MARY CRAWFORD EM MANSFIELD PARK, TIREMOS O CHAPÉU PARA AS VILÃS DE AUSTEN

Por Mary Rizza

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Mary Crawford vai à Mansfield Park, casa de Sir Thomas Bertram e família, e começa a se divertir. Ela é a nova garota, não na cidade, mas da cidade, que traz ao condado de Northampton mais que um pouco de sofisticação e atitudes mundanas da metrópole de Londres.

Nós a amamos – o que há para não amar? Mary possui qualidades que estão em alta nas preferências contemporâneas. Ela é atraente, divertida, espirituosa, experiente, inteligente e paqueradora.

Ela seria ótima em uma noitada e certamente boa diversão e divertida companhia em muitas, muitas noites em Mansfield Park. Mary Crawford se destaca nessas ocasiões.

Mas, nós não devíamos pensar assim. A heroína do romance é a tímida Fanny Price (tão modesta que você tem que perguntar Fanny quem?), a pobre parente que é tolerada, mas geralmente não é admirada.

O Enredo

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Fanny nutre um amor secreto por seu primo Edmund. Nós não vemos isso acontecendo. Não à princípio, quer dizer. A primeira escolha de Mary é o irmão mais velho Tom, herdeiro da propriedade.

Nada errado com isso. A importância da renda e da herança nos romances de Austen não pode ser subestimada. E Mary é encantadoramente zombeteira sobre seus sentimentos de que gostaria mais do irmão mais velho. Ela sabia que era o seu costume.

Mas, ela volta sua atenção para o filho mais jovem, Edmund, e o conquista, enquanto Fanny parece impotente. Tal é o poder de Mary que ela quase faz com que as diferenças de ideias fundamentais entre eles passe despercebida- quase.

Garota Ousada

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A vivacidade de Mary ilumina o romance e nos encoraja a esquecer seus defeitos. Quando ela ordena que sua harpa seja enviada de Londres, trata as dificuldades envolvidas como uma brincadeira. Ela fora boba, deveria saber que as mensagens eram passadas de boca em boca no campo. Quanto a um cavalo e a uma carroça para transportar o instrumento, quem teria pensado que todos os meios de transporte estariam sendo usados na colheita do feno! Tão diferente de Londres, onde o dinheiro podia comprar tudo. 

A maneira como Mary ri de si mesma, com desprezo ou no mínimo impaciência com o que ela entende como costumes antiquados do campo, nos alerta para a mistura de sensibilidade e egoísmo de seu caráter, que confunde Edmund e o leitor. Quando finalmente está de posse da harpa, ela usa da grande vantagem do aumento de sua aura de charme e sofisticação enquanto toca suas cordas e toca o coração de Edmund, posicionada junto à abertura de uma janela que dá para o jardim e o gramado, cheios do encanto do verão.

Autodeterminação

Mary é boa com as palavras e surge com essa paródia improvisada sobre Sir Thomas: ela fala de um pobre ator (em ambos os sentidos) cujos rendimentos fossem proporcionais às suas falas. Ela sai com algumas grandes tiradas: “Eu devo me movimentar; descansar me fatiga”. E ao escutar que não há mais um capelão na casa (do Sr. Rushworth, então noivo de Maria Bertram): “Toda geração tem as suas melhorias”.

Sua aura é brilhante e dinâmica: “Eu não nasci para ficar sentada e não fazer nada. Se eu perder o jogo, não será por não ter lutado”. Esta determinação estabelece seu próprio destino muito ao estilo contemporâneo. Ela diz sobre o casamento: “Uma grande renda é a melhor receita para a felicidade que eu já ouvi”.

“Ah, existe a chave!” Esta observação irônica poderia ter sido feita por Elizabeth Bennet, que não demorou a reconhecer o poder de Pemberly. Mas vindo de Mary demonstrou o seu pragmatismo cínico o qual marca a sua personagem, no final, como egoísta e amoral.

