O Milagre de George Eliot

Numa escala decrescente de fama, temos Charles Dickens, Emily Brontë, Charlotte Brontë, Jane Austen e Thackeray na lista dos principais romancistas ingleses do século 19. “David Copperfield”, “O Morro dos Ventos Uivantes”, “Jane Eyre” e, ultimamente, “Razão e Sensibilidade” e “Barry Lindon” viraram filmes de sucesso. O número de leitores de George Eliot (pseudônimo de Mary Ann Evans, 1819-1880) é bem menor.

Com George Eliot, entramos numa espécie de ambiente mal-assombrado, onde avultam nomes como Trollope, Gissing ou a misteriosíssima Mrs. Gaskell, a autora de “Ruth” e de “Cranford”.

Não é de espantar que só agora estejam sendo traduzidos no Brasil os dois principais romances de George Eliot, “Middlemarch” (1871-72) e “Daniel Deronda” (1876). A única coisa espantosa é a relativa obscuridade em que, por tanto tempo, se situou esta que é uma das maiores romancistas do século 19.

Apesar dos esforços de críticos como S.R. Lewis, na década de 30 (e da admiração de Proust pela autora), duraram muito as resistências para considerar George Eliot como um dos nomes fundamentais da literatura de todos os tempos. Esta certeza aparece no livro de Harold Bloom, “O Cânone Ocidental” (Ed. Objetiva, 1995); mas na década de 70 um escritor do porte de Anthony Burgess ainda podia dizer, evasivamente, que “George Eliot é uma escritora que tem seus admiradores… há sinais de um novo interesse por sua obra…”.
As resistências a George Eliot — e o imenso sucesso que a autora obteve em vida — se baseiam no fato de que seus livros são vitorianos até a medula. Há dilemas morais a cada página; a autora parece exigir tudo de seus personagens. Toda fraqueza é passível de punição.

O espírito vitoriano, dizia o ensaísta católico G.K. Chesterton, “era abrangente, mas limitado; não podia estar contente com outra coisa senão com o inteiro cosmos; mas o cosmos com que se contentava era pequeno. É falso dizer que não tinha humor; mas havia algo nele que por instinto era incapaz de sorrir. Dizia sempre que as coisas materiais eram “o suficiente’, mas provava com esse tom cortante (como alguém batendo uma porta) que elas não eram o suficiente. Tratava não apenas os seus prazeres, mas mesmo suas emancipações, com certa tristeza”. Esse espírito vitoriano, conclui Chesterton, pode não se resumir a uma idéia simples, mas se resume em um nome: George Eliot.

Com isso, cavou-se a sepultura literária da autora. Nada mais afastado de nós do que o espírito vitoriano. Mesmo os títulos de seus romances —”Silas Marner”, “Felix Holt”, “Adam Bede”— pareciam a um crítico deste século, lord David Cecil, “nomes gravados num túmulo”. Faltava a George Eliot a extravagância, o relevo, o arbítrio de Dickens. Faltava a George Eliot a humanidade sensata de Trollope. Faltava a George Eliot -esta observação, se não me engano, é de Henry James – uma percepção nítida da maldade humana, da baixeza, da perversidade. Faltava a George Eliot o “clima”, o mistério, a ambientação, o furor passional que encontramos em Emily Brontë.

Depois de tantas restrições e críticas, como aventurar-se nos enormes romances da autora? E o que faz dela, afinal, uma escritora tão extraordinária?

Dorothea_and_Will_Ladislaw

Dorothea and Will Ladislaw (Middlemarch)

Vamos experimentar. O primeiro capítulo de seu maior romance, “Middlemarch”, começa descrevendo a heroína. Ela se chama Dorothea Brooke e “tinha aquele tipo de beleza que parece ser posto em relevo quando se usa uma roupa modesta”. De fato, ela se recusa a usar jóias. É muito religiosa. “Sua mente era teórica, e ansiava naturalmente por alguma vasta concepção de mundo que poderia generosamente incluir a paróquia de Frampton e sua própria regra de conduta ali; ela estava enamorada pela intensidade e pela grandeza… Certamente esses elementos no caráter de uma moça casadoura tendiam a interferir em seu destino, e afastá-lo de uma decisão baseada nos costumes, na boa aparência, na vaidade, ou na mera afeição canina”.
O que temos neste trecho? Ao contrário do que prescreve o gosto literário moderno, George Eliot não deixa o personagem aparecer sozinho diante do leitor. Antes mesmo que Dorothea Brooke faça alguma coisa ou pronuncie alguma palavra, a autora já comenta e disseca sua personalidade.

Cada diálogo, cada cena, sofre uma análise exaustiva e agudíssima. A primeira coisa que nos impressiona em George Eliot é a qualidade de seu intelecto. Seus livros apresentam-nos verdadeiras radiografias morais.

