Mrs. Dalloway na Bond Street*

sir_john_lavery_ra_rsa_rha_a_lady_in_blue_and_white_(ref.mrs_dalloway)Mrs. Dalloway disse que ela própria compraria as luvas. Quando saiu para a rua, o Big Ben ia baten­do. Eram onze em ponto e o tempo incomum es­tava fresco, como que feito para crianças numa praia. Mas havia algo de solene no ritmo vagaroso das reiteradas batidas; algo de excitante no rumor de rodas e no estrépito de pés.

Sem dúvida, nem todos iam em pequenas mis­sões de felicidade. Há muito mais a dizer a nosso respeito além de que andamos pelas ruas de Westminster. O Big Ben mesmo não seria senão varetas de aço corroídas pela ferrugem, não fora o zelo do departamento de manutenção de Sua Majestade. Apenas para Mrs. Dalloway o momento era perfei­to; para Mrs. Dalloway, o mês de junho era novo. Uma infância feliz — e não só para as filhas, Justin Parry fora excelente companheiro (ineficaz no tribunal, naturalmente); flores à tardezinha; nevoeiro dissipando-se; o grasnar das gralhas caindo sempre de muito alto, baixando, baixando, atravessan­do o ar de outubro — não há nada que substitua a infância. Uma folha de hortelã devolve-a ao pre­sente: ou uma xícara de borda azul.

Pobres coitados, suspirou, e prosseguiu resolu­ta. Oh, bem debaixo do nariz, seu demoniozinho! E deteve-se no meio-fio da calçada com a mão esten­dida, enquanto Jimmy Dawes, do outro lado da rua, sorria arreganhando os dentes.

Uma mulher encantadora, amaneirada, ansio­sa, curiosamente grisalha se se levam em conta as faces rosadas; desse modo viu-a Scope Purvis, bacha­rel em cirurgia, enquanto se apressava na direção do consultório. Ela empertigou-se um pouco, esperan­do que a perua de Durtnall passasse. O Big Ben ba­teu a décima; bateu a décima primeira. Os pesados círculos iam se dissolvendo no ar. O orgulho fê-la manter-se ereta, recebendo a herança, transmitin­do-a, ciente da disciplina e do sofrimento. As pes­soas sofriam tanto, sofriam tanto, refletiu, pensan­do em Mrs. Foxcroft na embaixada, na noite an­terior, toda enfeitada de jóias, mortificando-se, por­que aquele belo rapaz fora morto, e agora a velha casa senhorial (a perua de Durtnall distanciara-se) deveria passar para um primo.

— Um bom-dia para você — saudou Hugh Whitbread perto da loja de porcelanas, tirando o chapéu efusivamente, pois conheciam-se desde crian­ças. — Aonde está indo?

— Adoro passear por Londres — respondeu Mrs. Dalloway.

— É bem melhor que passear pelo campo!

— Acabamos de chegar — comentou Hugh Whitbread.

— Infelizmente, para ver médicos.

— Milly? indagou Mrs. Dalloway, condoída.

— Anda adoentada, disse Hugh Whitbread.

— Aquela coisa. Dick vai bem?

Naturalmente, pensou, enquanto retomava o passo, Milly tem mais ou menos a minha idade — cinquenta, cinquenta e dois. Então aquela coisa de­ve ser isso. Foi o que Hugh quis dizer com aquele jeito, e disse-o bem — o velho Hugh querido, pen­sou Mrs. Dalloway, recordando com alegria, com gratidão, com emoção o quanto Hugh fora sempre reservado, como um irmão — era preferível morrer a conversar com um irmão —, enquanto esteve em Oxford, e depois veio para Londres, e por acaso um deles (coisa chata!) não sabia montar. Como en­tão poderiam as mulheres sentar-se no Parlamento? Como poderiam elas fazer coisas junto com os ho­mens? Pois existe um instinto de uma profundida­de extraordinária, alguma coisa dentro da gente; im­possível ignorá-lo; inútil tentá-lo; e homens da espé­cie de Hugh respeitam-no sem que precisemos dizê- lo, e é isso o que apreciamos, pensou Clarissa, no velho Hugh querido.

