Jane Austen e a arte de escrever cartas

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Imagem de Jane Austen, da obra The Complete Letter Writer, domínio público via Ingrid Tieken-Boon van Ostade

Não, a imagem acima não é uma gravura de Jane Austen recentemente descoberta. Ela foi retirada da minha edição de The Complete Letter Writer, publicada em 1840, após a morte de Austen, em 1817. Manuais de escrita de cartas eram populares ao longo do tempo de vida de Jane Austen, e o texto da minha edição é muito parecido com o das edições anteriores deste livro, publicadas a partir da metade do século 18. É possível, então, que Jane Austen tenha tido acesso a um desses manuais.

Manuais de escrita de cartas tinham “cartas conhecidas das situações de vida mais corriqueiras”, e apresentavam exemplos de como uma carta deveria ser para pessoas que precisavam aprender a arte de escrevê-las. The Complete Letter Writer também apresenta uma gramática da língua inglesa, com regras de ortografia, uma lista de pontuações e um total de oito categorias gramaticais. Se Jane Austen tinha uma cópia deste livro, ela provavelmente teve acesso a todo esse conteúdo também.

Mas eu duvido que ela o tivesse. Seu pai tinha uma biblioteca enorme, e Austen era uma leitora voraz. Em famílias refinadas como a dela, o conhecimento sobre a escrita de cartas era geralmente herdado da família. “Somente agora eu entendi que a verdadeira arte de escrever cartas, sobre a qual sempre ouvi falar, é para expressar no papel o que uma pessoa falaria a outra numa conversa cara a cara”, escreveu Jane Austen a sua irmã Cassandra, em 03 de janeiro de 1801, e acrescenta: “Eu tenho conversado com você o mais rápido que posso nessa carta inteira”. Mas eu não acredito que a biblioteca de George Austen tivesse alguma gramática da língua inglesa. Ele ensinava a garotos em domicílio, com o objetivo de prepará-los para os estudos futuros, mas ele os ensinava latim, e não inglês.

Isso é “extremo” bom

Jane Austen não aprendeu a escrever com um livro – ela aprendeu a escrever com a prática, desde muito jovem. Sua obra Juvenilia, uma coletânea fascinante de histórias e contos, que ela escreveu a partir dos seus 12 anos de idade, permanece como prova de como ela se desenvolveu enquanto autora. Suas cartas também demonstram isso. Acredita-se que ela tenha escrito cerca de 3.000 cartas, das quais restaram apenas 160, muitas dessas destinadas a Cassandra.

A primeira carta que chegou a nós soa um pouco estranha: não tem uma introdução e tem advérbios sem flexão –  “Nós fomos tão extremo bons em levar James em nossa carruagem”, uma forma que ela iria empregar mais tarde para distinguir o que ela chamava de personagens “populares” – e conclusões atípicas: “sua sempre J.A.”. Seria essa a sua primeira carta?

Cassandra não era a única pessoa com quem ela se correspondia. Há cartas para seus irmãos, amigos, sobrinhas e sobrinhos, bem como para seus editores e alguns dos seus admiradores, com quem ela desenvolveu, ao longo do tempo, uma relação um pouco mais íntima. Há também uma carta para Charles Haden, o farmacêutico bonitão por quem, dizem, ela se apaixonou. A sua conclusão incomum, “Adeus”, insinua uma espécie de namoro no papel. A linguagem das cartas demonstra como ela modificava o seu estilo de acordo com quem era o destinatário de suas cartas.

Ela usava a palavra diversão, considerada uma palavra “inferior” naquela época, apenas com os membros mais jovens da família Austen. Jane Austen adorava anedotas linguísticas, como demonstrado na carta invertida enviada a sua sobrinha, Cassandra Esten: “Ahnim adireuq Yssac, et ojesed mu zilef ona ovon”, e ela registrou a incapacidade do seu pequeno sobrinho George em pronunciar seu próprio nome: “Eu me sinto lisonjeada pelo pequeno Dordy não se esquecer de mim por pelo menos uma semana”

Mina de ouro linguística

É fácil perceber como as cartas são uma mina de ouro linguística. Elas nos mostram como Austen gostava de falar com seus parentes e amigos, e o quanto ela sentia saudades da sua irmã quando elas estavam longe uma da outra. Elas nos mostram o quanto ela, assim como a maioria das pessoas daquela época, dependia do correio para ter notícias de seus amigos e família, e como o dia não era completo sem a chegada de uma carta. No aspecto linguístico, as cartas nos mostram uma escritora cuidadosa (mesmo que ela tivesse preferências ortográficas diferentes das que eram usadas na época) e alguém que conseguia adaptar a sua linguagem, bem como seu uso da gramática, ao destinatário.

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Foto da escrivaninha, Ingrid Tieken-Boon van Ostade.

Todos os seus escritos, cartas e obras de ficção, foram feitos em uma escrivaninha, parecida com a que é apresentada em The Complete Letter Writer, e parecida com a minha. Um presente do seu pai no seu aniversário de 19 anos, a escrivaninha, juntamente com as cartas escritas nela, está em exibição como um dos “Tesouros da Biblioteca Britânica”. A escrivaninha portátil viajava com ela para todo lugar. “Descobriu-se que meus baús de escrever e de vestir foram colocados acidentalmente em uma carruagem que estava partindo assim que nós chegamos”, ela escreveu em 24 de outubro de 1798. Um desastre eminente, já que “no meu baú de escrever estava toda a minha riqueza mundana”.

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Esse artigo foi originalmente publicado no blog da OUP.

Crédito das imagens: (1) Imagem de  Jane Austen, da obra The Complete Letter Writer, domínio público via Ingrid Tieken-Boon van Ostade (2) Foto da escrivaninha, Ingrid Tieken-Boon van Ostade.

Traduzido do: https://blog.oxforddictionaries.com/

Mariana Almeida

"Apaixonada por idiomas e todo o universo textual, trabalha com revisão e tradução (inglês-português) nas áreas de meio ambiente, administração, marketing, linguagem, literatura, sociologia e autoajuda. Formada em Letras e em Administração, especialista em Comunicação Empresarial, especialista em Tradução, mestre em Ciências Humanas e Sociais, atua também como professora universitária, orientadora de trabalhos de conclusão de curso na área de comunicação, participação em bancas examinadoras de trabalhos, em eventos na área científica (congressos, seminários, simpósios) como ouvinte e como expositora, com artigos publicados em periódicos científicos."