Jane by the Sea (Carolyn V. Murray)

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Jane by the sea é o primeiro romance de Carolyn V. Murray. A autora captura momentos da vida de Austen, descritos principalmente em cartas, e os preenche e conecta segundo a sua própria criatividade.

Embora sejam narrados momentos anteriores, o enredo é centrado principalmente na relação entre Jane Austen e o Tenente Frederick Barnes. A premissa do livro, então, é relatar com mais profundidade – segundo a imaginação da Carolyn – o que poderia ter sido um dos amores de Jane Austen e a autora faz um excelente trabalho.

Na introdução, temos um vislumbre de uma Jane Austen criança, entrando na adolescência. A autora destaca o talento precoce e a criatividade de Jane como contadora de histórias para os pequenos alunos de seu pai da vizinhança, que a adoravam.

Após isso, a história dá um salto no tempo de quase 10 anos e tem início um pouco antes do romance de Jane com Tom Lefroy, apresentado a ela por sua grande amiga Madame Lefroy. Na história de Carolyn V. Murray, Lefroy desempenha um papel importante embora breve e extremamente romantizado. A autora retrata o irlandês como o primeiro amor de uma jovem romântica e esperançosa, mas sempre espirituosa, Jane. Quando as ambições e reservas de Tom o impediram de estabelecer um compromisso mais sólido e promissor com nossa querida escritora, ela sofreu imensamente e se desiludiu por completo a respeito do amor.

Só então a o livro começa, por assim dizer. Um bom tempo se passou desde a decepção amorosa de Jane, mas ela parecia ser incapaz de esquecer, senão Lefroy, pelo menos a dor que ele lhe causou e a felicidade da qual lhe privou. Nesse contexto, antes de se mudarem para Bath, Jane e sua família decidiram visitar seu irmão Edward Knight na propriedade que herdara da família rica de quem adotara o sobrenome e foi ao torcer o tornozelo em uma escapada da majestosa da casa do irmão, que ela acabou por conhecer o solícito – porém um tanto insuportável para Jane – Tenente Frederick Barnes, que a ajudou a retornar para casa em segurança.

Desse encontro, muitos outros viriam e a grande maioria no litoral de Sidmouth, a passeio, antes da jovem escritora se mudar para Bath. Os primeiros encontros não agradariam tanto Jane, já que ela cultivara os piores sentimentos pelo tenente e o desprezava profundamente; com um pouco mais de tempo em sua presença, porém, ela viria a reconhecer que o jovem tenente da marinha era muito mais inteligente e espirituoso do que ela lhe dera crédito. Ele era belo, esperto, humilde e bem-humorado e Jane se viu caindo novamente onde jamais pensou retornar após o episódio com Lefroy: nas redes do amor, das quais, como ela própria sabia, dificilmente poderia se desvencilhar.

O romance é muito bem-humorado, muito espirituoso. Carolyn soube incorporar bem a voz de Austen na narrativa em 1a. pessoa junto com todo o seu engenho e insolência. Os comentários insolentes de Jane Austen não pouparam quase ninguém no livro inteiro e vale ressaltar mais uma vez o trabalho da autora nesse ponto. Todas as observações ácidas da Jane do livro certamente poderiam ter sido feitas pela Jane real – muito embora em alguns momentos talvez a Jane do livro fosse longe demais com sua língua afiada -, o que proporcionou muitas gargalhadas e tornou a leitura bastante prazerosa. Isto foi um ponto alto da história: uma Jane crível por quem sentíssemos enorme simpatia, além de uma série de diálogos embebidos com ironia e com forte apelo cômico, um estímulo para seguir a leitura no início, um pouco lento, do livro.

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Outro ponto alto foi o fato que vários personagens da vida de Austen, no livro, lembrarem tanto personagens seus. Foi o caso do Reverendo Blackall, apresentado à família Austen por Madame Lefroy como um pedido de desculpas – nada efetivo – à Jane pelo episódio com Tom,  e sua inconfundível semelhança com o enfadonho Sr. Collins, além da Sra. Doherty, tia rica de Frederick, com Catherine de Bourgh de Orgulho e Preconceito.

Mas o melhor “paralelo”, sem dúvidas, foi o de Frederick Barnes com todos nossos amados heróis da Jane. Desde os primeiros encontros, foi possível captar uma pequena semelhança com um comportamento que poderia ter inspirado o título Primeiras Impressões, que posteriormente se tornaria Orgulho e Preconceito. De um vislumbre de Sr. Darcy, Frederick logo passa a exibir pequenos traços do amistoso Sr. Tilney devido ao aprofundamento de seu relacionamento com a jovem escritora graças aos livros que ele lhe emprestara gentilmente, criando um vínculo maior entre eles. Durante e após isso, Frederick também revela uma face mais sensível e encantadora, digna de Edward Ferrars e tão gentil quanto Edmund Bertran, sempre demonstrando o bom senso e a inteligência do Sr. Knightley, para não falar na persistência e na firmeza do Coronel Brandon… No final, um apaixonado que escreve cartas dignas do seu xará, Frederick Wentworth.

Carolyn V. Murray ainda construiu cenas mais do que satisfatórias e verossímeis entre Jane e a sua irmã Cassandra, grande responsável, no livro, por unir a irmã e o tenente. As relações familiares dos Austen também foram arquitetadas com excelência de modo muito crível e os rascunhos que Jane traça de Razão e Sensibilidade e Orgulho e Preconceito conforme o que acontecia ao longo do livro foram uma particularidade interessante que enriqueceu a história também.

As únicas críticas talvez residam no fato que em algumas ocasiões a autora traçou uma Jane exacerbadamente emotiva, romântica e com vislumbres de insensatez em contraposição à nossa Jane que demonstrou ser mais sensata no pouco que nos deixou. Mesmo se tratando de uma obra de ficção, por se basear na Jane, ela podia ter evitado alguns desses momentos mais efusivos.

O que importa, no entanto, é que as virtudes do primeiro romance de Murray excederam as pequenas falhas. E, por mais que soubéssemos o rumo inevitável que o livro tinha que tomar, a autora nos conduziu com maestria a um desfecho surpreendentemente emocionante dentro do inevitavelmente previsível.

Por fim, vale lembrar que o livro se trata de uma ficção inspirada no que poderia ter acontecido entre Jane e um jovem que, segundo Cassandra, nutria grande afeição por ela quando se conheceram no litoral. Não é um relato biográfico rigoroso ou preciso, portanto deve ser julgado de acordo com seu gênero literário e com a proposta da autora, que foi bem-sucedida em cumpri-la. Jane by the sea é uma leitura altamente recomendável: leve, doce e espirituosa, que acaba assumindo um tom relativamente dramático perto do fim de modo a emocionar até o mais impenetrável dos corações. Que venha o filme!

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Título: Jane by the Sea
Autor: Carolyn V. Murray
Editora: 
Sandclastle Press
Idioma:  Inglês
Assunto: Biografias – Literatura
Ano:  2015
Onde comprar:

Cultura | Amazon

Enza G. Said

Capixaba, acadêmica de Direito, amo a cultura inglesa, mas sonho em morar no sul da França. Sou apaixonada por música clássica, chá, cheiro de chuva e filmes antigos; passo horas relendo trechos dos meus livros favoritos e toco piano nas horas vagas. Contato: enzasaid@gmail.com

  • Tamires

    Parabéns, Enza, pela resenha! Tomara que este livro seja publicado em português!!! Também estou ansiosa pelo filme!!! 😀

    • Enza Said

      Obrigada, Tamires <3
      Vamos torcer para que publiquem! Não vejo a hora do filme sair 😀