Nova Biografia de Charlotte Brontë por Claire Harman: envolvente e legível

 

Charlotte Bronte by George Richmond. Photo Supplied

Charlotte Bronte por George Richmond. Photo: Supplied

Charlotte Bronte: A Life
CLAIRE HARMAN

Charlotte Bronte A Life by Claire Harman is utterly readable.Em 1829, aos 13 anos de idade, Charlote Brontë escreveu uma história chamada A BUSCA DA FELICIDADE.  Escrita no período de sua juvenília, é um conto de um exilado em busca de aventuras, mas que somente encontra felicidade quando volta para casa.

O lar, como sabemos, era muito importante para todos os Brontës: eles ansiavam por ele quando estavam ausentes e a casa isolada deles foi essencial na formação de seus talentos criativos. Mesmo para Charlotte, a irmã que viajou mais que todos os outros, a alegria permanecia a mesma sempre que retornava para casa.

A publicação de biografias sobre os Brontë é muito grande. Biografias de Charlotte aparecem regularmente desde que Elizabeth Gaskell publicou a primeira em 1857, à convite de Patrick Brontë, poucos meses depois da morte da filha. Qualquer um que possa contribuir nesse campo de forma útil deve ser elogiado, mas especialmente quando fizer isso com foco e clareza.

A biografia de Claire Harman é envolvente e totalmente legível do começo ao fim. Dificilmente poderia trazer algo novo, dada a grande publicação por biógrafos contemporâneos (Charlote Brontë, por Winifred Gerin, foi publicada em 1967, e apareceram muitas outras desde então). Mas, além do fato que tem aparecido para comemorar os 200 anos de nascimento da escritora, quem precisa de justificativa para escrever sobre uma das mais importantes autoras? Nós praticamente esperamos que uma nova biografia apareça a cada década.

Charlote Brontë, nascida em 1816, era terceira filha de Maria e Patrick Brontë, mas quando tinha nove anos de idade, sua mãe morreu de câncer e suas duas irmãs mais velhas de tuberculose; ela assumiu assim o papel de irmã mais velha, que manteria pelo resto da vida de seus outros irmãos. Ela foi também a cuidadora de um pai teimoso e exigente, que sobreviveu a toda a família. O sofrimento dela e, particularmente, a intensidade de sua solidão mal podem ser imaginados, mas Claire Harman faz um bom relato disso.

Após o grande sucesso de Jane Eyre e dos romances de suas irmãs O Morro dos Ventos Uivantes e Agnes Grey, tudo desmoronou. Em setembro de 1848 seu irmão Branwell morreu, seguido por Emily (que pegou um resfriado no funeral e morreu em dezembro) e então Anne, que morreu em maio de 1849. Naquela casa quase vazia, com seu pai fechado no estúdio onde fazia as refeições sozinho e com as tentativas para controlar sua própria dor, não conseguiu escrever nada. E quando fez, resultou no seu romance menos admirado, Shirley, que ela havia começado por volta de um ano antes e abandonado.

Mas em 1850, ela começou a escrever Villette usando mais uma vez uma narradora em primeira pessoa e retratando em Lucy Snowe uma heroína de paixão destemida, uma “bomba-relógio de emoções”. Em Jane Eyre, Charlotte deu a literatura inglesa não somente o primeiro exemplo de uma história adulta escrita sob o ponto de vista de uma criança, mas uma história moldada pelo senso de justiça da narradora.

Em Villette ela foi mais longe, retornando a personagens e temas de seu primeiro e ainda não publicado romance, O Professor – o qual seu editor George Smith rejeitou nove vezes – para expressar seus sentimentos por Constantin Heger.

Heger era marido da diretora da escola em Bruxelas onde Charlotte e Emily estudaram e ensinaram no começo de 1840 e se passara muito tempo desde que ele havia se recusado a responder as cartas de Charlotte. Naquele momento, de acordo com Harman, ele “havia perdido seu direito de resposta” ao franco retrato feito por Charlotte de suas maneiras, aparência e expressão, que foram definidas como “explicitação ousada” do caráter de Paul Emanuel, o professor que captura o coração e a mente de Lucy Snowe.

Como sabemos, Gaskell evitou mencionar o amor de Charlotte por Heger e reduziu os sentimentos dela para gratidão de pupila apenas, uma ficção que foi exposta 50 anos depois com a publicação de quatro cartas de Charlote não respondidas por Heger.  Harman deixa claro que esta era uma ligação tanto intelectual quanto emocional e ela nos apresenta um retrato vívido da desesperadamente solitária e sensível Charlotte, tão delirante em amor e miséria que entrou em uma igreja católica em Bruxelas e se confessou com um padre: a filha de um pastor protestante.

