Jane Austen – Parte II: nos vemos em Waterloo

What_would_Jane_do__by_dop12cpia

Jane Austen nasceu em 16 de dezembro de 1775, em Steventon, Hampshire, filha do reverendo George Austen – pároco anglicano local – e sua esposa, Cassandra. Teve seis irmãos e uma irmã mais velha, Cassandra, que foi sua melhor amiga e confidente a vida inteira.
Nunca se casou – embora saibamos que tenha recebido pelo menos uma proposta, em 1802, de Harris Bigg-Wither, irmão de amigas das irmãs Austen. Jane até chegou a aceitar, imagina-se que pela possibilidade de dar um maior apoio financeiro à família, mas no dia seguinte, desfez o compromisso.

Henry Gillard Glindoni (English, 1852-1913)

Henry Gillard Glindoni (English, 1852-1913)

Ela teve uma educação formal entre 1783 e 1786, primeiro em Oxford e depois em Southampton, mas a família não tinha recursos suficientes para manter as duas filhas na escola, de modo que elas tiveram de voltar para casa e o resto de sua instrução foi através da vasta biblioteca do pai – a qual Jane teve um acesso irrestrito.

É bom compreender aqui o momento histórico em que o mundo vivia, antes de estendermos as ramificações das obras de Austen.
O mundo – e, por mundo, devemos aqui entender especialmente a Europa – estava em convulsão. Entre 1789 e 1848, passamos por três grandes revoluções: a Francesa, de 1789, que derrubou o Absolutismo; a Liberal, de 1830, retratada por Victor Hugo em Os Miseráveis e a Primavera das Nações, de 1848, com as revoltas do proletariado.

Especificamente no período de vida de Jane Austen – de 1775 a 1817 – temos a revolta das colônias americanas (que viriam a se tornar os Estados Unidos da América em 1783), a queda da Bastilha, o Terror, a ascensão de Napoleão e a guerra quase ininterrupta entre França e Inglaterra (com uma única trégua de dezoito meses, entre 1801 e 1803).

A Inglaterra, por sua feita, vivia um período de crise tanto externo quanto interno. Primeiro, óbvio, a guerra contra a França – que viria mesmo a bloquear os portos de todo o território sob seu poder, tentando com isso acabar com o comércio inglês (motivo este pelo qual a família real portuguesa saiu corrida de Lisboa e veio parar no Brasil). Segundo, a instabilidade mental do rei, George III.

Em 1788, George III teve um dos primeiros ataques do que, mais tarde, se viria a ser considerado porfiria – uma doença genética – dirigindo-se a árvores como se estas fossem colegas de coroa, ameaçando e desconhecendo adversários e aliados.

en.wikipedia.org

en.wikipedia.org

O Príncipe de Gales, George, assumiu o reino enquanto o pai esteve impossibilitado (houve, inclusive, boatos de que o rei teria sido envenenado), enquanto o Parlamento discutia se tal regência seria temporária ou definitiva – constitucionalmente falando, a loucura de George III o fazia morto para o trono.

Enquanto se discutia sua sucessão (ou não), o rei voltava a si, no final 1789, e ainda viria a reinar até 1811, quando aceitaria a necessidade de um Regency Act. No final desse ano, ele voltou a adoecer, sendo recolhido no Castelo de Windsor até sua morte, em 1820, quando o regente foi coroado, passando a ser o rei George IV.

Este período da história da Inglaterra é por isso chamado de Regência e é considerado uma era de transição entre a Era Georgiana e a Era Vitoriana.

Apesar das incertezas desse período, a sociedade inglesa da Regência caracterizou-se por um ambiente amplamente favorável às artes – a literatura, a música, a arquitetura – tendo entre seus patronos o próprio Príncipe Regente e a Duquesa Georgiana de Devonshire, ambos lideranças não apenas políticas e sociais, mas também de estilo e moda.

A bem da verdade, essa foi uma época bastante liberal – e liberal, inclusive, nos excessos; o estilo glamouroso da aristocracia em contraste com a pobreza que imperava nos estratos inferiores da sociedade.

A valsa é trazida do Continente para os salões ingleses, escandalizando as matronas da sociedade.

As lamparinas a gás são introduzidas nas ruas de Londres. A escravidão começa a ser questionada, até ser banida definitivamente. Começa a Revolução Industrial. Mary Shelley escreve Frankenstein, enquanto Byron escandaliza a todos com seus poemas e seu modo de vida e Sir Walter Scott publica Ivanhoé. Na França, Balzac trabalha em sua Comédia Humana e na Alemanha, Goethe publica Fausto. Mozart, Bach, Beethoven, Paganini, Rossini, Schubert são todos também dessa época.

Se vocês lembram alguma coisa das aulas de história e literatura nos tempos de colégio, pelos personagens citados, já devem ter percebido o óbvio: estamos precisamente no auge do Período do Romantismo.

Philippe-Jacques de Loutherbourg. The Evening Coach, London in the Distance, 1805.

Philippe-Jacques de Loutherbourg. The Evening Coach, London in the Distance, 1805.

É nessa época de efervescência cultural e social que Austen viveu, embora, à primeira vista, tais mudanças não pareçam ter se infiltrado em sua obra – muitos críticos dizem (erroneamente) que Austen criou um mundo à parte em sua obra, completamente desviculado da realidade em que vivia. Aqui, porém, temos de nos lembrar que Jane passou grande parte de sua existência num vilarejo rural; onde pertencia à baixa nobreza, a classe dos gentis. Esse é o mundo que ela retrata porque esse é o mundo que ela conheceu.

