Middlemarch (George Eliot)

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Escrito entre 1869 e 1871 “Middlemarch”, de George Eliot, descreve e analisa o império inglês nos anos conturbados que antecedem a ascensão da rainha Vitória. Apesar do nome masculino com o qual assinava suas obras, George Eliot (cujo nome verdadeiro era Mary Ann Evans), traz em sua literatura uma defesa profunda e analítica do comportamento feminino

A literatura feita por mulheres sempre foi um terreno delicado de ser abordado, estudado e discutido, mesmo tendo nomes de peso que povoem essa constelação, como Virgínia Woolf, George Sand, Cecília Meireles, Katherine Mansfield, Marguerite Duras, Lygia Fagundes Teles, Gertrude Stein, Clarice Lispector e muitas outras. Mas talvez a verdade seja que, quando uma escritora escreve de modo objetivo, sem sentimentalismos pertinentes aos autores românticos, quando é capaz de criar tipos e personagens fortes, contundentes, profundos e ricos psicologicamente, alguns ainda dizem: “ela escreve como um homem”. Não entrarei nesse mérito espinhoso e perigoso, mas posso afirmar que, esses que dizem isso (não é o meu caso) com certeza o diriam de George Eliot depois de lerem seu absoluto e capital romance “Middlemarch”.

Apesar do nome masculino com o qual assinava suas obras, a importante escritora inglesa (cujo nome verdadeiro era Mary Ann Evans, que tem em sua biografia uma fuga com um homem casado, o igualmente escritor George Henry Lewes), uma das maiores de todos os tempos, trás em sua literatura uma obra na qual podemos ver diversas marcas de defesa e de compreensão profunda e analítica do comportamento feminino, sempre colocando as personagens mulheres em posição de destaque, não somente isso, colocando-as como as figuras a partir das quais os destinos se fundam e estabelecem-se dentro da narrativa, povoada de homens torpes, fracos, exageradamente moralistas, derrotados pelos casamentos, apegados a conceitos de uma vida monótona, conservadora, como apregoa o subtítulo de seu romance: “Middlemarch: Um Estudo Da Vida Provinciana”. As personagens masculinas de “Middlemarch” são sempre vítimas de seus destinos, exceto Fred Vincy, que se deixa conduzir pela sublime e consciente Mary Garth, e ter sua vida desenhada pelos rumos que ela e seu pai resolvem dar a ela. Isso fica muito evidente nas quase mil páginas que constituem este livro, e mesmo sendo um romance do século XIX, rompe as barreiras de sua época, chega até nós, inteiro, universal, sólido, arrebatadoramente humano. Explico por quê.

Dorothea e Causaubon

Dorothea e Causaubon

“Middlemarch” é composto de muitas tramas que se entrelaçam: temos a dificuldade de um jovem médico conquistar clientela em uma cidade em que a vida provinciana cria laços mais que profissionais, mas familiares; um moço vazio que faz da sua vida a espera por uma herança que lhe foi prometida e se perde em dívidas sem poder quitá-las já que, para sua decepção, ele não é o beneficiário do testamento, um pastor religioso viciado em jogo, o casamento falido e decepcionante de Dorothea e sua viuvez marcada por um testamento que lhe tiraria a fortuna do marido caso ela se casasse com o homem que ama verdadeiramente, sendo este parente do falecido cônjuge e aquele que descobre ser uma farsa intelectual o marido de Dorothea, com o qual ela se casara movida justamente pela vaidade intelectual de ter um homem culto ao seu lado; o casamento de Rosamond e o consequente endividamento de Lydgate devido a despesas da união matrimonial que lhe exigiu a manutenção de um nível de vida que sua renda não conseguia suportar, enfim, as tramas são diversas, e essas são apenas as que ocupam a maior parte das páginas do romance, resta dizer que o painel de personagens que monta este imenso afresco também é monumental.

Dorothea e Causaubon

Dorothea e Causaubon

A autora escrevia dois romances no início da concepção da obra, depois resolveu juntá-los em um só. A junção é nítida quando o personagem Lydgate, jovem e promissor médico, aparece no nono capítulo, sendo salvaguardado por Bulstrode, banqueiro e homem mais rico da cidade, cuja fortuna tem origem, como se vê na parte final do romance, escusa. A trama se fixa principalmente na personagem Dorothea, uma jovem de beleza singular que tem como plano ideal para a sua vida a aquisição de uma erudição que a remova do mais do mesmo da existência sem relevo das outras mulheres de seu povoado, cujos planos sempre terminavam no quimérico de um casamento sólido e feliz que lhes proporcionasse fartura e prosperidade junto a um homem jovem, belo e promissor, com raízes nobres e sobrenome sem manchas. Em contraponto, temos a também soberba Rosamond. Esta almeja o que qualquer moça de sua idade na Inglaterra da primeira metade do século XIX podia querer.

