O lado explícito de Jane Austen

Para celebrar o bicentenário da morte da escritora, a Biblioteca Britânica reuniu três cadernos de anotações da sua juventude que sobreviveram ao tempo. Fiona Macdonald traz um panorama.

Por Fiona Macdonald, 10 de janeiro de 2017

“Os primeiros escritos de Jane Austen parecem ter muito pouco em comum com a sociedade reprimida e prática retratada pela autora em seus romances”, afirma Kathryn Sutherland, professora de língua inglesa na Universidade de Oxford. “Pelo contrário, eles são contos extremamente realistas da conduta sexual e de embriaguez e violência feminina”.

Um lado diferente da romancista britânica pode ser encontrado nos três cadernos usados no início de suas atividades que sobreviveram ao tempo. Apesar de serem escritos quando Austen tinha entre 11 e 17 anos, eles apresentam histórias, rascunhos dramáticos e uma sátira. Pela primeira vez, em 40 anos, essas histórias foram reunidas para uma mostra na Biblioteca Britânica. Os escritos dos cadernos revelam um talento precoce – reproduzindo o formato dos romances do século 18, com títulos de O Primeiro Volume, O Segundo Volume e O Terceiro Volume, inscritos em suas capas.

“Já nos escritos feitos na juventude, ela definia o seu estilo – ela pode imitar o tipo de escrita que lera enquanto criança”, afirma Sandra Tuppen à BBC Cultura, curadora na Biblioteca Britânica. “É muito satírico. Ela tinha bastante confiança em imitar esse estilo, e encontramos isso nos cadernos de sua adolescência”.

Assim como um sumário e dedicatórias escritas no estilo de odes bajuladoras a patronos, o primeiro volume reúne 12 capítulos. “Ela diz que é um romance de 12 capítulos, mas cada capítulo tem apenas uma ou duas frases. Portanto, ela está imitando um estilo de romance sem escrever um romance sério nesta fase. É intencional”, afirma Tuppen.

Garota divertida

Ao tomar forma de contos, os escritos revelam o humor que se sobressai nos romances de Austen. “Eles são tão animados; as histórias são tão espirituosas”, afirma Tuppen. “Não são histórias que se esperam de uma adolescente normal, ao menos não de uma adolescente do século 18 que vivia em uma espécie reclusão, como muitas pessoas supõem sobre o modo de viver de sua família”.

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Imagina-se que esse retrato da Rainha Elizabeth I foi baseado na mãe de Jane, e que a imagem da Rainha Mary I seja a própria Jane (Crédito: Biblioteca Britânica)

De acordo com a Professora Sutherland, muitos dos primeiros escritos “são imitações cômicas ou paródias de romances populares: do clássico A História de Sir Charles Grandison do seu autor favorito, Samuel Richardson; do livro didático de Oliver Goldsmith, A História da Inglaterra (4 volumes, de 1771); dos ensaístas Joseph Addison e Samuel Johnson”.

A História da Inglaterra, escrita por Austen aos 16 anos, é uma paródia da Inglaterra do reinado de Henry IV ao reinado de Charles I, contada por um “historiador parcial, preconceituoso e ignorante”.

“Uma nota de rodapé na primeira página dá o tom do conto” afirma Sutherland. Está escrito: “Preste atenção: haverá poucos encontros românticos nessa história”.

A irmã de Austen, Cassandra, criou ilustrações para a história, muitas das quais se pareciam mais com homens e mulheres da época do que com pessoas da realeza de outros tempos. “Henry VII parecia particularmente desfigurado”, afirma Sutherland. Os retratos podem ter sido baseados em membros da sua família. “Imagina-se que o retrato bastante severo de Elizabeth é, provavelmente, a mãe de Austen”, afirma Tuppen. “Há um retrato gracioso de Mary enquanto criança, e imagina-se que poderia ser a própria Jane”.

Caso de família

Austen ganhou os cadernos de seu pai, e vem de uma “família de talentosos escritores amadores”, de acordo com Sutherland. “Sua mãe escrevia versos engraçados e charadas; seus irmãos mais velhos, James e Henry, inauguraram e escreveram por bastante tempo um jornal semanal de humor, The Loiterer (que em português significa “o desocupado”), quando eram estudantes no St John’s College em Oxford. Os irmãos Austen cresceram compondo charadas e poemas para entreter uns aos outros”.