Havia passado pelo Arco do Almirantado e viu no fim da rua, com suas árvores franzinas, a colina branca de Victoria, a maternidade, a amplidão e a simplicidade encapeladas de Victoria, sempre absur­da, contudo tão sublime, pensou Mrs. Dalloway, lem­brando-se de Kensington Gardens e da velha senho­ra de óculos de armação de chifre e ouvindo a babá dizer-lhe que parasse e se curvasse diante da rainha. No alto do Palácio a bandeira desfraldava-se. O rei e a rainha já estavam de volta. Noutro dia Dick viu-a à hora do almoço — uma mulher muito bonita. Isso interessa demais aos pobres, refletiu Clarissa, e aos soldados. Um homem de bronze imobilizava-se he­roicamente sobre um pedestal, segurando uma arma com a mão direita — a guerra da África do Sul. Isso interessa, refletiu Mrs. Dalloway, caminhando na direção do Palácio de Buckingham. Ali estava ele, firme, em plena luz do sol, impassível, vasto. Mas era da índole, pensou; algo inato à raça; que os indianos respeitavam. A rainha visitava hospitais, inaugurava quermesses — a rainha da Inglaterra, pensou Clarissa, olhando o Palácio. Já àquela hora um automóvel saiu pelos portões; os soldados sau­daram; os portões foram fechados. E Clarissa, cru­zando a rua, entrou no parque, mantendo o corpo empertigado.

O mês de junho fizera irromper todas as fo­lhas das árvores. As mães de Westminster com seios mosqueados amamentavam seus rebentos. Moças de­corosas descansavam deitando-se no gramado. Um homem idoso, curvando-se com dificuldade, apa­nhou um papel amarrotado, alisou-o e tornou a jogá-lo fora. Que terrível! Na noite passada, na em­baixada, Sir Dighton dissera: “Quando quero que um sujeito me segure o cavalo, basta que eu levan­te a mão.” Mas a questão religiosa é de longe mais séria que a econômica, disse Sir Dighton, o que ela julgara deveras interessante, partindo de um homem como Sir Dighton. “Oh, o campo jamais saberá o que perdeu”, dissera, conversando, de livre vontade, a respeito do estimado Jack Stewart.

Subiu com agilidade o pequeno monte. O ar deslocava-se com energia. Transmitiam-se mensagens da frota para o Almirantado. Piccadilly, a Arlington Street e o Mall pareciam atritar o próprio ar do par­que e alçar-lhe as folhas com ardor, com brilho, nas ondas daquela divina vitalidade que Clarissa amava.

Cavalgar; dançar; adorara tudo isso. Ou dar longos passeios pelo campo, conversando sobre livros, sobre o que fazer da vida, pois os jovens eram espantosamente presunçosos  — oh, as coisas que dizia! Mas então tinha convicção. A meia-idade é o diabo! Pessoas como Jack Stewart jamais saberão disso, pensou; pois ele nunca pensara na morte uma só vez; nunca, disseram, soube que estava morrendo. E mais não pode lamentar. . . — como era o resto mesmo? — uma cabeça grisalha… Do contágio da lenta mácula do mundo. . .  Beberam da taça uma ou duas rodadas antes. . .  Do contágio da lenta mácula do mundo![1] Manteve o corpo empertigado. Jack não se teria conformado! Citando Shelley, em Piccadilly! “Você precisa manter a linha”, ele dizia. Abominava mulheres desalinhadas. “Deus do céu, Clarissa! Deus do céu, Clarissa!”, ouvia-o ainda agora, na festa de Devonshire House, falando da infeliz Sylvia Hunt, que usava um colar cor de âmbar e um vestido de seda antigo e deselegante. Clarissa manteve-se bem empertigada, pois falara em voz alta e agora estava em Piccadilly, passando pela casa de colunas verdes e graciosas, e de bal­cões; passando pelas janelas do clube cheias de jor­nais; passando pela casa da velha Lady Burdett Coutt, onde costumava ficar o papagaio branco e lustroso; e pela Devonshire house, sem seus leopardos dourados; e pela casa de Claridge, onde, lembrava-se, Dick lhe pediu que desse um cartão a Mrs. Jepson, do contrário perderiam contato com ela.