Garota Ética

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Mary diverte-se em exibir uma atividade flexível em questões éticas. Ela usa de malícia e manipulação para promover seus próprios interesses. Sua visão do casamento faz a visão De Charlotte Lucas em Orgulho e Preconceito parecer romântica.

Quando Mary ouve que seu irmão Henry quer casar com Fanny, ela diz que ele seria um bom marido, mesmo quando parasse de amar Fanny. Você poderia dizer que isso é maduro, realista ou você pode achar que é um reflexo sombrio de um coração que é essencialmente duro.

A visão de Mary do caso de Henry com Maria Bertram, que é casada, é que eles não deveriam ter sido descobertos. E se Henry tivesse casado com sua primeira escolha, Fanny, ele e Maria teriam ficado satisfeitos com um flerte conduzido durante as visitas familiares.

Então nos mantemos em alerta quando testemunhamos exemplos da gentileza de Mary, a sua percepção dos sentimentos de Fanny, a sua genuína apreciação das boas qualidades de Edmund. Alguns leitores pensam – e você pode ser um deles-que Austen perdeu um pouco do controle nesse romance.

Contraste Essencial 

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O contraste entre duas jovens mulheres é marcante e a principal tensão da narrativa é como somos irresistivelmente atraídos para a atraente Mary, sabendo que devemos reprová-la.

Austen constantemente precisa nos lembrar, ao longo da narrativa, que Mary não é uma personagem admirável e ela tem de lutar contra o instinto de deixar Mary ser a heroína.

Por outro lado, podemos dizer que Austen está no controle completo. Ela criou uma vilã complexa e se divertiu levando-se por esse caminho enquanto brinca com nossas reações.

Ela nos leva a sermos ingênuos, quase como Edmund foi, por causa de uma pessoa cativante.

Nós sabemos reconhecer uma Mary. Ela é aquela que vai ser sua amiga, emprestar a você seu batom de uma loja exclusiva, então vai tentar roubar seu namorado.

Ela vai mentir para você, ela afirma que às vezes é para seu próprio bem. Sua principal motivação é a sobrevivência e ela fará o que for preciso para trilhar o seu caminho no mundo. Ela é uma amizade ruim para você. Seus pais e amigos vão alertá-la sobre ela. Vocês acabarão deixando de ser amigas.

Mas, de vez em quando, o som de sua risada ou o rastro de seu perfume vão fazer você pensar nela e querer saber onde está agora e o que está fazendo.

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Mary Rizza, escritora e romancista
http://maryrizza.com/

Dandara Machado

Sou de Santa Maria-RS. Amo literatura inglesa e pretendo cursar Letras Bacharelado e tradução inglês-português; mas estou fazendo ciências sociais. Minhas escritoras preferidas são Jane Austen, Anne Brontë, Charlotte Brontë, Georgette Heyer, Elizabeth Gaskell, Frances Burney, Virginia woolf e Katherine Mansfield (KM é a melhor de todas, na minha opinião, e meu conto preferido é "A casa de Bonecas”). Meus livros amados são Jane Eyre e Razão e Sentimento. Contato: dandaramachado210@gmail.com

  • Tamires

    Das personagens mais charmosas desse romance, se não A mais charmosa. Mansfield Park não seria a mesma coisa sem Mary!