Tudo isso seria muito pouco artístico se não ocorresse uma espécie de milagre, o milagre eliotiano por excelência. É que, quanto mais a autora nos explica os seus personagens, menos sabemos como eles irão agir de fato. Ela nos expõe com clareza as diversas linhas de força, os componentes da personalidade, as pressões do ambiente, as contradições, as vocações, as forças e debilidades, o caráter de cada pessoa. Não nos oculta nenhum “condicionante” dos seus personagens. E então… eles agem. Decidem — e cada decisão parece lógica, previsível depois que a lemos, mas ao mesmo tempo poderia ser completamente diversa antes de ter sido feita.

Esse jogo entre livre arbítrio e determinação confere a cada romance de George Eliot uma densidade e um interesse irresistíveis. Não estamos mais no âmbito do “moralismo” vitoriano, do certo e do errado, mas sim da “moral” — um universo em que nada é inconsequente e onde tudo é criticável, mas também em que tudo é justificável.
Claro que o dilema entre liberdade e determinismo era especialmente agudo no século 19 —o século de Darwin, o século da moral puritana, o século da ciência, o século de Marx. George Eliot alcança o mais sutil equilíbrio entre o meio social e o caráter individual quando trata seus personagens. O máximo de inteligência analítica se põe a serviço da ficção, do romance, da criação.

Rosamond e Tertius Lydgate (Middlemarch)

Rosamond e Tertius Lydgate (Middlemarch)

Em “Middlemarch” temos um painel da vida provinciana inglesa, com diversas histórias entrelaçadas. Há o casamento de Dorothea Brooke, alma elevada, com o erudito e sério reverendo Casaubon. Aparentemente, é o marido ideal para quem tinha aspirações espirituais tão altas. Mas o intelectualismo de Casaubon é mesquinho e estéril. Outro personagem tem ambições, paixão, vigor: o médico Lydgate, que proporciona a Eliot um estudo especialmente penetrante a respeito da fraqueza humana. Encanta-se por Rosamond Vincy — linda, indiferente, sabedora das vantagens que lhe garante a burrice feminina. Há Fred Vincy, seu irmão… um sujeito normal, diante de decisões bem graves.

Toda essa lista não tem muito sentido para quem não leu “”. Mas cada personagem, aqui, é um “caso” tão bem interpretado, tão inesgotavelmente capaz de interpretações, que o leitor se sente envolvido numa realidade “mais real”, por assim dizer, do que a própria realidade. É uma realidade à qual foi acrescentada uma dose suplementar, uma dose enorme, de inteligência: a inteligência de George Eliot.

Sentimo-nos capazes, por alguns momentos, de entender melhor as coisas do que antes.

George Eliot não é uma artista que nos faça ver o mundo segundo uma perspectiva inédita -como Kafka ou Dostoiévski, por exemplo —, mas é, como Tolstói, uma artista que nos faz ver o mundo de acordo com nossos próprios olhos. Só que “nossos próprios olhos” parecem ganhar lentes de aumento; e em toda a literatura ocidental poucas lentes são tão claras, tão penetrantes, como as que George Eliot nos oferece.

“Middlemarch” é seu maior romance. O leitor brasileiro também encontra nas livrarias “Daniel Deronda” — uma grande obra, sem dúvida, mas que se ressente de certa morosidade e, estranhamente, de um enredo às vezes romântico demais.

Se “Middlemarch” equilibra notavelmente diversas tramas paralelas, “Daniel Deronda” está dividido em duas partes de interesse desigual. De um lado, há a história de Gwendolen Harleth — uma diva provinciana, frívola, espertíssima, à qual George Eliot dedica o melhor de sua arte e de seu escrutínio ético. De outro lado, há Daniel Deronda, um rapaz de muitos princípios e de poucos fins, que termina encontrando na moral judaica e no sionismo a razão de existir.

Gwendolen Harleth (Daniel Deronda)

Gwendolen Harleth (Daniel Deronda)

George Eliot fez de “Daniel Deronda” um dos raros livros filo-semitas da literatura européia, o que só demonstra sua inteligência, sua ausência de preconceitos. Tinha traduzido, na juventude, uma obra agnóstica de David Strauss, a “Vida de Jesus”, analisando racionalmente a trajetória do Nazareno. A independência intelectual, que determinou o rompimento de George Eliot com seu pai — deixou de ser cristã — e permitiu que passasse a viver, em plena Inglaterra vitoriana, com um homem casado, George Lewes, é notável em “Daniel Deronda”.

O tom edificante, a defesa de níveis elevados de espiritualidade não contribuem muito para a vivacidade do romance — mas afirmam, sobretudo, o ponto de vista exigente, crítico, percuciente da autora. Capaz de ir muito além da mera inteligência quando cria seus personagens, por certo. Mas, acima de tudo, capaz de nos tornar mais inteligentes do que somos. Esta é a principal razão para ler George Eliot. Não é toda hora que encontramos um espírito desses pela frente.

Por Marcelo Coelho, publicado em 29/03/1998

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http://www1.folha.uol.com.br/
Imagens Middlemarch: http://en.wikipedia.org/wiki/Middlemarch

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Gosto de tudo da Inglaterra: literatura, filmes, séries, sitcons, sotaque, educação, polidez, costumes, parques, praças, arquitetura… Tudo! Fui Influenciada pela literatura inglesa que eu li avidamente. Morar lá é o meu objetivo de vida.