Norte-americanos ricos sabem ser encantadores. Ha­via o Palácio de St. James; como um brinquedo de tijolos; e agora — tinha passado a Bond Street — aproximava-se da livraria Hatchard. O fluxo era sem fim — sem fim — sem fim. Lordes, Ascott, Hurlingham — e o que era isso? Mas que graça, pen­sou, olhando a gravura do frontispício de um livro de memórias aberto na janela de sacada, Sir Joshua, talvez, ou Romney; brejeira, vivaz, recatada; esse tipo de moça — como a sua Elizabeth — o único e verdadeiro tipo de moça. E havia aquele livro ab­surdo, Soapy Sponge, que Jum costumava citar pe­lo pátio; e os sonetos de Shakespeare. Sabia-os de cor. Phil e ela tinham passado o dia discutindo acer­ca da Dama Obscura, e Dick, durante o jantar da­quela noite, fora franco ao dizer que nunca soube­ra da existência dela. De fato, ela se tinha casado com ele por isso mesmo! Ele jamais lera Shakespea­re! Devia haver algum livro barato que pudesse dar de presente a Milly — Cranford, naturalmente! Po­dia existir coisa mais deliciosa que uma vaca de saia? Se ao menos hoje em dia as pessoas tives­sem esse tipo de humor, esse tipo de dignidade, pen­sou Clarissa, pois lembrava-se das passagens principais; dos finais de sentenças; dos personagens — falava-se sobre eles como se fossem de carne e osso.[2] Para encontrar as coisas elevadas era preciso voltar ao passado, ela refletiu. Do contágio, da lenta mácula do mundo… Não mais temas o calor do sol… [3] E mais não pode lamentar, repetiu, o olhar perdendo-se na janela; pois isso, recorria-lhe a lembrança; a prova da grande poesia; os modernos jamais chegaram a escrever algo de interesse sobre a morte, pensou; e volveu-se.

Aos ônibus juntavam-se automóveis; aos automóveis, camionetes; as camionetes, carros de aluguel; aos carros de aluguel, automóveis — ali estava um automóvel aberto com uma moça, sozinha. Até quase às quatro, os pés tinindo, eu sei, pensou Clarissa, pois a moça tinha aspecto de exausta, sonolenta, no canto do carro depois do baile. E um outro carro apareceu; e mais outro. Não! Não! Não! Clarissa sorriu com lhanura. A senhora gorda enfrentara to­da espécie de contratempo, mas diamantes! Orquídeas! A esta hora da manhã! Não! Não! O gentil po­licial, quando chegasse o momento, ergueria a mão. Outro automóvel passou. Coisa mais sem graça! Por que uma moça nessa idade pintaria de preto o contorno dos olhos? E um rapaz com uma moça, a esta hora, quando o país — O admirável policial levantou a mão e Clarissa, reconhecendo a autoridade dele, aproveitando seu turno, cruzou, andando na direção da Bond Street; os fios de telégrafo, gros­sos e descascados, estendiam-se cruzando o céu.

