Fé e Desânimo (Emily Brontë)

Emily Brontë

Emily Brontë

“O inverno com seu vento alto e fero,
Minha criança, veio pra mais perto.
Esqueça os livros e as brincaderinhas
E, enquanto o céu recolhe-se cor cinza,
Falemos por horas e horas ainda; –

“Iërne, próxima à entrada do abrigo,
Chama por Novembro sem nenhum ruído;
Brisa alguma que entrar aqui alcança
Ondular os cachos de minha criança,
E eu me honro em assistir a luz brilhar,
Raios mímicos, vinda de seu olhar,
Para que eu sinta, apertada um pouquinho,
Sua calma em meu peito de mansinho.

Porém ainda, ainda este sossego
Traz-me pensamentos amargos, negros;
E, na luz jovial de uma fogueira,
Penso na neve em áreas muito estreitas;
Sonho co’um mouro numa colina e névoas
Onde a manhã vem fria, fria e trevas;
Pois, a sós, junto a picos congelados,
Jazem os que amei em tempos passados.
E meu coração dói sem esperança,
Cansado dos lamentos sem usança
De que eu ainda iria reencontrá-los!”

“Pai, em remota infância,
Quando estavas além, além do mar,
Pensar assim – assim me excruciar!
Com frequência sentei, horas e horas,
Por longas noites de atmosfera irosa,
De pé da cama só pra divisar
O céu contra a escuridão do luar;
Ou, à escuta, capturar o choque
De pedra e rocha, rocha e pedra, o que
Só me mantinha em temeroso zelo
Que me impedia o sono, por mantê-lo.

“Oh! não por eles nós nos afligimos,
Os túmulos sombrios – e vazios:
O pó de um e o pó de outro estão unidos –
Seus espíritos, a Deus conduzidos!
Tu me disseste isto e ainda vês,
Choras que quem amamos vai morrer.
Ah, querido pai, dize-me: por quê?
Pois se tuas palavras não mentiam,
Sem razão é sofrer essa agonia;
Sábio é chorar sementes germinadas
Pelas árvores-mãe ignoradas,
Prontas para um nascimento radiante –
Enraizadas as raízes, grande
O fulgor de seus ramos, verdejante!

“Mas não temo, meu pranto não derramo
Por estes que em paz estão descansando, –
Sei que existe uma praia abençoada
E a mim existem portas descerradas;
E, fixa em águas do Tempo tamanhas,
Canso-me destas terras santas
Onde nascemos, onde eu e você
Vamos estar bem, logo após morrer;
Livres da corrupção e do infortúnio,
Juntos a Deus, juntos.”

“Falaste afinal, ó doce criança!,
E mais sábia que teu pai;
E as tormentas do mundo, em raiva e raiva,
Fortificarão tua ânsia –
Tua esperança ardente, além do tempo,
Além do vendaval,
De chegar à morada eterna a tempo:
Para sempre igual!”

***

Dormir não traz alegria
E a lembrança não termina;
Minh’alma é dada à ruína,
E suspira.

Dormir não traz, não traz calma;
As sombras dos que morreram
Meus olhos não perceberam
Na almofada.

Dormir não traz esperança;
Chegam no sono profundo
E, em devaneio iracundo,
Cravam minha desgraça.

Dormir não traz robustez
Ou poder para a bravura:
Vago no mar, onda escura
E escassez.

Dormir não traz um amigo
Que me acalme ou ajude:
Zombar é sua atitude.
Eu me aflijo.

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Tradução de Mateus Maverico
http://matheusmavericco.blogspot.com.br
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┼Ψ╬† sσnia ┼Ψ╬┼

Gosto de tudo da Inglaterra: literatura, filmes, séries, sitcons, sotaque, educação, polidez, costumes, parques, praças, arquitetura… Tudo! Fui Influenciada pela literatura inglesa que eu li avidamente. Morar lá é o meu objetivo de vida.