Lady Susan (Jane Austen)

3922

 

Não consigo me decidir em relação a nada tão sério quanto um matrimônio, sobretudo porque no presente momento não estou precisando de dinheiro, e talvez, antes da morte do velho cavalheiro, o enlace me trouxesse muito poucas vantagens.

A primeira vez que li Lady Susan foi em francês, num pocket que me foi presenteado pela Claire, do Jane Austen Lost in France. Algum tempo depois, quando comprei a edição comentada de Persuasão da Zahar, encontrei uma tradução aparentemente inédita desse romance epistolar muitas vezes esquecido da Austen.

É interessante que quando se falam nos romances da autora inglesa, Lady Susan é muitas vezes esquecido. Isso ocorre talvez porque a um só tempo, esse romance epistolar não se encaixa na chamada Juvenilia, embora tenha sido escrito quando Austen ainda era uma adolescente, tampouco está par a par com os livros mais conhecidos.

Se fosse para resumir Lady Susan em uma palavra eu diria ‘cínico’. Em certa medida, ela me faz pensar no famoso As Ligações Perigosas, de Choderlos de Laclos – até mesmo pelo formato de ambos, onde a história é contada através de cartas.

Como já disse antes, Lady Susan é muito diferente das outras obras da autora. Não é uma comédia de maneiras, ou um romance edificante e inspirador. Do meu ponto de vista, me parece um estudo de personagem – uma personagem maquiavelicamente inteligente, manipuladora, sem qualquer tipo de compaixão ou empatia, nem mesmo para com a própria filha.

Onde quer que vá, Lady Susan convida escândalo. Sua beleza e inteligência a tornam irresistível para os homens. Sendo uma viúva, ela não precisa parar no flerte ou nas promessas de casamento como uma donzela – fica implícito quando conta de suas aventuras com um cavalheiro casado que ela fez mais que seduzi-lo com palavras.

O grande problema de Lady Susan, o que a torna uma vilã execrável, não é que ela tenha uma vida sexual ativa – ele foi publicado quase meio século após a morte da autora, talvez porque se tivesse saído ainda à época de Austen, teria ele mesmo provocado um escândalo. Não, não é um problema que se desvincule do estereótipo de protagonista romântica querendo casar por amor. A questão é sua relação com a filha, Frederica.

O abuso emocional que Frederica sofre nas mãos da mãe é para revirar o estômago. Lady Susan diz com todas as letras que é completamente indiferente à filha, exceto, talvez, para encontrar defeitos. Pela descrição que a mãe faz dela, temos a impressão de que Frederica é uma ratinha, absolutamente sem graça, sem vontade ou brilho. É uma impressão diferente das cartas de Mrs. Vernon, a tia, que a enxerga como uma menina doce, mas extremamente tímida, subjugada pelo bullying da própria mãe.

Lady Susan tem dois objetivos de vida: casar a filha com qualquer idiota que tenha dinheiro e casar-se ela própria com um marido rico. Para Frederica ela quer um idiota porque assim será mais fácil de controlar a filha, o genro (e não há muitos escrúpulos ou preocupações em seduzir esse aqui também…) e a bolsa. Para si, ela talvez prefira alguém mais jovem e vigoroso, contanto que seja manipulável.

Austen constrói todo esse drama de forma quase leve, predominantemente no tom irresponsável e arrogante de Lady Susan. A hipocrisia social e das relações familiares é o tema predominante, mas tudo parece estranhamente ausente de julgamentos – a despeito das missivas de Mrs. Vernon, a venenosa Lady Susan parece sempre conseguir se safar com graça e ainda por cima.

Os leitores habituais de Austen provavelmente estranharão a forma como as coisas acontecem aqui, mas Lady Susan é mais que uma simples curiosidade no currículo da autora. Não é a história em si que importa, mas sim os personagens (por isso que chamei de estudo de caráter), brilhantemente elaborados, e as questões morais trazidas por eles.

vector_blue

Resenha do blog:
Coruja em Teto de Zinco Quente

Luciana Darce

Sou uma bibliófila desde que me entendo por gente e leio praticamente de tudo um pouco. Administro o Coruja em Teto de Zinco Quente e sou mediadora de um clube do livro voltado ao debate de clássicos. E nas horas vagas, sou advogada. Você pode me encontrar escrevendo para luciana.darce@gmail.com