Não, não seria muito agradável viver na Inglaterra de Jane Austen

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Toda vez que eu reli um dos romances de Jane Austen, desejei ter vivido duzentos anos atrás. Para ter vestidos bonitos e participar de bailes pródigos nas casas senhoriais em Chatsworth e ter todo o tempo do mundo para ler, tocar piano e fazer longas caminhadas pelo campo… para ter sido rica e bem-educada no auge da cultura britânica e das boas maneiras — O que poderia ser melhor do que isso?

Muitas coisas. Os direitos das mulheres, por exemplo. É fácil romantizar a Inglaterra nos romances, um lugar onde tudo (principalmente) funciona para aqueles que merecem, mas a realidade teria sido longe de ser idílico

Você não seria Lizzy Bennet

Sábia personalidade, Lizzy é “uma criatura tão agradável como sempre apareceu impressa”, e isso é um ideal onde nenhuma mulher humana poderia viver como ela. Além do mais, mesmo com toda a ansiedade de Mrs. Bennet, os Bennets são uma família incrivelmente privilegiada. Você não seria Elizabeth Bennet, ou qualquer um dos Bennet, ou até mesmo um criado de Miss Bennet, porque na loteria econômica da Inglaterra georgiana, você seria quase com certeza um fazendeiro, mineiro, operário da fábrica, ou alguma outra forma de trabalhador. E bem longe de chorar pelos bailes em Netherfield.

Doença

Digamos que, por algum milagre, você acabou como um membro da aristocracia rural — não se sinta confortável. Tendo nascida rica não impede você de morrer na infância ou no parto (como aconteceu três vezes com a cunhada de Jane Austen). Se tiver sorte você pode viver até a idade adulta, conviver com as tendências de consumo e morrer romanticamente.

Ok, digamos que você seja abastada e consiga evitar a morte (Oregon Trail, Austen Edition!). Agora, como seria sua vida?

Você enviaria cartas para todos. A maioria de nós não pode sequer responder aos nossos e-mails em tempo hábil, naquela época todas as suas amizades de longa distância tinham que ser mantidas com o atraso de longos dias depois da postagem.

Você não poderia ir a qualquer lugar. Supondo que sua família tivesse uma carruagem e pudesse se dar ao luxo de enviar você para vagabundear pelo país, levaria metade da sua vida para chegar a qualquer lugar. Austen encobre totalmente o fato pouco glamoroso de se dormir em carruagens exuberantemente alegres que viajavam a uma velocidade máxima absoluta de 15 milhas por hora.

Você não podia fazer nada

Goste de correr na chuva? Desculpe-me, você pode pegar um resfriado e morrer. Leia-se também: não apropriado para uma dama.

Depois, há todas as outras coisas modernas que não tinham na Inglaterra georgiana: filmes e TV, mercearias, hospitais e água encanada. [. Dê-me chuveiros, vacinas e sorvete sempre que me apetecer! ]

Casamento

Agora, você chegou à idade de casar e precisa garantir a estabilidade econômica. Desde que você não esteja autorizada a possuir qualquer coisa, você precisa de um homem. Porque seria grosseria fazer qualquer outra coisa, você vai ter que esperar por um homem que te queira. Apesar de toda a natureza progressiva das heroínas de Austen (e alguns heróis), elas estão confinadas por costumes sociais dos tempos — Lizzy é charmosa e brilhante, Emma é segura de si e realizada, mas devem esperar que um homem queira elas e verbalize isso.

Fatores que irão determinar se um homem vai querer você, em ordem de importância:

  1. Sua Fortuna
  2. Sua Reputação (leia-se virgindade)
  3. Sua Família e Conexões
  4. Sua Beleza e Habilidades
  5. Sua Personalidade

Nota-se que ao julgar pretendentes masculinos, o nº 1 é geralmente o único fator relevante – padrões duplos!

Nota: Se você for um homem, você vai querer ser (a) o primeiro filho nascido de uma família rica, (b) o segundo ou mais tarde, o filho de uma família rica de alguém, ou (c) sem conexões quaisquer. Se (a) fizer exatamente o que o parente rico quer que você faça para evitar deserdação. De (b) obter de seu parente rico a compra de um ofício na igreja, ou militar, ou na lei, então não vire uma pessoa preguiçosa e sem valor. Se (c) entrar para a marinha. No caso de (a) (b) e (c) tente encontrar uma menina rica para se casar que, idealmente, você também amará.

O Enigma de Miss Bates vs Miss Lucas

Se um homem com uma casa e/ou carreira pede você em casamento e você não o ama, você terá que decidir se teme mais fortemente (a) se tornar uma solteirona sem dinheiro dependente de seus pais e/ou instituição de caridade, ou (b) se casar com um homem que você não respeita e se arrepender para o resto de sua vida. Se formos honestos, só de evitar que se morra de fome já é uma vitória aqui.

E isso nos leva a um grande…

Não terá um Darcy esperando por você.

Orgulho e Preconceito tornou-se, imediatamente, popular e não menos importante com os elementos de contos de fadas em sua história: uma menina digna resiste as provações, aprende uma lição e é recompensada. Mr. Darcy é ninguém menos do que um mítico Príncipe Encantado — rico, bonito, livre de restrições familiares e (quase), imediatamente, capaz de ver o valor de nossa heroína. Não admira que ele tenha sofrido durante duzentos anos como o homem perfeito original. Se você viajasse de volta no tempo procurando por ele, você ficaria decepcionada, havia tão pouco dele andando por aí na Inglaterra georgiana, como havia Lizzy Bennet.

Assim, cada vez que você lamentar a sua sorte por ter nascido duzentos anos mais tarde, lembre-se de Abadia de Northanger: romances são adoráveis, mas eles não são o mundo real.

Mas talvez sejam todas estas razões que fazem as pessoas imaginarem as histórias de Jane Austen em um mundo moderno tão divertido. E nós amamos um bom remake de Austen. Se você também gosta de um bom remake de Austen, veja a nova série de Katie Oliver  What Would Lizzy Bennet Do?

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Fonte: http://www.reviewfromsaturday.com/

Marcia Bock Belloube

Tradutora e revisora, apaixonada por livros, filmes e cultura britânica. Fã e leitora incondicional de Jane Austen e Chalortte Bronte, mas não recuso um bom livro de escritores contemporâneos.

  • Maribook

    Nossa grandes verdades Marcia! Ao ler, muitas vezes só pensamos e idealizamos as circunstâncias mais favoráveis e esquecemos das privações, e preconceitos daquela época! Nem tudo é flores.

  • Raquel

    Nossa!! Concordo muito com as suas colocações, por mais que os livros indicam uma visão linda e romantizada, na vida real, as coisas seriam bem diferentes…

  • Marina Morgan

    Há um certo tempo eu parei de querer ter vivido em outra época. Se não é facil ser mulher hoje, é um questionamento diario de como devemos ser e agir ou se realmente nao somos obrigada a nada… imagina naquela época. E se eu nascesse pobre? Ou feia? Ou negra na época da escravidão, eu seria chicoteada no tronco, objeto sexual dos barões… Então assim, Deeeeus me livre, pode nao parecer, mas tenho certeza que o mundo, no geral, vem melhorando, parei de romantizar o passado, só tenho esperança no futuro. “Antigamente os casamentos eram pra vida toda”, grande bosta, nao existia divorcio.