O beijo nos romances de Jane Austen

Esse artigo é sobre não haver beijos apaixonados em nenhum livro de Austen. Porque ela deixou para nós, os leitores, na nossa mente, a criação de todas as cenas ardentes que ela não podia escrever, mesmo que as imaginasse. E o cinema pôs  beijos loucamente apaixonados nos casais de Jane, como deveria.

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Este mês, realizou-se um estudo sobre o beijo nos livros de Jane Austen. Embora eu já tenha lido todos os seus livros várias vezes, fiquei surpresa com o que eu descobri: Os beijos não são de todo como nos filmes. Por exemplo, eu poderia perguntar: “Quem começa a beijar Elizabeth Bennet no final de Orgulho e Preconceito?” A maioria das pessoas iria responder, mas apenas algumas daria a resposta correta “Capitão Wickham”. Depois que ele se casa com Lydia e vai visitar a família Bennet, Elizabeth permite que Wickham beije sua mão (Eca!) Mr. Darcy não recebe tal privilégio.

Aqui está outra pergunta: “Quem primeiro beijou a mão de Elinor em Razão e Sensibilidade?” Você pode ser surpreendido, como eu fui ao saber que foi o Coronel Brandon. Ele beija a mão de Elinor em gratidão depois que ela ouve a história de seu amor do passado.

Eu não estou brincando! É quase como Jane Austen estava jogando Spin-the-botlle com seus personagens.

Eu encontrei mais de vinte beijos nos livros de Austen. Um resumo.

Há mais de cinco beijos em Razão e Sensibilidade:

Willoughby beija uma mecha do cabelo de Marianne. (Capítulo 12)

Lady Middleton beija sua filha Annamaria. (Capítulo 21)

Elinor beija Marianne quando ela se entristece com a rejeição de Willoughby. (Capítulo 29)

Coronel Brandon beija a mão de Elinor em gratidão. (Capítulo 31)

Marianne dá em Elinor um beijo de gratidão. (Capítulo 46)

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Razão e Sensibilidade (2008) –  BBC

Orgulho e Preconceito apresenta pelo menos quatro beijos:

Elizabeth beija seus priminhos Gardiner. (Capítulo 47)

Mr. Wickham beija a mão de Elizabeth depois que ele está casado com Lydia. (Capítulo 52)

Jane beija Mr. Bennet após seu noivado. (Capítulo 55)

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Orgulho e Preconceito (2005) – Focus Features

Há oito beijos em Mansfield Park:

Mr. Thomas beija a pequena Fanny carinhosamente. (Capítulo 19)

William (irmão de Fanny) beija Fanny no adeus. (Capítulo 29)

Fanny beija a mão de Sir Thomas, lutando contra os soluços. (Capítulo 37)

O irmão de Fanny beija Fanny para recebê-la de volta a sua casa. (Capítulo 38)

Mr. Price beija Fanny para recebê-la de volta a sua casa. (Capítulo 38)

Fanny dá beijos nos irmãos Tom e Charles com muito carinho. (Capítulo 38)

Lady Bertram beija a irmã de Fanny, Susan, ao recebe-la. (Capítulo 47)

Emma contém dois beijos:

Harriet beija a mão de Emma, ​​em gratidão. (Capítulo 4)

Mrs. Weston beija Emma depois que descobrem o engano de Frank Churchill. (Capítulo 10)

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Emma (1996) – WGA

A Abadia de Northanger não tem nenhum beijo.

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Northanger Abbey (2007) – ITV [UK] | PBS [Estados Unidos]

Há um beijo em Persuasão :

Sir Archibald beija a mão de Ann quando ela caminha com o pai. (Capítulo 18)

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Persuasão (2007) –  PBS

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A menos que você conte Willoughby beijando uma mecha do cabelo de Marianne ou Mr. Knightley quase beijando a mão de Emma, ​​não há beijo de amantes em qualquer um dos livros de Jane. Alguns têm especulado sobre isso, o que sugere que Jane Austen tenha se esquivado de escrever sobre que ela não tinha experimentado. O que quer que tenham sido suas razões, é claro que ela usou principalmente beijos para mostrar gratidão ou para demonstrar o amor entre os membros da família.

