Jane Austen: uma mulher de influência

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Graças ao seu humor ácido e às suas personagens femininas fortes, as obras de Jane Austen ainda são extremamente relevantes. A autora Claire Harman pergunta: será que ela é a mulher de mais influência dos últimos duzentos anos?

Em 1811, uma solteirona de 35 anos de Hampshire tinha terminado o seu primeiro livro e o publicado anonimamente: Razão e Sensibilidade. By a lady. O romance conseguiu duas críticas breves e comedidas, vendeu quinhentas cópias e foi rapidamente esquecido. Mas, duzentos anos depois, todo mundo conhece Jane Austen. Ela não é apenas uma escritora, ela é cult, uma marca e um marco cultural.

Você certamente não teria previsto isso no próspero início de carreira da escritora. Nascida em 1775, a segunda filha de um vigário da Igreja da Inglaterra, ela era parte de uma casa não muito abastada em uma calma vila no leste de Hampshire. Cinco dos seus seis irmãos se casaram, mas ela e sua irmã Cassandra não (Cassandra ficou noiva, porém seu noivo morreu de febre amarela em 1797 e Jane recusou pelo menos uma proposta de casamento). Com vinte anos, ela terminou de escrever as primeiras versões de Razão e Sensibilidade e Orgulho e Preconceito, mas quando o seu pai escreveu para uma editora em 1797, oferecendo-a o manuscrito, eles o recusaram. Deve ter sido um dos maiores erros de todos os tempos da história das editoras.

No entanto, Austen não se desencorajou e, em 1803, uma editora comprou seu romance Susan por 10 libras (o equivalente a 350 libras hoje). Mas acabaram falhando em fazer qualquer coisa com ele. Então foi somente quando Razão e Sensibilidade apareceu em 1811 (quase vinte anos após ela ter começado a escrevê-lo) que ela finalmente se tornou uma “escritora publicada”. Todavia, ela não viu o seu sucesso, falecendo em 1817 com 41 anos de idade, de tuberculose ou câncer e, depois disso, seus trabalhos foram amplamente esquecidos. Ela conseguiu apenas 600 libras (atualmente menos de 20.000 libras) com seus livros no total.

Em seus últimos anos, Austen testemunhou a impressão da primeira edição de Emma em 1815, mas foi descartada após quatro anos com apenas 563 cópias vendidas de 2000. Persuasão e A Abadia de Northanger e até Orgulho e Preconceito foram esquecidos na década de 1820 e Austen parou de ser publicada por uma década. Sua sorte mudou apenas no final do século quando a sua primeira biografia foi escrita por seu sobrinho, James Edward Austen-Leigh. A sociedade vitoriana ficou fascinada com o exemplo da vida exemplar e tranquila da escritora e, depois, por seus romances.

Esse momento marcou a transição da obscuridade a ser uma das figuras literárias de mais influência de seu século e dos que viriam. É difícil de acreditar que seus seis curtos romances – sim, realmente são só seis – ainda são comprados em escalas de milhões (isso porque seu trabalho não tem mais copyright então não há nem como estimar quantos). A influência de Austen e o poder de sua literatura não são superestimados. Ela realmente alcançou milhões de pessoas ao redor do mundo, não apenas pelo número de idiomas para os quais suas obras foram traduzidas (35 na última contagem), mas porque há algo em seu trabalho com o que seu leitor se conecta instantaneamente. Nós a lemos porque sentimos que ela nos entende apesar de ter nascido dois séculos atrás.

De várias formas seus livros estão mais conectados com os nossos tempos e gostos do que com os dela própria. Na primeira crítica que fizeram dela, julgaram que ela tinha tomado a incumbência de iniciar uma “vontade de inovações” em seu tempo, mas seus livros agora parecem muito mais notavelmente originais do que qualquer coisa da época. Depois de tudo, vocês já leram qualquer coisa de Sir Walter Scott – contemporâneo de Austen – que vendeu proporcionalmente a mesma quantidade que JK Rowling tem vendido hoje? Austen simplesmente não era amada pelos críticos de seu tempo. Em 1817, a escritora inglesa Maria Edgeworth achou a trama de Emma enfadonha enquanto outra romancista contemporânea, Mary Russel Mitford, pensava que o humor de Elizabeth Bennet mostrava uma “completa falta de gosto”. Então talvez Austen estivesse tão à frente de seu tempo, que não pudesse ser completamente compreendida por seus contemporâneos. Através dos anos, nós temos amado o fato de que Lizzie sempre faz réplicas espirituosas (e se sai muito bem fazendo observações autodepreciativas tanto quanto admitindo que começara a amar Mr. Darcy quando ela viu Pemberley pela primeira vez). Austen sabia que seus personagens iam contra a maré e ela estava fora da linha de seu tempo. “Eu vou fazer uma heroína de quem ninguém além de mim goste muito”, ela disse enquanto acertava para escrever Emma.

