Jane Eyre | Semana Charlotte Brontë

Randon House, 1943

Randon House, 1943

O coração humano tem tesouros ocultos. No segredo mantido, no silêncio selado… Os pensamentos, as esperanças, os sonhos, os prazeres… Cujo charme se romperia se revelado.

Eichenberg-JE-3É um tanto surpreendente, considerando meus gostos literários, que eu nunca tenha lido Jane Eyre até esse ano. Eu tinha meus motivos para tanto: em parte certo despeito pelo desprezo por Jane Austen que ela demonstrou em algumas cartas e de outra parte, o temor de me ver às voltas com um novo O Morro dos Ventos Uivantes. A intensidade egoísta e irracional de Heathcliff e Catherine é algo que me deu arrepios e uma inteira bagagem de angústia e eu não ando num bom humor para protagonistas tão mesquinhos quanto os dois.

O curioso é que terminei me decidindo por desbravar os campos de Thornfield Hall por querer ler outro livro… Eu estava ansiosa para tirar da estante The Eyre Affair de Jasper Fford e acreditava com meus botões que para entender o Fford, eu precisaria primeiro ler a Brönte.Eichenberg-JE-2 A história em si é bem simples – e a leitura não é difícil, sendo pontuada por muitos momentos de bom humor (a cena da cigana é provavelmente uma das minhas favoritas…).

Jane é uma menina pobre, sem grandes atrativos, que começa a história sendo destratada pela tia e pelos primos – família que a acolheu após a morte de seus pais. Ela acaba por ser enviada a uma escola de caridade para aprender humildade e um ofício.

A despeito de ser uma criatura bastante sem graça – e essa é uma característica reforçada por ela e outros personagens ao longo de todo o livro – Jane tem um código moral muito forte, princípios e fé inabaláveis. Aliás, é interessante a forma como a moral cristã protestante permeia a obra. Normalmente eu me irrito um pouco com livros que tentem me ‘doutrinar’, mas existe algo bastante natural, autêntico e até mesmo prático na maneira que Jane tem de encarar questões religiosas.

É fácil de compreender essa característica quando lembramos que o pai de Charlotte era pároco, assim como seu marido. A vida inteira ela viveu num ambiente em que a religião era um paradigma inescapável.

Eichenberg-JE-16Enfim… Jane cresce e decide deixar a escola, onde então já estava trabalhando como professora, para se tornar governanta na mansão Thornfield. Sua tarefa é cuidar da protegida de Mr. Rochester, o senhor da casa.

Rochester também não é um homem bonito (o que torna absolutamente hilariante as escolhas dos atores para interpretar seu papel. As duas versões que assisti tinham um Rochester de encher a tela…). Ele é charmoso quando quer, e tem uma grande presença sempre que aparece em cena.

Existe uma ambiguidade em suas atitudes que é muito interessante – por um lado, ele tem consciência dos mesmos tipos de princípios que orientam a vida de Jane… por outro, há uma mágoa que o leva aos caminhos da perdição.

Tanto Jane quanto Rochester são intensos em seus sentimentos. Eles são passionais de uma forma que nos faz segurar o fôlego quando estão juntos. Diante disso, o fato de Jane ser capaz de virar as costas para esse amor quando as circunstâncias o tornam necessário é um dos muitos motivos pelos quais Jane Eyre destoa dos romances comuns que pululam nas estantes das livrarias.

Eichenberg-JE-5A força do caráter de Jane é algo impressionante, assim como sua independência. Mais, talvez, que o romance com Rochester, a capacidade que Jane demonstra de se manter após deixar Thornfield – numa época em que a verdadeira ‘profissão’ da mulher era simplesmente ser esposa e depois, mãe – é o que chama a atenção no livro.

Jane é uma heroína muito moderna ao demonstrar essa independência, ao se recusar a abrir mão da própria dignidade para ficar ao lado do homem que ama – Jane sabe quem é, sabe que trair a si mesma por um amor (mesmo que seja por um amor tão intenso quanto o de Rochester) acabará com seu próprio senso de ‘eu’ e prefere manter-se nesses princípios não porque é simplesmente uma puritana, mas porque agindo de outra forma ela perde o respeito por si mesma.

Eu me importo comigo mesma. E quanto mais solitária, sem amigos e sem sustento, mais eu vou me respeitar.

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De certa forma, se ela tivesse agido de outra maneira, a história teria terminado com ela sendo abandonada por Rochester – da forma como eu interpreto as coisas, o que o leva a se apaixonar por Jane é exatamente essa força interior que ela tem, esse âmago inflexível que nunca a fez perder de vista quem ela é.

É uma história de amor, mas é também uma história de superação, sobre liberdade de escolhas, sobre ser fiel a si mesmo. Por todos esses motivos, é uma história que se mostra atual como nunca. Para ler e reler, definitivamente.

