O DIÁRIO DE MR. DARCY – AMANDA GRANGE

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É uma verdade universalmente conhecida que uma mulher em posse de Orgulho e Preconceito deve ser apaixonada pelo Mr. Darcy. Que atire a primeira pedra quem não suspirou diante do “me permita dizer-lhe que eu a admiro e a amo ardentemente” e aquela que não desejou nem por um instante ser a mulher a quem esses sentimentos tão calorosos eram direcionados.

Todos conhecem a história de Orgulho e Preconceito, ela vem encantando milhares de leitores ao redor do mundo por mais de dois séculos. As cinco irmãs mais famosas – e que também figuram entre as mais pobres – da literatura em idade de casar, deparam-se com o estabelecimento de um jovem rapaz em posse de fortuna considerável e de seu amigo de fortuna ainda maior na vizinhança. Logo os dois amigos Mr. Bingley e Mr. Darcy são apresentados às mocinhas e seus pais. As três mais novas, extremamente tolas, são o contrário das duas mais velhas: Jane Bennet, a primogênita, é doce e gentil ao passo que Elizabeth Bennet é espirituosa e inteligente, ambas o oposto das extravagantes irmãs mais novas e da própria mãe. É pelas duas que os ricos amigos serão enfeitiçados.

Só que a trajetória de Bingley e Jane, embora receba mais intervenção de uma família espalhafatosa e de um amigo obstinado, é bem mais simples do que a de Darcy e Elizabeth. Donos de personalidades fortes e decididas, o primeiro é a personificação do orgulho e a segunda, do preconceito. A trama segue o desenrolar dessa relação, das peripécias e desventuras que dela se originam até culminar em um final digno e além de satisfatório em que tudo é acertado entre Bingley e Jane, as desgraças que abateram a família Bennet são resolvidas e, finalmente, Mr. Darcy e Lizzy acabam por vencer seus vícios e se unir em matrimônio.

Em um enredo repleto de críticas à sociedade da época e personagens marcantes, Jane Austen não só encantou leitores e críticos por anos, mas foi a criadora de um personagem em especial que arrebataria o coração de centenas de milhares de mulheres de todas as idades em todo o globo: Mr. Darcy. Mais de 200 anos depois da publicação de Orgulho e Preconceito, Darcy ainda é o responsável pela ruína da vida amorosa de muitas mulheres, ele é considerado o homem ideal: tenaz, honrado, inteligente e equilibrado, apesar de possuir alguns defeitos como todo ser humano, ele se esforça para superá-los e, assim, conquistar a sua amada e é bem sucedido.

Não é à toa que Mr. Darcy é tido como um dos personagens masculinos favoritos de todos os tempos na literatura e quem não gostaria de saber o que passou pela sua cabeça mediante os eventos da obra que protagoniza? É exatamente isso que temos em O Diário de Mr. Darcy: uma narrativa fluida, em forma de diário, que nos coloca no centro dos pensamentos do homem dos sonhos de várias mulheres do mundo inteiro.

O Diário de Mr. Darcy tem início um pouco antes dos eventos de Orgulho e Preconceito. Primeiro, temos os acontecimentos envolvendo Georgiana, a irmã de Mr. Darcy, e George Wickham. É de conhecimento de todos que leram a obra mais famosa de Jane Austen que Wickham quase levou Georgiana à ruína e Amanda Grange explora esse episódio antes de tudo e como ele afetaria Darcy e suas atitudes no futuro.

Logo no começo, Grange também nos dá um relato da busca por uma casa de campo para o amigo Bingley e como se dá a escolha e o estabelecimento dele e das irmãs em Netherfield. É importante porque podemos perceber o papel significativo desempenhado por Darcy na vida do amigo, como ele influenciava Bingley, um jovem tão modesto e humilde, sempre pronto a ouvir – e aceitar – os conselhos do senhor de Pemberley.

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A partir daí o enredo segue a linha temporal dos eventos de Orgulho e Preconceito de acordo com o que Darcy registra em seu diário, onde se apresenta muito mais como um observador do que como um orgulhoso e onde sua face sensível e cavalheiresca fica muito mais amostra. Aliás, se por um lado temos um senhor de Pemberley frio e com ares de arrogância em Orgulho e Preconceito, aqui ele aparenta ser muito mais sensível apesar da máscara de orgulho e desprezo por seus inferiores em fortuna e intelecto que Grange tenta colocar nele a princípio. É algo interessante porque dá um toque de mais humanidade para além da frieza do personagem de que somos testemunhas durante grande parte do livro original. O Diário de Mr. Darcy apresenta um Mr. Darcy mais humano, mais vulnerável com suas angústias, temores e incertezas que nos toca profundamente.

