Jane Austen de ressaca

Jane Austen escreve uma carta para sua irmã enquanto estava de ressaca: “Eu acredito que eu bebi muito vinho na noite passada”

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Rolinda Sharples (Clifton Assembly Rooms, 1817)

Em uma época em que as pessoas se oferecem em cada gesto como subsídios a seu público nas adoradas mídias sociais, é um pouco difícil de imaginar viver uma vida tão privada como Jane Austen (1775-1817) fez. E, no entanto, a impressão que temos dela como tímida e reservada é enganosa. Ela não alcançou a fama literária durante a sua vida, é verdade, e não é claro que ela o desejasse. Como seu sobrinho James Edward Austen-Leigh escreveu no livro Memorias de Jane Austen (1870), um esboço biográfico que ajudou a popularizar Jane Austen no século 19, “seus talentos não a apresentou ao conhecimento de outros escritores, ou a conectou com o mundo literário, ou em qualquer outro nível perfurou através da obscuridade de sua reclusão doméstica”. No entanto, reduzir a personalidade de Austen, como Austen-Leigh fez à “retidão moral, ao sabor correto e as afeições com que investiu em seus personagens ideais” perdeu sua inteligência feroz e complexidade.

O retrato do sobrinho de Austen fez dela parece que está preocupado na preservação desses cânones de decoro que ela escrupulosamente documentou e satirizou em suas novelas. Talvez isso seja em parte porque ele a descrevia como uma pessoa muito tímida. Mas sabemos que Austen manteve uma vida social animada e se correspondia regularmente com seus amigos e familiares. Suas cartas, algumas delas extraídas na biografia de Austen-Leigh, nos dá a nítida impressão que ela usava suas cartas para praticar descrições afiadas que ela traçava nos romances sobre os modos e criticas da sua classe social. Assim é surpreendente quando seu sobrinho nos diz que nós “não devemos esperar muito delas”. ”O estilo é sempre claro”, ele opina, “e geralmente animado, enquanto uma veia de humor continuamente brilha em tudo; mas os assuntos podem ser pensamentos inferiores para a realização, pois trata-se apenas de detalhes da vida domestica. Não há nelas nenhuma nota sobre politicas ou eventos públicos; quase nenhuma discussão sobre literatura, ou outro assunto de interesse geral”.

O sobrinho de Austen não parece entender é o que sua legião de adoradores leitores e críticos, desde então, veem em suas obras: em Austen os “detalhes da vida doméstica” são revelados como microcosmos da sociedade politica, dos eventos públicos, da literatura e “assuntos de interesse geral”. Austen-Leigh quase admite isso, quando compara as cartas de sua tia com “o ninho que algum passarinho constrói dos materiais que tem a mão, dos galhos e musgos fornecidos pelas arvores onde ele está; curiosamente construído das questões mais simples.” Nas mãos de Austen, no entanto, os pequenos dramas domésticos  nas propriedades rurais ao redor dela agem em qualquer coisa, mas de modo simples. As cartas desempenham um papel central em romances como Orgulho e Preconceito, como na maior parte das ficções deste período. As cartas sobreviventes de Austen valem a pena serem lidas como fonte de matéria para romances, ou vale a pena por si só, de tão agradável que é seu modo de falar e suas caracterizações.

Pegue a carta de novembro de 1800 que Austen escreveu para a sua irmã Cassandra (cartas preservadas na chamada “Edição Brabourne”). Austen começa por confessar: “eu acredito que eu tenha bebido muito na noite passada em Hurstbourne; eu não sei de que outra forma explicar a agitação das minhas mãos hoje”. Para o “desculpável erro” de sua ressaca, ela atribui “qualquer indistinção da escrita”. Ela então passa a descrever em detalhes vividos e muito espirituosos o baile que ela compareceu na noite anterior, tendo o risco de chatear sua irmã “porque está mais propensa a pensar muito mais dessas coisas na manhã depois que elas acontecem, do que quando o tempo tiver totalmente expulsado de sua lembrança”. Leia um trecho de sua descrição abaixo e veja se a cena não ganha vida diante de seus olhos:

“Havia muito pouco encanto, e como tal havia muita pouca beleza. Miss Iremonger não parecia bem, e a Mrs Blount era a única muito admirada. Ela apareceu exatamente como fez em setembro, como o mesmo rosto largo, uma bandeau de diamante, sapatos brancos, um marido rosa e pescoço gordo. As duas Misses Coxes estavam lá: eu percebi em uma os restos da moça vulgar e de amplas medidas que dançou em Enham oito anos atrás; a outra é uma moça refinada em uma agradável e composta aparência, como Catherine Bigg. Eu olhei para Sir Thomas Champneys e pensei na pobre Rosalie; olhei para sua filha, e pensei nela como um animal estranho com pescoço branco; Mrs Warren, eu me vi obrigada a pensar, uma mulher jovem muito fina, que eu lamento muito. Ela se livrou em algum momento de sua criança, e dançou muito ativamente parecendo sem ter muito significado. Seu marido é feio o suficiente, mais feio ainda que o primo John; mas ele não parece muito velho. As Misses Maitlands são ambas quase bonitas, muito parecidas com Anne, pele morena, grandes olhos escuros e uma boa dose de nariz. O general tem gota e Mrs Maitland tem icterícia. Miss Debary, Susan e Sally todas de preto e sem qualquer estatura, fizeram suas aparições e eu fui civilizada com elas tanto quanto seus maus hálitos me permitiam.”

Você pode ler a carta na integra no Letters of Note, que incluiu a excelente coleção de correspondência, More Letters of Note. Para mais informação e outras cartas para Cassandra neste período, veja esta seção em Cartas de Austen na Brabourne.

Fonte: Open Culture

Marcia Bock Belloube

Tradutora e revisora, apaixonada por livros, filmes e cultura britânica. Fã e leitora incondicional de Jane Austen e Chalortte Bronte, mas não recuso um bom livro de escritores contemporâneos.