Eu não sou um pássaro; e nenhuma rede me prende; eu sou um ser humano livre com uma vontade independente.

 

 

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Ilustações: Fritz Eichenberg, para a edição da Randon House, 1943.

Luciana Darce

Sou uma bibliófila desde que me entendo por gente e leio praticamente de tudo um pouco. Administro o Coruja em Teto de Zinco Quente e sou mediadora de um clube do livro voltado ao debate de clássicos. E nas horas vagas, sou advogada. Você pode me encontrar escrevendo para luciana.darce@gmail.com

  • Magda Amaral

    Nossa! Amei tua crítica.
    Confesso que também tenho uma certa antipatia com a Charlotte por ter falado mal da Jane. Achei mesquinho da parte dela. Mas fora isso, ela também era uma excelente escritora. E Jane Eyre é inesquecível. Depois de lê-lo, nunca mais seremos os mesmos.

    • Luciana Darce

      Jane Eyre é a obra-prima dela… é tão verdadeiro, tão intenso… todo mundo para quem recomendei o livro disse que tendo começado, não conseguiu largá-lo (uma prima virou a noite e perdeu a hora do trabalho para ficar lendo…). Fico feliz que tenha gostado da resenha. Beijos!

  • Cinthia Barbosa

    Parabéns pela crítica! Assim como você e a Magda Amaral que comentou aqui, eu também tinha um pé atrás com Charlotte pelo que ela falava e achava da Jane, a nossa querida Jane, acho que foi um mecanismo de defesa, estávamos defendendo a nossa querida escritora!! Mas também amei a leitura de Jane Eyre, é um romance incrível, e como você falou, para ser lido várias e várias vezes! Eu concordo com você a respeito de Morro dos Ventos Uivantes. Sempre vejo as pessoas falando que o acham incrível, uma história de amor intensa etc….Mas para mim eles são extremamente egoístas e mesquinhos, finalmente achei alguém que tenha a mesma opinião!! Eu respeito quem gosta, ele tem seu crédito, mas eu não tenho nenhuma vontade de lê-lo novamente!! Eu amo esse blog! Parabéns!! Bjos

    • Luciana Darce

      Obrigada! Fico feliz que tenha gostado da resenha, é sempre bom encontrar mais gente que gosta das mesmas coisas que nós, não é mesmo? É uma das coisas que fico mais feliz desde que comecei a escrever sobre Austen, as Brontë e companhia – o senso de comunidade que vem de encontrar tanta gente com quem compartilhar esse amor.

      Morro dos Ventos Uivantes é um livro complicado. Ele é extremamente intenso, e soberbamente bem escrito, mas os relacionamentos dele são tão abusivos, que me dão calafrios… Mas creio que ainda hei de relê-lo para refletir melhor sobre algumas questões postas no livro – especialmente depois de conhecer um pouco mais da biografia da Emily… Enfim, até a próxima resenha!

    • Magda Amaral

      Também tenho as mesmas opiniões de vocês a respeito de O Morro dos Ventos Uivantes.
      Ele é um livro muito bem escrito e tals, além disso, inesquecível as sensações que senti quando estava o lendo, mas não sei se leria novamente. Simplesmente por não gostar dos personagens e de seus defeitos.
      Talvez tenha sido essa a intenção da escritora, nos enojar com a falta de caráter e de limites éticos que os personagens apresentam em quase toda história, mas não faz meu estilo rsrs enfim respeito a qualidade do livro, porém também não gostei.

  • Eu li “Jane Eyre” pela primeira vez aos quinze anos e é um livro pertencente àquele grupo seleto de leituras em que não se consegue desgrudar (eu lembro que deixei até de beber água e ir ao banheiro!) e que dá uma sensação gostosa, morna, de completude quando se termina. É um dos meus favoritos. Qualquer dia desses vou fazer um texto com minhas impressões pessoais (e até então íntimas) sobre ele…

    Só fui saber dos comentários dela sobre Jane Austen muito tempo depois, e acabei nem ligando. Acho que entendo o lado dela – ser comparada e colocada em um nível inferior deve ter ferido o ego dela (o que não tem lógica: as duas, Austen e Brontë, são incríveis, mas de maneiras diferentes).

    Sobre “O Morro dos Ventos Uiventes” eu também preciso escrever, pra exteriorizar meus sentimentos e pensamentos a respeito. Eu li no ano anterior à leitura de “Jane Eyre” e é um dos meus favoritos também. Acho magnífico, profundo, intenso e de uma técnica perfeita. Na verdade, das irmãs Brontë (apesar de amar Charlotte de paixão) sempre considerei Emily como a mais capacitada: ela tem um domínio sobre a narrativa e uma habilidade para a criação muito complexos.

    Beijos!

    • Maria Sônia Oliveira

      Fique livre para escrever ensaios, críticas, o que você quiser… Vá escrevendo, depois é só me enviar que eu publico.
      Beijos!