Mr. Darcy através dos tempos

Mr. Darcy através dos tempos: No início, nas representações do herói de Jane Austen, ele nem sempre era tão quente…

São 20 anos desde que Colin Firth surgiu, de camisa molhada, de um lago na minissérie Orgulho e Preconceito na BBC. Agora lutamos para imaginar um Darcy que não seja terrivelmente sexy.

Jennifer Ehle and Colin Firth (1995) BBC

Jennifer Ehle and Colin Firth (1995) BBC

Desde que o fogoso Mr Darcy de Colin Firth surgiu de um lago, em uma camisa molhada, quase podemos perdoar as leitoras de primeira viagem por acreditar, equivocadamente, que vai encontrar um herói em Orgulho e Preconceito de Jane Austen.

A notória cena do lago, que foi ao ar há 20 anos, foi uma ideia do roteirista Andrew Davies. Ele, realmente, queria Colin Firth nu, mas a ideia foi rejeitada por uma pudica BBC. Em vez disso, um Darcy totalmente vestido exalava um desejo encapsulado para a heroína, com apenas o valor de um balde de água e algumas palavras. Davies escreveu muitas coisas sexies no script, mas foi os olhares fulminantes de Colin Firth na Elizabeth Bennet de Jennifer Ehle, ou “Lizzy”, que realmente derreteu as telespectadoras. Seja creditando a Davies ou a Firth, ou a ambos, a maioria concorda que foi a série da BBC de 1995 que originou o “Darcy Sexy”.

A história sugere o contrário. Davies não foi o primeiro adaptador de Jane Austen a capitalizar os anseios reprimidos de Darcy e Colin Firth não foi o primeiro ator a enfatizar suas zonas erógenas. Para ter certeza, mais de dois séculos e um Darcy tridimensional que inclui alguns que não tinham nem boa aparência nem carisma, mas também inclui alguns ardentes que deixaram sua marca no público.

No início, Fitzwilliam Darcy era um personagem periférico nas releituras de Orgulho e Preconceito. Isso pode decorrer do próprio romance de Austen que, famosamente, mantém os leitores no escuro sobre sua aparência física e despertar de desejo.

Estranhamente, essa situação continuou mesmo depois de uma edição ilustrada em 1833. Suas imagens retrataram Lizzy, Mr. Bennet e Lady Catherine de Bourgh, mas nunca o Mr. Darcy. Talvez todos soubessem o que “10.000 libras por ano” parecia.

Em edições posteriores, Darcy era raramente uma amostra tentadora de masculinidade. Os atores lhe deram calvície, barriga saliente, ou um nariz torto. Observou-se que o ilustrador Hugh Thomson desenhou uma versão mais atraente em 1894 – um Darcy mais jovem, mais garboso, com cabelo lindo e uma perna bem-torneados – mas tudo parecia inescrutavelmente afeminado. Os primeiros dramaturgos seguiram o exemplo, colocando o público na mesma posição emocional de Elizabeth, primeiro desprezando um Darcy desinteressante, em vez de um aspirante a herói descolorido. A grande revelação nos roteiros mostrava, no final, um Darcy sendo simpático e casadouro – como se eles o mostrassem em tudo. Orgulho e Preconceito foi adaptado, pela primeira vez, em cenas curtas para salas de desenhos ou escolas e na maioria Mr Darcy foi relegado a uma ideia dissimulada.

O personagem apareceu, pela primeira vez, no palco profissional em 1901 em uma peça, agora, perdida. Os Bennets de Rosina Filippi tinha E. Harcourt Williams, um ator shakespeariano melodramático, como Darcy. Nos EUA, alguns anos mais tarde, Mary Steele Mackaye publicou uma peça em quatro atos de Orgulho e Preconceito. Seu protagonista é estranhamente violento, onde quebra um chicote com um raivoso “Droga!” e antes de prometer a Elizabeth que ele iria resolver as questões com Lady Catherine. (O impetuoso herói “Heathcliffniando” de Austen começou muito antes da versão cinematográfica de Joe Wright, em 2005, com Matthew Macfadyen interpretando Darcy e Keira Knightley como Lizzy).