Dorothea casa-se com Mr. Casaubon, um homem com idade para ser seu pai. O seu interesse por ele se dá pela erudição e espírito que este demonstra diante dela. Ele representa-lhe a salvação de uma vida medíocre. Diz-nos a voz narrativa:

“Agora ela seria capaz de devotar-se às obrigações de vulto (…), ser-lhe-ia permitido agora viver continuamente à luz de uma inteligência que ela podia reverenciar. (…) Toda a paixão de Dorothea transfundia-se através de um espírito que lutava por uma vida ideal…”

Lydgate e Rosamond

Lydgate e Rosamond

Na outra ponta da teia do romance, Rosamond, bela, porém vazia, casa-se com o digno, honesto e idealista médico Lydgate, na esperança de viver um conto de fadas que é destituído lentamente na rotina de dificuldades de um casamento sem glamour. Mergulhado em dívidas e em situações ambíguas perante a sociedade, Lydgate vê seu casamento afundar e sua reputação perder-se na calúnia lentamente, até ser salvo por Dorothea que, depois de passar novecentas páginas sem encontrar-se com Rosamond, tendo cada figura sua existência independente dentro da trama, procura-a para falar das injustiças pelas quais está fazendo seu marido passar. O diálogo dessas duas mulheres tão distintas é um ponto em que a perícia genial da escritora George Eliot afigura-nos como uma aula da narrativa perfeita, sem furos, arquitetada de modo impecável, e se o moralismo grita dentro desta parte do texto, ele não é forte o suficiente para enfraquecê-lo, como disse Henry James, Eliot trabalha em “um certo terreno médio onde a moral e a estética se movem em harmonia”.

O encontro das duas personagens é na verdade quando todo o projeto de seu romance — falar da diferença entre o novo e o velho, o superficial e o profundo, a solidariedade e o egoísmo que costuram a teia de relações humanas na vida provinciana da cidade de Middlemarch e a posição das mulheres dotadas de certa autonomia, representada por Dorothea, para alguns seu equivalente Stephen Dedalus — fecha-se e nos leva às últimas páginas concluintes, quando o futuro das figuras que povoam o livro é apresentado mostrando a fatalidade da vida sempre guiando à passagem dos dias, dos anos, dos sentimentos e, mais que tudo, das pessoas que infalivelmente morrem: algumas felizes, outras infelizes, mas sempre finitas.

O diálogo dessas duas mulheres contrastantes dá-se em momentos definitivos de suas vidas, nas quais grandes escolhas estão por serem feitas. A emoção do diálogo, as falas pungentes, os — como mais uma vez disse Henry James a respeito deste livro — “duelos verbais” entre elas é fascinante, e são assim pela humanidade, pela verdade, pelo despir de qualquer vaidade num momento em que a única coisa que as une é o fato de serem mulheres, incompreendidas e ali, solitárias apesar de significarem lucidez (Dorothea) ou ruína (Rosamond) em um mundo que as vê como meros enfeites sem ideias e pensamentos. Cabe a elas nada mais do que serem solidárias uma com a outra.

O drama maior é a revelação a Rosamond, vendo a grandeza que exala de Dorothea, a respeito da pequenez de sua vida, de seus gostos e ambições. A generosidade que repousava em Dorothea não serve somente para fazê-la perceber o mundo de equívocos no qual vivia com seu marido ante o qual era egoísta e perversa, mas também para mostrar o largo caminho que ela poderia percorrer na direção de tentar ser, porque não, mais parecida com Dorothea, que sabia contemplar o mundo e a vida em sua esfera de dor e em seus contornos de felicidade, reerguendo-se de um casamento angustiante, claustrofóbico com o pseudo-intelectual Mr. Casaubon.

Depois de uma cena de imenso despojamento sentimental das duas, na qual tudo é falado, seria comum esperarmos na despedida um derramamento emocional em forma de gratidão: o abraço cúmplice ou a saudação lisonjeira entre um exemplo a ser seguido e uma grata discípula. Mas George Eliot, que, repito — para muitos talvez escreva como um homem —, frustra ao leitor romântico do século XIX. Vejamos a objetividade, a falta de misericórdia e economia de George Eliot:

“Estendeu a mão a Rosamond, e as duas trocaram um adeus tranquilo e grave, sem beijos ou quaisquer demonstrações efusivas: a emoção por elas partilhada fora séria demais para permitir agora um uso superficial de seus sinais”.

Paulo Francis afirmou, em março de 1994, que “Middlemarch, de George Eliot, é a mais sutil e completa análise social da Inglaterra no século XIX”, mas para além de ser uma análise social perspicaz, é, também e igualmente, um espelho de Stendhal, no qual vemos os dissabores e fraquezas da alma e do comportamento humanos, feito que certamente coloca George Eliot no mesmo patamar dos grandes romancistas ingleses do século XIX, sendo talvez ela a melhor deles.

Virginia Woolf dizia que “Middlemarch” fazia com que a maior parte dos outros romances ingleses de seu tempo parecesse destinar-se a um público juvenil. E assim o é porque esse livro da era vitoriana tem o poder de nos fazer envelhecer. Sua linguagem precisa e correta aliada a tipos inesquecíveis, tão dotados de vida e de psicologia como se vê em poucos romances, leva-nos às vezes à lembrança das páginas de “Guerra e Paz”, nas quais chegamos a sentir o cheiro da época a que Tolstoi nos leva. E se esse russo tão bem nos deu sua Natasha infindável na mente de seus leitores, carreguemos, com George Eliot, Dorothea em nossa reflexão, perpetuamente.

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POR EM 06/11/2009
REVISTA BULA

Ilustrações dos livros de George Eliot em Domínio Público

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Gosto de tudo da Inglaterra: literatura, filmes, séries, sitcons, sotaque, educação, polidez, costumes, parques, praças, arquitetura… Tudo! Fui Influenciada pela literatura inglesa que eu li avidamente. Morar lá é o meu objetivo de vida.