Fora de seu tempo

É uma pena que Austen nunca tenha visto o seu legado. Nós levamos o seu trabalho a outras dimensões, de tal forma que há infinitas adaptações cinematográficas e para a TV, sequências, prequências, mash-ups e homenagens. Justo quando pensamos que Colin Firth em sua camisa molhada não pode ser batido, ou o brilho de Bollywood de Noiva e Preconceito o ultrapassou, vem PD James com um novo mistério, Death Comes to Pemberley e Joanna Trollope anuncia que irá transformar Razão e Sensibilidade em um romance contemporâneo. Estamos constantemente expostos às maneiras de Austen, seus princípios, seu jeito de olhar as mulheres e isso tem moldado nosso modo de ver todo tipo de coisas.

É claro que os livros de Austen também têm um apelo mais superficial. Ela, incomparavelmente, nos atrai a um mundo fantástico de chapéus e fofoca –  “alimento literário confortável” aponta Lori Smith. É um mundo onde há homens solteiros de boa fortuna como o Mr. Darcy em cada esquina, em posse de um lar imponente e em busca de uma esposa. É algo para todos os públicos: um grande enredo, finais felizes (sempre), carruagens, vestidos e romance. Pense nas melhores cenas de amor que você já leu… quantas delas podem ligeiramente ser comparadas à paixão discreta ou ao desejo infinito das de Austen? Há uma influência dela na forma como vemos o amor e nosso voraz apetite para isso… quase metade de todos os livros brochura publicados agora são romances e Austen é a reconhecida mãe do gênero. Ela pegou o velho enredo de romance e adicionou várias mudanças na trama, centralizando-a no ponto de vista, nos gostos e desejos da heroína. A colunista do Guardian, Zoe Williams, acredita que a maior e principal influência de Austen é a de que “o coração quer o que quer: a ideia de que o verdadeiro amor de uma pessoa é mais importante do que suas obrigações sociais. No próprio século de Jane Austen, essa ideia teria sido considerada um tanto repugnante”.

Significantemente, os livros de Austen têm um humor astuto interminável junto com um cinismo também incomum para o seu tempo. Ela foi uma das primeiras mulheres a dar humor e inteligência ao que antes era considerado frívolo e sub-intelectual. Harold Bloom, crítico literário e professor titular de Humanidades e Inglês na Universidade de Yale, acredita que a visão ácida e cômica de Austen tem influenciado de tal maneira que ajudou a determinar quem nós somos tanto como leitores tanto como seres humanos. Wlliams diz que “ela tem afetado histórica e nacionalmente o nosso senso de humor, definindo essas incríveis artes inglesas de atenuação das coisas, de ironia e de uma adoravelmente sarcástica compaixão”. Seu engenho também teve uma enorme influência na cultura moderna. “Austen teve um profundo efeito no nosso senso de humor. Escritores, desde Zadie Smith a Jilly Cooper e mesmo comediantes como Miranda devem muito a Austen”, afirma a bibliotecária da School of Life, Ella Berthoud.

Uma voz feminina

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Os primeiros leitores de Orgulho e Preconceito ficaram surpresos que aquele livro tão inteligente pudesse ter sido escrito por uma mulher. É claro que ele é o livro de onde as frases mais famosas de Austen vem: “É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro em posse de uma boa fortuna deve estar em busca de uma esposa”. O dramaturgo Richard Sheridan aconselhou um amigo a comprá-lo “imediatamente” pois era “uma das coisas mais inteligentes” que ele havia lido – um enorme elogio vindo de um homem da Era Regencial. Austen parecia entender muito da tolice alheia e eram tão profanas que nada a chocava. É uma forma de compreender a sátira que se tornou uma marca nacional: ser cínico com um sorriso educado, mantendo o tom de voz “claro, brilhante e incandescente” como Austen objetivava fazer.

Suas personagens serem mulheres fortes e espirituosas pode ter surpreendido aqueles que conheciam Austen… ela não simpatizava abertamente com contemporâneas radicais como Mary Wollstonecraft, a escritora britânica que advogava em favor dos direitos das mulheres. Austen era mais sutil, mas ainda é uma das primeiras autoras a sugerir que mulheres deveriam se casar por amor e não para se elevar socialmente ou por dinheiro. Ela deu às suas personagens femininas o direito de serem felizes também – um direito com o qual nós temos como certo agora mas que certamente não era tido da mesma forma na Inglaterra Regencial. Persuasão, seu último romance completo, é ousado a ponto de sugerir que a felicidade reside na coragem de uma mulher de agir apaixonadamente.