Um século atrás, seu bisavô, Seymour Parry, que fugira com a filha de Conway, descera pela Bond Street. Pela Bond Street desceram os Parry havia um século, e, provavelmente, encontraram-se com os Dalloway (Leigh por parte da mãe), que subiam. Seu pai comprava as roupas na loja Hill. Havia uma peça de tecido na vitrine, e ali só um jarro sobre uma mesa negra, a um preço exorbitante; como o salmão rosado e carnudo na pedra de gelo do peixei­ro. Eram raras as jóias — estrelas avermelhadas e alaranjadas, imitações, espanholas, refletiu, e cor­rentes de antigo ouro; fivelas estreladas, brochezinhos que haviam sido usados em vestidos de cetim verde-mar por senhoras de toucados altos. Mas me­lhor não olhar! Há que fazer economia. E prosse­guiu, passando pelo vendedor de quadros onde se pendurava um daqueles esquisitos quadros france­ses, como se lhe tivessem jogado confete em cima

— rosa e azuis —, só por brincadeira. Quando con­vivemos com quadros (e isso vale para livros e mú­sica), pensou Clarissa, ao passar pelo Aeolian Hall, não podemos ser motivo de brincadeira.

O rio da Bond Street achava-se obstruído. Ali, qual uma rainha a assistir a uma justa, excitada, magnífica, Lady Bexborough. Sentava-se em seu coche, aprumada, solitária, vendo pelas lentes dos óculos. A luva branca folgava-lhe no pulso. Tra­java-se de preto, andrajosa; contudo, pensou Claris­sa, como revelava, de maneira excepcional, educa­ção, dignidade, jamais dizendo uma palavra supér­flua ou dando ensejo a intrigas; uma amiga e tanto; em muitos anos nunca ninguém fora capaz de apon­tar nela um senão, e agora estava ali, pensou Cla­rissa, passando pela condessa, que aguardava, toda empoada, perfeitamente imóvel, e Clarissa daria tudo para ser igual a ela, a senhora de Clarefield, que discutia política, como um homem. Mas nunca vai a parte alguma, pensou Clarissa, e seria inútil convidá-la; e o coche afastou-se e Lady Bexborough passou transportada como rainha na justa, embora não tivesse motivos para viver e o velho combalia e, comentava-se, ela estava farta de tudo, Clarissa pensou, e as lágrimas brotaram-lhe nos olhos quando entrou na loja.

— Bom dia — disse Clarissa, com sua voz agradável.

— Luvas — disse, com sua amabilidade tocante, e, colocando a bolsa em cima do balcão, com calma começou a desprender os botões.

— Lu­vas brancas — disse.

— Que cubram os cotovelos —  olhou bem no rosto da vendedora. Mas não era a moça de que se recordava? Pareceu-lhe envelheci­da.

— Não, estas não se ajustam — disse Clarissa.

A balconista examinou-as.

— A senhora usa braceletes?

Clarissa esticou os dedos, abrindo-os.

— Talvez sejam os anéis.

E a moça pegou as luvas acinzentadas e levou- as para a ponta do balcão.

Sim, pensou Clarissa, é a moça de que me re­cordo, e tem vinte anos mais. . . Havia apenas ou­tra freguesa, sentada de lado junto do balcão, o om­bro apoiado, a mão sem adornos pendendo vazia; como um desenho num leque japonês, pensou Cla­rissa, inexpressiva demais talvez, e, contudo, admi­rada por algum homem. A senhora balançou a ca­beça numa expressão de desgosto. De novo as luvas eram muito grandes. Girou o espelho. “Que cubram os pulsos”, chamou a atenção da mulher de cabelos grisalhos, que a fitou e anuiu.

Esperaram; um relógio tiquetaqueava; a Bond Street rumorejava, surda, distante; a mulher afastou- se levando luvas. “Que cubram os pulsos”, disse a senhora, num lamurio, erguendo a voz. E ainda ti­nha de encomendar cadeiras, gelo, flores e cartões de vestiário, pensou Clarissa. As pessoas de que não fazia questão, compareceriam; as outras, não. Rece­beria de pé à porta. Vendiam meias — meias de se­da. Conhece-se uma senhora pelas luvas e sapatos que usa, costumava dizer o velho tio William. E através das meias de seda suspensas, prata que tremulava, observou a senhora, os ombros caídos, a mão pendente, a bolsa a escorregar, os olhos vagos presos no chão. Seria insuportável receber mulheres desalinhadas na festa! Quem ia gostar de Keats se ele usasse meias vermelhas? Oh, finalmente — cur­vou-se sobre o balcão e na sua lembrança uma coisa lampejou.

