir seu amor infalível para ela.

Os sofrimentos de Fanny também permitem que ela tenha mais compaixão para com os outros. Ela vê a natureza inconstante de um homem que afirma amá-la, mas que também se envolve num relacionamento amoroso com sua prima. Embora sua família não consiga entender por que ela não aceita casar-se com ele, ela permanece forte. Quando sua prima está arruinada por ter fugido com este homem, Fanny fica genuinamente triste por ela. Porque Fanny sabe o que é sentir-se solitária e incompreendida e junto com Anne, que é solitária e incompreendida, permanecem firmes em suas crenças e na empatia com o sofrimento dos outros.

Em vez de retratar o sofrimento como uma barreira intransponível para a felicidade, Jane Austen mostra que ela pode levar suas heroínas em direção à sabedoria e a virtude.

03 – FORÇA EM CRESCIMENTO

Um tema recorrente nos romances de Austen é que somos obras em crescimento. Nenhuma de suas heroínas é impecável; mas tropeçam e lutam para chegar ao crescimento.

Emma Woodhouse (Emma), por exemplo, precisou aprender a colocar o bem dos outros antes de seu próprio. Ao contrário de Anne, que nunca deixa de considerar os outros, Emma está propensa a imaginações fantasiosas sobre outros que não acabam se desenrolando na realidade. No início de sua história, as tentativas de Emma como casamenteira e suposições rápidas sobre outras pessoas colocam-na em apuros, o que a obriga a perceber seus erros e tentar consertá-los. O fato de ter como projeto convencer uma amiga a recusar uma proposta de casamento que ela não aprova e envergonhar uma vizinha prolixa em um piquenique, faz com que Emma reconsidere os efeitos de suas ações sobre os outros, o que acaba por conduzi-la a mudar. Considerando que a personagem de Anne foi reforçada por anos de sofrimento, as pequenas ferroadas que Emma recebe ajudam-na a fazer o que Anne já fez: colocar os outros antes de si mesma.

Lizzy também precisou aprender a enfrentar seu próprio preconceito contra o Sr. Darcy, para vê-lo como o homem que ele é: um indivíduo imperfeito, mas multifacetado e com muitas boas qualidades. Ao fazê-lo, ela descobre:

 “até este momento, eu nunca me conheci.”

Como Emma, ela foi surpreendida por suas próprias suposições.

A heroína que emerge de um romance de Jane Austen geralmente é diferente daquela que encontramos no início. Lizzy descobre que suas próprias impressões nem sempre são uma representação fiel da realidade; Emma percebe o valor e a dignidade das pessoas em sua vida; Anne, pela paciência e tolerância, descobre que o amor pode ser reacendido; Fanny encontra a felicidade em defender seus valores. Não é que a essência de cada personagem muda. Ao contrario, elas se tornam mais felizes por causa disso.

04 – A FORÇA DE SER UMA MULHER

Eu amo que as personagens de Austen podem variar muito e que não importa se somos uma Lizzy ou uma Anne, uma Fanny ou uma Emma, nós somos mulheres fortes – apenas de um jeito diferente do que a popular sociedade tipicamente promove. Jane Austen incentiva a força que vê no coração das pessoas, especialmente as das nossas colegas mulheres.

A moral nos romances de Jane Austen é que a força é dinâmica e decorrente do coração de cada mulher nesta terra. A forma como a nossa força interior se manifesta será diferente para cada uma de nós. Nem sempre é fácil detectar; às vezes mostra-se no silêncio e caminhos secretos. Mas que todas temos esse força dentro de nós: a força que nos faz suave e perseverante; a força que nos abre para o crescimento e que se escreve nas histórias de nossas vidas. E isso é uma lição que vale a pena passar.

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Fontes
Texto: http://verilymag.com/
Ilustração: Alessandra Olanow

Marcia Bock Belloube

Tradutora e revisora, apaixonada por livros, filmes e cultura britânica. Fã e leitora incondicional de Jane Austen e Chalortte Bronte, mas não recuso um bom livro de escritores contemporâneos.

  • Zuleica Ferreira

    Lindas palavras, parabéns por escrever tão claro o que é ser uma mulher de moral e princípios!

    • Marcia Bock Belloube

      Zuleica, aprendi muito traduzindo esse texto. Ele me fez descobrir coisas maravilhosas sobre as heroinas de Jane Austen e o quanto temos de cada uma delas. Com certeza aprenderei muito mais nas proximas releituras.

  • Julieny Galdino

    É lindo como você cita a Fanny. Acho que ela é um heroína muito incompreendida. Eu amo ela, poucos personagens se comparam a mesma em calma determinação e bondade.

    • Marcia Bock Belloube

      Julieny, concordo com você. Há tanto para explorar sobre a Fanny. Sua maturidade, docilidade e firmeza de proposito tem muito a nós ensinar. A cada releitura de Mansfield Park aprendo mais com ela.

  • Suellen Lima

    Obrigada pelo texto maravilhoso.
    Estou aqui feliz por saber que não estava sozinha e que concordamos muito.
    Parabéns pelo site!