Com isso em mente, eu gostaria de sugerir uma interpretação alternativa da tentativa fracassada de Mr. Knightley para beijar a mão de Emma. No passado, eu sempre considerei este quase-beijo como um sinal de sua paixão crescente por Emma. Mas, a julgar por seus outros livros, Jane Austen provavelmente viu um beijo na mão como um sinal de afeto fraternal. Na era Regency, as pessoas não usavam os termos sogros. Uma vez que uma pessoa se casava, casava com a família. Como seus irmãos eram casados, Emma considera Mr. Knightley como seu irmão. No entanto, como os sentimentos dela cresciam, ela muda de ideia sobre seu relacionamento. No baile, ela provoca e pede a Mr. Knightley para convidá-la para dançar: “Você sabe que não somos realmente irmão e irmã para torná-la de todo imprópria”.

Ele responde: “Irmão e irmã! Não, na verdade.”

Assim termina o capítulo trinta e oito.

Talvez o quase-beijo, mais tarde, seja mais um sinal de que Mr. Knightley não vê mais Emma como uma irmã mais nova. Para mim, essa explicação se encaixa no padrão de beijar a família em outros livros de Austen. O que você acha?

Apesar de sua reputação como uma escritora de romances, Jane Austen certamente não escreveu beijos apaixonados nos livros. O que ela fez é algo muito mais engenhoso. Ela escreveu de uma forma que trouxe seus personagens à vida. Suas descrições e caracterizações são tão detalhadas que os beijos ficaram para o leitor imaginar. Quando vejo Darcy e Elizabeth beijando no final de um filme, eu acho que é a coisa mais natural do mundo.

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Por http://austenauthors.net/

Tradução: Sônia Oliveira

┼Ψ╬† sσnia ┼Ψ╬┼

Gosto de tudo da Inglaterra: literatura, filmes, séries, sitcons, sotaque, educação, polidez, costumes, parques, praças, arquitetura… Tudo! Fui Influenciada pela literatura inglesa que eu li avidamente. Morar lá é o meu objetivo de vida.

  • caringerberkupske

    Sou fã incondicional de Jane Austen e adorei este post. Penso da mesma forma, que o que ela escreveu é por demais engenhoso, e sempre imagino os beijos… acho que o filme é uma leitura de alguém que também é fá da escritora, por isso os filmes tem beijos, uma tradução de quem fez o roteiro ou dirigiu, ou ambos… Acho particularmente muito lindo o beijo entre Emma e Mir. Knightley no filme de 1996…

  • Eduarda Graciano

    Pra gente é muito estranho pensar que as pessoas não se beijavam com a frequência e nas situações de hoje em dia.
    Também achava que o não-beijo do Mr. Knightley na mão da Emma era por conta da paixão dele, mas agora ficou bem claro depois do seu post. Ele não quer evitar seus sentimentos e sim mostrar que os mesmos eram fraternais.

  • Maria Sônia, parabéns pelo post!
    Uma das coisas que me faz colocar Orgulho e Preconceito na lista dos meus livros favoritos é justamente a capacidade de Austen em criar um clima tão romântico sem precisar recorrer a nenhuma cena clichê de beijos apaixonados. Elizabeth e Darcy nos fazem suspirar tanto ou mais que casais mais tórridos da literatura.

    Também escrevo para um blog, o The Bookworm Scientist. Estarei compartilhando seu texto na fanpage do Facebook, ok? 🙂
    (https://www.facebook.com/thebookwormscientist)

  • Maria Sônia, parabéns pelo post!
    Uma das coisas que me faz colocar Orgulho e Preconceito na lista dos meus livros favoritos é justamente a capacidade de Austen em criar um clima tão romântico sem precisar recorrer a nenhuma cena clichê de beijos apaixonados. Elizabeth e Darcy nos fazem suspirar tanto ou mais que casais mais tórridos da literatura.

    Também escrevo para um blog, o The Bookworm Scientist. Estarei compartilhando seu texto na fanpage do Facebook, ok? 🙂
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