Mrs. Dalloway e o fluxo de consciência

“Mas poderia algum homem entender o que nada significava? Poderia entender a vida?“

É bem este o compasso que a obra Mrs. Dalloway segue. São comuns os questionamentos sobre a morte, a religião e o amor na obra de Virginia Woolf.
Virginia Woolf (1882 – 1941) nasce em uma família de intelectuais da alta classe britânica. Seus trabalhos se inserem no modernismo literário, melhor dizendo, o trabalho dela é um daqueles que inicia o modernismo (junto de James Joyce, W. B. Yeats, William Faulkner e outros). A obra modernista se consolida após a 1ª Guerra Mundial e com os trabalhos da psicanálise de Freud, e passa a se questionar sobre a consciência e as motivações da ação e de expressão das ações.
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Editorial Lumen

Mrs. Dalloway se insere neste contexto. A obra é escrita em 1925 e contém a maior especialidade de Virginia Woolf, o “fluxo de consciência”. Fluxo de consciência é uma técnica literária extremamente sofisticada (e uma das minhas preferidas, vocês verão pela quantidade de modernistas que eu pretendo resenhar para o blog) em que o que prevalece são os monólogos interiores (os pensamentos) e estes, como em nós mesmos, levam à enormes digressões e sobreposição de assuntos, ou seja, é um fluxo – um rio – em que começamos pensando em algo, associamos à outra coisa e assim por diante. Esta técnica torna a obra indiscutivelmente intimista, mas também desafiadora (podemos nos perder no nosso próprio fluxo de consciência e acabar nem prestando atenção).

Saindo desta explicação mais “teórica”, vamos para a obra. Mrs. Dalloway (Clarissa Dalloway) é uma das personagens principais do livro e pretende dar uma festa em sua casa, em Londres, para a alta classe londrina, da qual ela faz parte. Todo o livro se dá neste dia, mas no fundo, quase nada se diz sobre a festa (exceto pouca coisa no final), a obra se passa mesmo dentro dos personagens, que são inúmeros. Mrs. Dalloway e seu antigo namorado de juventude (ela tem 53 anos), Peter Walsh, são o ponto central da obra e os mais “visitados” pela autora. Os dois nunca concluíram o seu namoro, separaram-se na juventude e viveram suas vidas desde então, mas, no fundo, a história é sobre esse amor que nunca aconteceu de fato.

Contudo, a obra, que não tem divisão por capítulos, passa pelos questionamentos de diversos personagens, e cada um destes têm a sua própria história, seu próprio fluxo, e o leitor é levado à passear pela cabeça de cada um, pelos medos, receios, satisfações e desejos.

“Que importa o cérebro – disse Lady Rosseter, levantando-se – comparado com o coração?”

 A obra é, e muito, sobre os sentimentos e sobre a velhice (mesmo que Virginia tivesse apenas 43 anos), e dentro da velhice a capacidade (seria mais a possibilidade) de se importar menos e de sentir mais. Mas, inevitavelmente, ainda que em algum momento, com a velhice se pensa na morte. E Virginia é romântica neste ponto (porém, é certamente trágico – e até um pouco cômico – que sua morte tenha sido por suicídio após inúmeras crises de depressão).

“A morte era uma tentativa de união ante a impossibilidade de alcançar esse centro que nos escapa; o que nos é próximo se afasta; todo entusiasmo desaparece; fica-se completamente só… Havia um enlace, um abraço, na morte.”
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Ilustração do livro  la fiesta de la señora Dalloway, por Yelena Bryksenkova

Enfim, é uma obra maravilhosa de um ótima autora que além de falar da “intimidade” também fala da “externalidade”, da sociedade inglesa no final da Era Vitoriana (e, de alguma forma, como isto afeta o interior). Com inúmeros escritos feministas e inclusive deixando isto transparecer em alguns personagens da obra, como a filha de 16 anos de Clarissa, mas também de forma crítica apresentando argumentos patriarcalistas nos discursos de alguns personagens, a autora tece uma obra espetacular cujo único defeito é o de ser tão curta (e alguns dirão que pela pouca quantidade de diálogos, o que é verdade, são poucos e tornam a história mais “longa”, mas não diminui nem um pouco a sua qualidade).

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┼Ψ╬† sσnia ┼Ψ╬┼

Gosto de tudo da Inglaterra: literatura, filmes, séries, sitcons, sotaque, educação, polidez, costumes, parques, praças, arquitetura… Tudo! Fui Influenciada pela literatura inglesa que eu li avidamente. Morar lá é o meu objetivo de vida.