De fato, todos os seus romances lidam com as escolhas que ser uma mulher envolvem embora ela se recuse a diferenciar seus personagens por gênero e sirva tolos num prato independentemente de seu sexo. Ela guardou a maioria de suas críticas mais duras não para a estupidez do sexo masculino, mas pelas forças que estavam por trás dela – os princípios, as posses e o dinheiro. E funcionou. Ela sempre foi amplamente lida por homens e louvada por sua racionalidade. Isso demonstra como ela se aproximou da política e do sistema da época, que era rígido e manipulado por homens, utilizando seus romances como voz para seus comentários sociais.

Ela também ressaltou que mulheres não poderiam herdar propriedades e riquezas, isso fazia com que muitas fossem destituídas de seus lares e desamparadas quando os maridos faleciam. É um assunto bem sombrio e que muitas romancistas do tempo se abstiveram de comentar. E, ainda assim, suas personagens femininas estão sempre lendo, sempre bem-educadas e bem versadas em literatura.

Criticada por ser “limitada” e provinciana, Austen focava no que conhecia. Ela podia certamente receber algum crédito por levar o comum à literatura, ela podia escrever sobre uma discussão amorosa, podia escrever sobre um pedido de casamento, podia escrever infinitas cenas de confrontos domésticos porque essas eram as coisas que ela conhecia. Ela elevou o trivial ao status de arte e nunca tentou adivinhar como homens falavam ou se comportavam entre eles. Olhe para todas as obras de Austen e não vai encontrar uma única cena na qual não há uma mulher presente. A habilidade de se manter apenas ao que ela conhecia foi como ela conseguiu ter controle completo sobre o seu trabalho. Todos reconhecem as situações com as quais ela lidava: como Lord David Cecil comentou em 1948, “Emma é universal justamente por ser limitada”. Ela mostrou que um escritor não tem que ir muito longe em temas atuais ou históricos a fim de se tornar relevante: há um bom tanto de conteúdo humano bem à sua frente.

Helen Fielding incorporou bem o espírito da coisa quando remodelou Orgulho e Preconceito em O Diário de Bridget Jones. “As tramas de Jane Austen são muito boas e têm sido procuradas no mercado por séculos, então eu simplesmente decidi roubar uma delas“, ela disse. “Pensei que ela não se importaria e, de qualquer forma, ela está morta”.

Os romances de Austen até inspiraram um novo gênero: a mistura literária que tem colocado as heroínas de Austen em um mundo infestado de zumbis e assassinatos. Há sites que dividem toda a literatura em dois grupos: livros relacionados à Jane Austen e livros não-relacionados à Jane Austen. Austen ainda é relevante, de fato, ela é um estilo de vida.

Fielding e outros autores como ela também já se beneficiaram com Austen de modo mais sutil: graças à ela, o romance é tido como  uma forma de arte nas quais as mulheres são excelentes. Ela colocou muito mais do que uma história de amor em seus livros: ela modernizou o romance praticamente sozinha, com uma trama racionalizada, menos descrições físicas, mais diálogos realistas. Suas obras ainda aparecem em top 10 de leituras obrigatórias e seu trabalho mais famoso, Orgulho e Preconceito, foi eleito O Livro Que A Nação Não Pode Viver Sem no The Guardian em 2007 (a Bíblia ficou em sexto). Do humor aos direitos femininos, do romance aos princípios, não há como negar que a vida de Austen e seu poder literário ainda são bem relevantes no século XXI.

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Fonte: http://www.stylist.co.uk/

Enza G. Said

Capixaba, acadêmica de Direito, amo a cultura inglesa, mas sonho em morar no sul da França. Sou apaixonada por música clássica, chá, cheiro de chuva e filmes antigos; passo horas relendo trechos dos meus livros favoritos e toco piano nas horas vagas. Contato: enzasaid@gmail.com

  • Magda Amaral

    Excelente resenha!

    • Maria Sônia Oliveira

      Obrigada, Magda! Mas não é uma resenha. É um artigo sobre Austen, sua época, suas inspirações para escrever e seu legado. Beijos!

  • Luciana Campelo

    Obrigada pela tradução! Eu admiro muito a Jane Austen, a minha escritora preferida. Tudo sobre ela me interessa muito. Bjs

    • Maria Sônia Oliveira

      De nada. Eu estou sempre pesquisando mais sobre Austen para que esse conhecimento chegue aos Janeites do Brasil. É difícil ter matérias tão detalhadas da vida dela e dos livros em português, então fazemos as traduções. Beijos!

  • Jeanne Cardoso

    os livros de Jane tem uma crítica social tão sutil, que suas ironias só são percebidas quando temos uma boa compreensão da sociedade em que ela vivia. Eu tive de ler Orgulho e Preconceito muitas vezes para perceber que o livro transborda cinismo. Definitivamente não é para os fracos…
    historialivrosfilmes.blogspot.com