Esses cadernos eram parte de uma tradição. “Eles são manuscritos semipúblicos direcionados a circularem na família e entre amigos” afirma Sutherland. “Diferentemente de muitos escritos de adolescentes (daquela época e de agora), estas não são confissões secretas ou aflitas feitas a um diário e destinadas apenas ao seu autor. Pelo contrário, são histórias que devem ser compartilhadas e admiradas por um público. Muitas apresentam uma dedicatória bem elaborada para um membro da família ou amigo, e são cheias de referências a piadas e acontecimentos comuns a essas pessoas”.

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Austen transcreveu a opinião das pessoas sobre Mansfield Park nessa lista. (Crédito: Biblioteca Britânica).

A mostra da Biblioteca Britânica inclui notas manuscritas de Austen sobre o que a família e amigos pensavam do seu terceiro romance, Mansfield Park. É um documento fascinante, que revela o quanto ela se importava com a opinião das pessoas, assim como o humor que ela poderia imprimir a uma lista.

“Quando Mansfield Park foi publicado, ela não recebeu nenhuma crítica, portanto, essa era uma boa forma para ela descobrir a opinião das pessoas sobre a obra” declara Tuppen à BBC Cultura. “Revela que ela colheu as opiniões e as transcreveu para essas folhas de papel – ela poderia ter apenas ouvido o que as pessoas disseram e ter feito uma nota mental, mas, ao invés disso, ela transcreve todas as opiniões, e elas se tornam mais um escrito seu. Certamente ela interpretou o que as pessoas disseram, já que foram coisas ditas a ela verbalmente, sendo, portanto, um bom exemplo de sua escrita. Alguns desses comentários são tão espirituosos que você acha que há algum traço de Jane Austen nele, especialmente quando ela fala sobre as opiniões mais negativas”.

A mãe de Austen, Cassandra, não achava que Mansfield Park era tão bom quanto Orgulho e Preconceito, e achava sua heroína, Fanny, “sem graça”, enquanto uma amiga da família, Augusta Brownstone, preferia Mansfield Park às outras obras de Austen, apesar de “imaginar que deveria ser seu gosto, já que ela não entendia a sátira”.

Mulheres determinadas

As histórias apresentadas nos cadernos são diferentes dos demais trabalhos de Austen. “Eles são caracterizados por emoções exageradas e por aventuras absurdas”, afirma Sutherland, e Tuppen argumenta que “eles são mais explícitos que seus romances subsequentes – há assassinato e violência, o que não aparece em suas outras obras – ela certamente tirou isso das histórias que leu, então ela provavelmente teve acesso a algum tipo de literatura explícita”.

Mas ainda há alguma coincidência. “Comum aos três cadernos é a representação de mulheres jovens confiantes, teimosas, e até mesmo rebeldes: heroínas como Charlotte Lutterell de Lesley Castle (O Segundo Volume), e Catherine ou Kitty … na longa Kitty, or the Bower, do Terceiro Volume”, afirma Sutherland. “Há vários indícios de que a mesma inteligência crítica que criou essas descrições satíricas de convenções e estereótipos da ficção do final do século 18… ainda funcionava na estrutura mais realista de seus romances maduros”.

Os primeiros esboços de livros publicados mais tarde, como Razão e Sensibilidade, Orgulho e Preconceito e Northanger Abbey, foram escritos logo após o último dos cadernos da adolescência. “Não é tão estranho encontrar traços de heroínas espirituosas desses primeiros escritos na energia anti-madame de Elizabeth Bennet (‘atravessando um campo atrás do outro em um ritmo acelerado, pulando degraus e saltando sobre poças’, Orgulho e Preconceito, capítulo 7) e da imaginação perigosamente indisciplinada de Emma Woodhouse.

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Texto traduzido de: BBC Culture

Mariana Almeida

"Apaixonada por idiomas e todo o universo textual, trabalha com revisão e tradução (inglês-português) nas áreas de meio ambiente, administração, marketing, linguagem, literatura, sociologia e autoajuda. Formada em Letras e em Administração, especialista em Comunicação Empresarial, especialista em Tradução, mestre em Ciências Humanas e Sociais, atua também como professora universitária, orientadora de trabalhos de conclusão de curso na área de comunicação, participação em bancas examinadoras de trabalhos, em eventos na área científica (congressos, seminários, simpósios) como ouvinte e como expositora, com artigos publicados em periódicos científicos."