O primeiro Darcy, inegavelmente, sexy surgiu em 1935 com a adaptação em três atos de Helen Jerome, um hit da Broadway – em seguida, em West End. A Elizabeth de Jerome é lamentavelmente uma chorona, mas seu Darcy espirituoso e ardente marca um ponto importante nessa virada. Em sua cena da primeira proposta, ele segue a linha “lentamente e apaixonadamente”, referindo-se a “este amor por você que me consome”. Ele está “branco pela emoção” e “cheio de desejo oculto”. “Elizabeth, eu te amo”, ele declara. Quando ele sai, Elizabeth chora. Após a segunda proposta, Elizabeth derrama lágrimas (de novo), com Darcy suavemente oferecendo as linhas finais da peça:

DARCY (Movendo-se profundamente. Toma-a em seus braços): Minha cruel…  minha amável… oh, minha adorável Elizabeth! (dobra-se sobre ela e coloca seus lábios nos dela)

Desce a cortina.

No clímax de Jerome, o sexy Darcy toma o centro do palco. Ele foi interpretado pela primeira vez em Nova York por Colin Keith-Johnston, um inglês conhecido por seu Hamlet vanguardista no estilo moderno de vestir-se, rosnando, rebelde, fumando cigarros e violento. Fotografias sobreviventes de seu Darcy sugere esta sua energia, em como ele se inclina sobre Elizabeth em sua mesa, ou como fica perto demais, a cabeça inclinada, joelho dobrado. A plateia se consumia.

Não muito tempo depois, MGM abocanhou os direitos do filme por US$ 50.000. Os posters eram até sensacionalistas: “Um dos romances mais famosos…”, “Uma das peças mais famosas…” e “E agora, será uma das imagens mais famosas jamais filmadas!”.

A história da criação bizantina do filme mostra uma pesquisa de muitos anos por um Darcy. Depois de um plano fracassado para lançar um Clark Gable pré E o vento levou, muitos rumores seguiram sobre os protagonistas masculinos: altos, morenos e com bilheteria pré-aprovada. A MGM foi com Laurence Olivier, alçado ao estrelato como Heathcliff em O Morro dos Ventos Uivantes. Ele foi escalado para contracenar com Greer Garson como Elizabeth Bennet.

A história do script é um labirinto semelhante. Pelo menos oito roteiristas foram cortados. Em uma versão descartada, Elizabeth encontra Darcy nos estábulos dos Bennet, onde ele despreza seu cão favorito, Kate, porque é de uma raça inferior. (É mais fácil aprovar o subtexto homem-cão da série da BBC de 1995 com Elizabeth de Jennfer Ehle brincando divertidamente em torno de um cão com um pau e com Darcy de Colin Firth olhando pela janela, ofegante.)

Uma cena bem bizarra não divulgada mostra Darcy e o Coronel Fitzwilliam em Londres com um Bingley doente de amor, onde eles assistem a um baile de máscaras vestidos como cavaleiros do rei Charles II. Em seguida, eles vão para o Pit Westminster ver um macaco celebridade que luta contra cães. É difícil imaginar um atraente Darcy chegando por aqui, mas isso pode depender de como você se sente sobre trajes de cavaleiro e macacos de luta.

Finalmente, MGM trouxe a roteirista veterana Jane Murfin para acertar as coisas, também contratou o romancista Aldous Huxley da Brave New World, que foi creditado como co-autor. Eles tiraram uma Lizzy chorosa e se familiarizaram com o próprio romance – mas mantiveram o Darcy sexy. “Darcy é o centro de todas as atenções femininas”, as notas do roteiro salientam com “surpreendentemente encantador, sorriso quase infantil”. Em uma cena, nunca filmada, Darcy vagueia sozinho, como um Romeo durante a noite, repetindo diálogos anteriores intercalados com sentenças de Byron em como ele anseia por Elizabeth. A MGM cortou este monólogo, mas deixou claro que eles estavam direcionando  um Darcy introvertido para um Darcy sensível, tendo como base o Darcy ardente e desejável de Jerome.