Bem depois da sua morte, a pequena figura que parecia muito vitoriana em sua casa foi revelada como algo mais. Esta imagem construída cuidadosamente (graças à Gaskell) está em desacordo com a correspondência impulsiva e descuidada de Charlotte (imagine se ela tivesse usado e-mail). Mas, se a reputação de severidade persistiu, foi merecida, em parte.

Ela envergonhou-se pela paixão crua e comportamento destemperado apresentado no trabalho de suas irmãs, tanto que impediu a publicação da segunda edição do segundo romance de Anne, A Inquilina de Wildfell Hall, alegando que havia “falhas de execução e de arte” e em 1850 escreveu um prefácio de desculpas para O Morro Dos Ventos Uivantes onde faz comentários tão ingênuos sobre os personagens que até ela poderia ter acreditado neles.

Harman também oferece percepções sobre a arte de Charlotte e analisa com perspicácia vários exemplos (incluindo um esboço feio que poderia ser um autorretrato, reproduzido na frente da biografia). Ela escreve de forma convincente sobre o amor que Charlotte finalmente descobriu pelo dedicado Arthur Bell Nicholls, o cura de seu pai, e seu breve período de alegria no casamento antes de sua morte por hiperemese gravídica.

Enquanto o caráter de Charlote é revelado aqui como sendo tão complexo como se poderia esperar da autora de uma romance tão volátil como Jane Eyre, Harman talvez minimize o egocentrismo, as contradições, os padrões impossíveis e até mesmo a crueldade (como na sua rejeição inicial de Nicholls) que Charlotte exibiu.

Por outro lado, ela deixa claro que alguns mitos perpetuados são apenas mitos mesmo. Por exemplo, que o presbitério Haworth era sombrio e infeliz, o qual está em desacordo com o fato de que as crianças Brontë não gostavam de estar longe de casa. Deixando de lado as excentricidades de Patrick Brontë e o favorecimento de seu único filho, está claro que ele se esforçou para prover seus filhos com a melhor educação que podia com uma renda muito modesta. E, ele abriu sua biblioteca para eles a partir do momento que puderam ler, criando em um ambiente todas as condições necessárias para o florescimento da imaginação e das suas histórias.

Harman nos lembra que, com uma frase de abertura notável, “Não havia possibilidade de dar um passeio naquele dia”, Charlote Brontë em Jane Eyre mudou tudo sobre o romance inglês. Ela introduziu raiva, sofrimento, imaginação vívida e energia pessoal surpreendente à forma.

Escrito em algum desafio, (as irmãs Brontë estavam pensando em abrir uma escola, não escrever romances), seus sucessos tornaram-nas conhecidas fora de Haworth e apresentaram-nas a outros autores: Harriet Martineau, William Makepeace Thackeray e Elizabeth Gaskell. Charles Dickens aparentemente escreveu David Copperfield do ponto de vista de uma criança baseado no que ouviu sobre Jane Eyre.

Em 1853, George Elliot, disse que Villette era “um livro ainda mais maravilhoso que Jane Eyre”.  E tendo relido o último recentemente, eu agora inspirada posso voltar à Villette: que é apenas um dos muitos benefícios de uma biografia literária tão boa como essa.

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Fonte: The Sidney Morning Herald

Dandara Machado

Sou de Santa Maria-RS. Amo literatura inglesa e pretendo cursar Letras Bacharelado e tradução inglês-português; mas estou fazendo ciências sociais. Minhas escritoras preferidas são Jane Austen, Anne Brontë, Charlotte Brontë, Georgette Heyer, Elizabeth Gaskell, Frances Burney, Virginia woolf e Katherine Mansfield (KM é a melhor de todas, na minha opinião, e meu conto preferido é "A casa de Bonecas”). Meus livros amados são Jane Eyre e Razão e Sentimento. Contato: dandaramachado210@gmail.com

  • Magda Amaral

    Que texto maravilhoso! Não me canso de ler textos sobre as Brontë, acho que até hoje essa família possui seu mistério. Por mais que apareçam fontes sobre suas vidas e perceptivos pensamentos e sonhos, me resta uma vontade de saber mais.

  • Dandara Machado

    que bom que gostou, Magda!
    Obrigada,
    Dandara

  • Katia Fabri

    oi, onde encontro esse conto???

  • Luciana Campelo

    Excepcional tudo o que você escreveu sobre a biografia da Charlotte Brontë. Além de Jane Eyre, sou muito fã dos livros da Emiley e da Anne: “O Morro dos Ventos Uivantes” e “Agnes Grey”. Parabéns mais uma vez pelo texto.