—  Não se lembra de que, antes da guerra, a senhorita usava luvas com botões de pérola?

—  Luvas francesas, senhora?

—  Sim, francesas — respondeu Clarissa. A ou­tra senhora levantou-se com uma expressão de acen­tuado desgosto, pegou a bolsa e lançou um olhar para as luvas no balcão. Mas eram muito grandes — sempre largas demais nos pulsos.

—  Com botões de pérola — disse a balconista, que parecia mais velha que nunca. Desdobrou o papel de seda e estendeu-o sobre o balcão. Com bo­tões de pérola, pensou Clarissa, bem simples — bem francesas.

—  As mãos da senhora são bastante delgadas — comentou a balconista, puxando a luva com segurança, com delicadeza, por cima dos anéis. E Cla­rissa examinou o braço refletido no espelho. A luva mal chegara ao cotovelo. Não teria outras mais lon­gas? Entretanto, pareceu-lhe desagradável aborrecê- la — talvez um daqueles dias do mês, pensou Claris­sa, quando é uma agonia suportá-lo.

— Oh, não se incomode — disse. Mas a moça buscou-lhe as luvas.

— Não se sente terrivelmente cansada — dis­se, com sua voz agradável — ficando tanto tempo em pé? Quando tira férias?

— Em setembro, senhora, quando o movimen­to cai.

Quando vamos para o campo, pensou Clarissa. Ou caçamos. Ela passa quinze dias em Brighton. Em algum alojamento abafadiço. A estalajadeira entre­ga-lhe o açúcar. Nada seria mais confortável se a alojasse em casa de Mrs. Lumley, no campo (e isso estava na ponta de sua língua). Recordou-se, po­rém, de que Dick, na sua lua-de-mel, mostrara-lhe a insensatez de sua generosidade impulsiva. Mais im­portante, dissera-lhe, era negociar com a China. Evi­dentemente, tinha toda a razão. E pressentiu que a moça nem gostaria de receber coisas. Estava no lu­gar dela. Dick, no dele. O trabalho dela era vender luvas. Tinha lá suas tristezas bem separadas, “E mais não pode lamentar, não pode lamentar”, recor­riam-lhe à lembrança as palavras. “Do contágio da lenta mácula do mundo”, pensou Clarissa, enrijecen­do o braço, pois existem momentos em que isso pa­rece inteiramente inócuo (quando a luva foi tirada, deixou-lhe pontilhados de talco no braço) — sim­plesmente não se acredita mais, pensou Clarissa, em Deus.

De súbito o tráfego rugiu; as meias de seda cintilaram. Uma freguesa entrou.

— Luvas brancas — falou, num timbre de voz de que Clarissa se lembrava.

As coisas costumavam, refletiu Clarissa, ser bem mais simples. Baixando, baixando, atravessando o ar, chegou-lhe o grasnar das gralhas. Quando Sylvia falecera, centenas de anos atrás, as sebes de tei­xo eram muito graciosas com aquelas teias de dia­mantes em meio à névoa, antes da primeira missa. Mas e se Dick morresse no dia de amanhã? Quanto a crer em Deus — não, os filhos teriam liberdade de decidir, mas no que lhe tocava, tal como Lady Bexborough, que inaugurara a quermesse, diziam, com o telegrama na mão —- Roden, o predileto, fo­ra morto —, continuaria. Mas por quê, se não se acredita? Pelos outros, pensou, pegando a luva. A moça seria bem mais infeliz, se não acreditasse.

— Trinta xelins — disse a balconista. — Não, perdão, senhora, trinta e cinco. As luvas francesas custam mais.

Pois ninguém vive para si mesmo, pensou Cla­rissa.

E nisso a outra freguesa pegou a luva, puxou-a com força, e ela rasgou.

— Pronto! — exclamou.

—  Um defeito da pele — apressou-se a justi­ficar a mulher de cabelos grisalhos. — Pode ter caí­do uma gota de ácido no curtimento. Experimente esse par, senhora.