Perceba-se que, se não se fala em Napoleão ou na guerra primeiro contra as colônias, depois contra o império francês, os militares estão quase que onipresentes em seus livros: a milícia em Meryton e nas figuras de Wickham e do Coronel Fitzwilliam em Orgulho e Preconceito; Sir John Middleton e Coronel Brandon em Razão e Sensibilidade, o general Tilney e seu filho, capitão Tilney na Abadia de Northanger; e a Marinha Real Britânica, representada por Capitão Wentworth e demais companheiros de Persuasão.

Persuasão é, de todos os títulos, aquele que mais referências históricas faz – ainda que elas sejam quase invisíveis para nós, porque são menções muito rápidas, de passagem e que não chamam tanto a atenção do leitor. É também a única história que traz uma data certa, que abre com o exato ano em que a história se desenvolve.

Persuasão começa por volta de junho para julho de 1814. Em abril desse ano, Napoleão abdicou do trono, sendo exilado para a Ilha de Elba, terminando assim, para todos os efeitos, a guerra – como se depreende do discurso de Mr. Shepherd, no início do capítulo 03, tentando convencer Mr. Elliot a alugar Kellynch Hall:

“- Peço autorização para observar, Sir Walter – disse o Dr. Shepherd uma manhã no Solar de Kellynch, pousando o jornal -, que a conjuntura atual nos é muito favorável. A paz fará desembarcar os nossos oficiais da Marinha, ricos. Vão todos querer casa. Não podia haver melhor altura, Sir Walter, para escolher inquilinos, inquilinos muito responsáveis. Fizeram-se muitas fortunas respeitáveis durante a guerra. Se um almirante rico nos aparecesse, Sir Walter…”

wentworths

http://www.janeausten.co.uk/

O ano, aliás, é pista bastante para entendermos como, exatamente, veio o capitão Frederick Wentworth a fazer sua fortuna – à época, cada navio aprisionado gerava um prêmio em dinheiro, uma percentagem para cada membro da tripulação.

Frederick já era comandante quando veio a conhecer Anne, no verão de 1806, tendo sido promovido “em seqüência de uma batalha ao largo de São Domingos”. As ilhas São Domingos, nas Américas, eram colônias da Inglaterra, França e Espanha, servindo como base para a produção de açúcar, no regime de escravidão. Espanha e Inglaterra abandonaram essa colônia ainda no século XVIII, deixando tudo para França. Aos poucos, a coisa toda foi degringolando para uma guerra racial entre os escravos e grande senhores de engenho, com uma manobra de invasão liderada pelo cunhado de Napoleão em 1802, na tentativa de restabelecer o controle francês sobre a colônia.

Resumo rápido da história: os escravos se aliaram aos ingleses para expulsar de vez os franceses da ilha, culminando assim com a independência da ilha, que se tornaria o que conhecemos hoje como Haiti.

1806, aliás, é também o ano em que Napoleão decreta o Bloqueio Continental, o qual ordenava que os portos dos países submetidos ao Império Francês fossem fechados para navios da Grã-Bretanha.

Estamos por volta de fevereiro de 1815 quando chegamos ao final do livro, quando Napoleão decidiu que o clima de Elba não casava muito bem com ele e fugiu de volta para França, junto com um exército, reconquistando o poder e iniciando o “Governo dos Cem Dias”, até ser definitivamente derrotado pela coalizão anglo-prussiana na famosa Batalha de Waterloo, em 15 de julho. Provavelmente, se o livro tivesse continuado até depois do casamento de Frederick e Anne, teríamos visto o capitão ser convocado para se apresentar, uma vez que os tempos de paz teriam acabaram.

A determinada altura, Anne diz, sobre o almirante Croft, cunhado do Capitão Wentworth, “esteve na batalha de Trafalgar e, desde então, tem estado nas Índias Ocidentais; foi destacado para lá, creio, há vários anos”, o que se refere à batalha naval de 21 de outubro de 1805, ao largo do cabo de Trafalgar, na costa espanhola, com a esquadra inglesa comandada pelo herói nacional Almirante Nelson (que morreu após os combates, antes de chegar à Inglaterra), batalha esta em que Napoleão perdeu o controle do Atlântico, possibilitando inclusive a retirada estratégica da família real portuguesa para o Brasil.

Uma curiosidade: dois irmãos de Austen fizeram carreira e fortuna na marinha, exatamente por essa época.

E pensar que tem autores que dizem que Jane Austen não escreveu absolutamente nada sobre o que estava acontecendo à época… O fato de ela não falar abertamente sobre a guerra com Napoleão não significa que ela era alienada do que estava acontecendo no mundo ao seu redor.

Na próxima parte do artigo, após termos tratado dos homens de armas – que eram praticamente uma classe à parte na sociedade extremamente estratificada da época – vamos cuidar dos cavalheiros… Como diria o Barão de Itararé… “quem inventou o trabalho não tinha o que fazer”.

Não se preocupem, vocês entenderão o sentido dessa frase no contexto da próxima parte. E, mais tarde (tão logo eu esteja razoavelmente mais acordada) eu conto das minhas aventuras no Rio. Até lá, pessoal!

(Continua em “O trabalho dignifica o homem”)

vector_persuasion

Texto do blog:Coruja em Teto de Zinco Quente

Luciana Darce

Sou uma bibliófila desde que me entendo por gente e leio praticamente de tudo um pouco. Administro o Coruja em Teto de Zinco Quente e sou mediadora de um clube do livro voltado ao debate de clássicos. E nas horas vagas, sou advogada. Você pode me encontrar escrevendo para luciana.darce@gmail.com