Isto fica evidente na cena do arco e flecha, também, com o Darcy de Olivier sobre os ombros de Elizabeth de Garson, quase de rostos colados. Ele ajeita seus braços e dedos sobre o arco e flecha, numa demonstração de momentos sensuais, sem a necessidade do Cupido. Somando-se a isso está a imagem que os telespectadores tem de um sensual Heatcliff de Laurence Olivier. Você pode entender porque a preocupação de Colin Firth, no inicio sobre o script BBC, como vestir a capa ou camisa. Como queiram!

Seja qual for a mistura de sentimentos que Colin Firth pode ter agora por ser definido como Darcy, ele só não pode ser tão consternado como Olivier era. “Foi difícil fazer Darcy com algo além de um pedante de aparência pouco atraente e a querida Greer parecendo completamente errada como Elizabeth… afetado e estúpido”, escreveu Olivier em sua autobiografia. Ele estava metade errado, ao que parece. Nem a interpretação nem o filme resistiram ao tempo, mas as conotações byronianas de Olivier influenciaram cada caracterização posterior. Durante décadas, Olivier estava, como ele dizia, “ainda dando autógrafos sobre a grande lapela esquerda de Darcy”.

O Darcy de Olivier era autoconfiante, educado, olhava de soslaio, pouco poético, nem misteriosamente odioso ou violento. A câmera brincava com o fato de que Lizzy e as outras mulheres não conseguirem tirar os olhos dele. Com isso ele aumentou as taxas cardíacas.

Até Colin Firth, ninguém tinha chegado perto de derrubar Laurence Olivier como Darcy. Um ultra-rigido David Rintoul tentou, na versão de 1980 da BBC, parecer ridiculamente antiquado na comparação e, em Bride and Prejudice (2004), uma refilmagem bollywoodiana de Gurinder Chadha, Martin Henderson é completamente ofuscado pela brilhante Aishwarya Rai Bachchan. Firth nos deu o primeiro Darcy capaz de tirar a musculatura de Olivier do caminho. A interpretação de Macfadyen, uma década mais tarde, parece meramente uma imitação de Firth, matando-o com ajuda da Brontë.

Quando perguntei a Simon Langton, que dirigiu a série de 1995, sobre o apelo de Firth – que ele diz que foi unanimemente reconhecido pelos membros femininos – que ele descreve como uma “‘firmeza’ única ou contenção emocional”. Firth, diz ele, estava “aparentemente inconsciente” e “o mais importante ainda, atuava como se ele não tivesse conhecimento, ao contrário de qualquer número de conhecedores do negócio, que estavam muito bem conscientes”.

“Esta falta de auto-atração consciente muitas vezes tem o efeito de tornar o assunto ainda mais atraente para os olhos curiosos, especialmente quando combinado com um distanciamento enigmático, por vezes confundida com arrogância”, acrescenta.

É certamente algo Olivier e Firth têm em comum – projetando desapego severo e desejo feroz, sem vaidade imprópria ou superioridade. Suas diferenças, penso eu, e que torna o desempenho do Firth superior, pode ser como eles interpretavam com suas respectivas Elizabeths. No sorriso malicioso de Garson mostrava uma cabeça vazia e coquete e no sorriso de Jennifer Ehle mostrava força e inteligência.

Outra diferença pode ser a atração genuína entre Firth e Ehle tanto na vida real quanto no set. Laurence Olivier, qualquer que seja sua história com Garson, estava desapontado que sua então amante, Vivien Leigh, foi preterida para o papel. O estúdio estava, aparentemente, preocupado que o público que fosse ao cinema poderia rejeitar seu romance na tela se descobrissem o adultério fora dela

São 55 anos sem intercorrências entre as interpretações de Firth e de Olivier. Mas há, ou quase, outro concorrente. Em 1974, Hollywood brincou em fazer outro Orgulho e Preconceito. Um script não realizado, co-escrito por Jerome Lawrence e Robert E Lee, sobrevive na Universal Studios. Escondido em arquivos mortos há cartas que identificam o produtor do projeto como Hunt Stromberg Jr, basicamente um homem de TV que trabalhou no The Beverly Hillbillies e Gilligan’s Island. Este filme teria sido uma nostálgica viagem de um filho: Stromberg Sr produziu o filme de Olivier.