—  Mas é um roubo descarado pedir duas libras e dez xelins!

Clarissa olhou para a senhora; a senhora olhou para Clarissa.

—  Depois da guerra, não se pode mais confiar na qualidade das luvas — disse a balconista a Cla­rissa, desculpando-se.

Mas de onde conhecia aquela outra senhora?

—  Idosa, um folho debaixo do queixo; uma fita preta no monóculo dourado; sensual, inteligente, como um desenho de Sargent. Impressionante como pela voz a gente sabe quando as pessoas costumam, pensou Clarissa, subjugar — “Um agasalho justo demais”, ela disse — os outros. A balconista retirou-se de no­vo. Clarissa ficou aguardando. Não mais temas, repe­tiu, batendo o dedo no balcão. Não mais temas o calor do sol. Não mais temas, repetiu. Havia no bra­ço pequenas manchas castanhas. E a moça veio ras­tejando como lesma. Tua tarefa terrena cumpriste.[4] Milhares de jovens morreram para que as coisas pu­dessem continuar. Finalmente! Um dedo acima do cotovelo; botões de pérola; cinco e um quarto. Mi­nha prezada molenga, pensou Clarissa, acha que pos­so ficar sentada aqui a manhã toda? Agora vai levar vinte e cinco minutos para trazer-me o troco!

Houve um forte estouro lá na rua. A balconis­ta encolheu-se atrás do balcão. Mas Clarissa, que se sentava bem empertigada, sorriu para a outra se­nhora.

—  Miss Anstruther! — exclamou.

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* Publicado na revista The Dial, em 1923, este conto inicialmente foi escrito como primeiro capítulo de Mrs. Dalloway. Os sete capítulos do romance, que sofreu transformações radicais, foram publicados separadamente como contos e integram este livro: “O homem que amava seu semelhante”, “A apresentação”, “Ancestrais”,“Unidos e separados,“O vestido novo” e “Um resumo”. (N. do T.)

[1] Citações do poema Adonais, elegia de Shelley a Keats. Estes são os versos integrais da passagem: From the contagion of the world’s slow stain / He is secure, and now can never mourn / A heart grown cold, a head grown grey in vain (“Do contágio da lenta mácula do mundo / Está liberto, e mais não pode lamentar / Coração e cabeça, em vão morto, grisalha”). A taça referida aparece quatro estrofes antes: Our Adonais has drunk poison — oh!/What deaf and viperous murderer could crown / Life’s early cup with such a drought of woe? (“O nosso Adonai bebeu do veneno — ah! / Que frio, per­verso assassino coroou / A primeva laça da vida com tal desgraça?”) (N. do T.)

[2]  Referência a uma passagem do romance Cranford, de Elizabeth Cleghorn Gaskell (1810-1865). Num momento de descuido, a vaca Alderney cai numa caleira e perde os pêlos. Miss Betsy Barker, sua dona, e que a adora como. filha, protege-a do frio com colete e ceroulas: “Toda a aldeia saía para ver Alderney indo resignadamente para o pasto trajando uma roupa de flanela cinza-escuro.” (N. do T.)

[3] “Não mais temas o calor do sol”; Fear no more the heat o ’ the sun. Réquiem de Cymbeline, de Shakespeare; Song, ato IV, cena II. (N. do T.)

[4] “Tua tarefa terrena cumpriste”: Thou thy worldley task hast done. Réquiem de Cymbeline, idem, ibidem. (N. do T.)

Uma Casa Assombrada contos,  tradutor José Antonio Arantes,  Ed. Nova Fronteira, (1984).

┼Ψ╬† sσnia ┼Ψ╬┼

Gosto de tudo da Inglaterra: literatura, filmes, séries, sitcons, sotaque, educação, polidez, costumes, parques, praças, arquitetura… Tudo! Fui Influenciada pela literatura inglesa que eu li avidamente. Morar lá é o meu objetivo de vida.