Vale chamar a atenção para a relação de Darcy com Bingley e suas irmãs (especialmente Caroline) e Darcy com sua família (Georgiana, Coronel Fitzwilliam e Lady Catherine de Bourgh), é nelas que se concentram a maioria dos diálogos do livro, muito bem escritos por Amanda Grange. É interessante observar como Darcy considerava Bingley quase como um irmão mais novo e como lidava com as atenções de Caroline, além do sentimento de camaradagem entre ele e o Coronel Fitzwilliam.

Nesse contexto, outro ponto merecedor de uma atenção especial é o casamento de Lydia e Wickham. Amanda Grange inovou ao nos apresentar uma Lydia muito mais atrevida e petulante do que a que Jane Austen nos deu em Orgulho e Preconceito. Se na obra original, temos Lydia como vítima da sedução e persuasão de Wickham para fugir com ele, em O Diário de Mr. Darcy é Lydia quem insiste para ir com o desprezível homem contra a vontade dele! O homem a acha insuportável e ela tem muito mais personalidade e força do que Lydia aparenta ter na obra de Jane e nós podemos ver o empenho de Darcy ao tentar – em vão – convencê-la do péssimo caráter de Wickham. Não adianta nada, é claro, e como sabemos, graças a Darcy a questão se resolve após uma boa dose de preocupação e esforço.

Outras inovações de Amanda Grange se dão no final. Entre elas, a união de personagens que jamais sonharíamos que poderiam ficar juntos em Orgulho e Preconceito e uma extensão da história original para além do fim que Jane nos dá. Grange nos mostra não só o casamento de Darcy e Lizzy, mas a lua de mel e mais um pouco.

Diante disso, não, O Diário de Mr. Darcy não é precisamente fiel a Orgulho e Preconceito porque esse não é o objetivo do livro. É uma releitura que não segue a mesma linguagem sagaz de Jane Austen e com certeza não é recomendada a fãs que esperam por algo assim. Pelo contrário, o livro de Amanda Grange conta muito mais com uma escrita leve, de fácil entendimento, que repete algumas falas do livro de Jane, mas que não tem medo de acrescentar muito mais, e cujo objetivo é focar nos sentimentos de seu protagonista, no desenvolvimento do amor de Darcy por Elizabeth e a relação do irmão de Georgiana com sua família e amigos.

O Diário de Mr. Darcy é uma leitura agradável e prazerosa e nos presenteia com a oportunidade de nos apaixonarmos pelo herói do título mais uma vez. Tomara que os diários dos outros heróis de Jane Austen, escritos por Grange, também possam ser publicados aqui no Brasil para que, assim como foi com Darcy, possamos conhecer melhor o recôndito de seus corações e nos apaixonar novamente por cada um deles.

“[…] e eu percebi que o meu olhar fugia para Elizabeth. Ela é diferente de qualquer mulher que eu tenha conhecido. Ela não é bonita, mas ainda assim acho que preferiria olhar para o rosto dela a olhar para qualquer outro. Ela não é graciosa, mas ainda assim seus modos me agradam mais do que qualquer outro que eu tenha conhecido. Ela não é culta, mas ainda assim ela tem uma inteligência que faz dela uma oradora vigorosa, e que deixa suas conversas estimulantes. Havia muito tempo que eu não esgrimia com palavras, na verdade, não estou certo se havia feito isso alguma vez antes… E ainda assim com ela eu estou frequentemente engajado em um duelo de sagacidade.”

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Enza G. Said

Capixaba, acadêmica de Direito, amo a cultura inglesa, mas sonho em morar no sul da França. Sou apaixonada por música clássica, chá, cheiro de chuva e filmes antigos; passo horas relendo trechos dos meus livros favoritos e toco piano nas horas vagas. Contato: enzasaid@gmail.com

  • Luciana Campelo

    Eu sou muito fã deste livro. 🙂