  • Já eu discordo do ponto de vista da autora. Eu tive uma antipatia imediata e irremediável em relação a Miss Crawford. Talvez por ter gostado tanto de Fanny (fruto de um auto-reconhecimento, mas também de uma admiração pelas qualidades da personagem) ou talvez pela percepção da maldade de Mary (muito visível nos comentários desrespeitosos e ignorantes quanto à religião e na sua visão mercenária e gelada sobre o casamento), eu senti desde o começo o “jogo” de Jane Austen – não me pareceu, em momento algum, que ela teria perdido um pouco o controle no romance ou mesmo que tenha lutado contra o instinto de tornar Mary a heroína ou tenha tido que relembrar constantemente ao leitor quem era a vilã. Não. Pra mim, desde o começo, ela brinca com o contraste entre o caráter terrível de Miss Crawford (o interior) e sua beleza e charme (o exterior). E isso é recorrente nas obras de Austen: ela faz isso claramente com Wickham e com Willoughby. Se formos comparar eles com Darcy e Brandon, no começo dos livros, quem são os mais atraentes? Seria Darcy dizendo que Elizabeth é tolerável ou Wickham sorrindo e guardando um lugar perto dele? Seria Willoughby carregando Marianne no meio da chuva ou Brandon, todo sério, acabando com o passeio e a diversão de todos? Jane Austen é mestre nisso. Em “Mansfield Park” ela inova de novo fazendo isso com mulheres e colocando as duas na “mesma” posição – a de possíveis heroínas. Edmund passa o livro falando que ambas ocupam o primeiro lugar em seu coração. Mas isso é Edmund. O leitor tem pistas o tempo todo.

    Pessoalmente, eu tive quase prazer em detestar Mary Crawford. Adorava quando ela ficava com cara de tacho, surpresa porque havia gente que não era igual a ela.

    Beijos!

    P.S: Foi mal pelo comentário gigante. É que eu amo “Mansfield Park”!

    • Maria Sônia Oliveira

      Nossa! Você é muito boa em fazer análises! Precisamos desse dom analisando mais a obra de Jane Auste!

      • Ah, que é isso! hehehe Obrigada. Mas pra não dizer que a ideia é originalmente minha, deixo aqui um trecho que eu usei na minha monografia (que falava do Darcy), mas que encaixava com a Fanny também. O texto dizia que Jane Austen não demonstrava na sua obra que a virtude tem um aspecto agradável:

        “Austen, como sempre – e ao contrário da opinião comum sobre ela – sugere que boas maneiras não são sempre um sinal de virtude. […] Austen é sempre um pouco desconfiada das maneiras sedutoras, pois ela reconhece que a virtude tem um lado duro e até mesmo desagradável. […] Austen não sugere que todas as coisas boas andem juntas. Ela não defende o Sr. Darcy […] em sua falta de amabilidade, mas ela defende a virtude. E até certo ponto ela desconsidera a importância das maneiras atraentes. Há uma linha tênue entre usar a conversa para fazer os outros se sentirem mais confortáveis e usá-la para chamar a atenção para a seu próprio bem-estar.”
        [“Mr. Darcy’s virtues”, de Anne Crippen Ruderman (em “Jane Austen’s Pride and Prejudice”, de Harold Bloom)]

        Esse parágrafo é tão esclarecedor que eu já usei em outro comentário em outro blog, acredita?

        Mas eu adoraria fazer um texto sobre esse aspecto da construção das personagens na obra da Jane. Vou pôr na lista!

        Beijos!

  • Raquel

    Quando eu vi o filme fiquei com a mesma impressão: ” Nós sabemos reconhecer uma Mary…”, ela é uma personagem que de fato continua muito parecida com algumas mulheres na vida real.

  • Jeanne Cardoso

    Sempre Mary como uma personagem complexa, mais amoral do que maldosa. Ela se adaptou a sociedade em que vivia, mas não lembro de em algum momento ter pego uma mentira dela. Ela é a personificação do cinismo, mais perigosa por ser bonita e agradável. Por exemplo, quando o irmão quer casar com a pobre e desconhecida Fanny Price, Mary não o condena por não procurar uma noiva mais vantajosa em sentido material. E, apesar de saber que seria mais interessante para ela um casamento com Tom Bertram, Mary é de fato atraída pela personalidade de Edmund. Acho que Austem queria criar uma personagem que foi danificada pela hipocrisia da sociedade tão profundamente que talvez esteja além de reparos.