E teria sido uma brincadeira, ecoando aspectos da versão 1940, mas atualizada para o feminista e volúvel ano 1970. O script mantém a corrida de carruagem entre as mulheres Lucas e Bennet, mas colocam as mulheres no banco dos motoristas. Elizabeth, chamada “Liz” por toda parte, mantém as rédeas, com sua mãe incitando. Liz corre contra sua amiga Charlotte para ver quem consegue chegar em casa primeiro e conseguir ser apresentada ao Mr Bingley por seus pais. Na verdadeira forma dos quadrinhos do século 18, as carruagens falham, mas como ninguém está ferido, a farsa continua. As duas mães sacodem a poeira, correm através dos campos e saltam com estilo para seus maridos.

O script de 1974 dispõe de um vermelho-quente e de um amor e ódio entre Elizabeth e Darcy. Quando Darcy força seu caminho em sua carruagem para uma conversa privada, Elizabeth permite que ele fique. Ele de mau humor desliza sobre pedras em um córrego com ela, desconfortavelmente, ao seu lado. Lady Catherine, que viaja por toda parte em uma liteira, dança algo descrito como o percursor do Twist com William Lucas. O filme acabaria com o Mr e a Mrs Bennet dançando, muito apaixonados, e ele declarando a ela estar no “céu” pelo seu atípico silencio.

Quão diferente a história do Orgulho e Preconceito seria se esta versão tivesse ido adiante. Um memorando de elenco deixa a visão dos roteiristas mais clara. Eles queriam Peter Sellers como Mr Collins, John Gielgud como Sir William Lucas e Margaret Leighton como Lady Catherine. Para Elizabeth, eles não tinham ninguém em mente – um detalhe revelador. Seu Darcy ideal? Peter O’Toole. Ele certamente teria sido inesquecível. O que é mais notável, porém, é quem eles tinham em mente para Mr e Mrs Bennet: ninguém menos que Laurence Olivier e Greer Garson.

Infelizmente, não era para ser – e isso soaria uma ruidosa lisonja. O que significaria para um ator mudar de um Darcy sexy para um antiquado Mr. Bennet? Poderia haver um Mr. Bennet sexy?

Benjamin Whitrow, o ator que interpretou o Mr. Bennet na série da BBC 1995, recusa-se a dar uma opinião quanto ao fato de seu próprio retrato ter toda sorte de rascunho. “Você terá que fazer uma consulta para saber se meu Mr. B era sexy”, diz ele. (O Mr Bennet de Joe Wright, Donald Sutherland, pode oferecer mais lenha para fogueira). Mas o potencial para o próprio personagem, Whitrow sugere, está lá. “Isso não suponhe que ele não tenha um sex appeal”, ele oferece: “Ele, com toda a clareza, ainda adora Mrs B”.

Talvez, em vez de buscar cada vez mais reviravoltas inovadoras sobre o tema Orgulho e Preconceito – e desculpando os envolvidos, na adaptação para o cinema de Orgulho e Preconceito e Zombies no próximo ano, que vai ter Sam Riley desempenhando um Darcy empunhando uma espada de samurai – a  maneira mais adequada de marcar os 20 anos da série da BBC é ver menos os mortos-vivos e mais os negócios inacabados. O que realmente precisamos é ter Firth e Ehle como Mr. e Mrs Bennet. Isso poderia mudar tudo.

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Por Devoney Looser
Independent.com.uk

 

Marcia Bock Belloube

Tradutora e revisora, apaixonada por livros, filmes e cultura britânica. Fã e leitora incondicional de Jane Austen e Chalortte Bronte, mas não recuso um bom livro de escritores contemporâneos.

  • Késia de Almeida

    Amei!! <3

  • Enza

    Ótimo texto!

  • Stephanie Antunes

    adorei o texto… 🙂 agora quanto a ver Jennifer Ehle e Colin Firth sendo Mr e Mrs. Bennet… não sei se daria certo…, pode até ser um pouco de preconceito, mas não consigo ver. Eles dois serão sempre Mr. Darcy e Elizabeth.