Emma: uma releitura moderna

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Conforme bicentenários vêm e vão, também o fazem as adaptações de Jane Austen. “Orgulho e Preconceito” (1813) gerou “Orgulho e Preconceito e Gatinhos” (2013), que não deve ser confundindo com “Orgulho e Preconceito e Zumbis” (2009). Em 2011, dois séculos após Austen iniciar suas publicações, o Austen Project encomendou releituras modernas de todos os seus seis romances.

O terceiro destes, a contemporânea “Emma” de Alexander McCall Smith, improvisa sobre o tema das descrições de Austen sobre os desígnios matrimoniais da heroína, transformando-a em uma promissora decoradora de interiores. McCall Smith também reimagina o enfermiço pai da mocinha como um germofóbico cheio de modismos gastronômicos, e revela que Harriet Smith – uma filha ilegítima na versão de Austen – nasceu de uma doação anônima de esperma.

Contudo, essa modernização não demonstra muito entusiasmo. Uma Emma do século XXI não iria pintar o retrato de sua amiga Harriet, como a protagonista de McCall Smith faz: ela publicaria uma foto no Instagram. Uma Emma verdadeiramente moderna habitaria uma tela de smartphone, não a grossa capa dura de McCall Smith (veja a série do YouTube “Emma Approved”, que coloca a senhorita Woodhouse como uma coach especialista em transformações pessoais). Por seu alheamento às mídias sociais, McCall Smith acaba ficando pra trás de outro escritor de mistérios, Reginald Hill, que encadeou e-mails numa adaptação do último romance incompleto de Austen.

Boas adaptações capturam o espírito do original: uma plebeia está para um aristocrata nos romances de Austen assim como uma estudante de colegial está para um universitário na adaptações em filme de Amy Heckerling em 1995, “Clueless” (no Brasil traduzido como “As Patricinhas de Beverly Hills”). A “Emma” de McCall Smith, em contraste, lê-se como uma tradução muito literal. Sua relutância em alterar detalhes anacrônicos o força a desperdiçar páginas explicando porque, numa época de educação universal, Emma teria uma governante, e porque, numa época em que o sobrecarregamento aflige até a outrora classe ociosa, ela não teria um emprego.

Os aforismos de McCall Smith ocasionalmente se aproximam do humor minimalista de Austen: “O único carro completamente seguro, o senhor Woodhouse pensava, era aquele resolutamente mantido na garagem.” Mas suas piadas genéricas sobre os “temas usuais de interesse adolescente (música, o sexo oposto, a incorrigibilidade dos pais, roupas e por aí afora”) são tão insossas quanto suas tentativas de profundidade: “ela estremeceu, e pensou: porque eu tremo quando penso em sexo? Todo mundo treme ou era só ela?”

A personagem mais ridícula de Austen, a solteirona tagarela senhorita Bates, é objeto de uma lição dos perigos de não saber quando se calar. A narrativa de McCall Smith carrega menos semelhança com a fria concisão de Austen do que as divagações agitadas da personagem.

Em outros lugares, McCall Smith parece confundir Jane Austen com George Eliot; Austen nunca teria pontificado acerca dos “súbitos saltos imaginativos que se encontram no âmago de nossa vida moral”. Nem ela teria descrito personagens que “brilham de prazer” – como oposto de brilhar com dor? Nem seu narrador teria explicado tautologicamente que a principal característica de Emma era “teimosia – um traço que você encontra em certas crianças que simplesmente não podem ser ditas o que fazer e que insistem em fazer as coisas do seu jeito”. Esqueça “Orgulho e Preconceito e Zumbis”. A “Emma” de McCall Smith se lê como um romance de Austen escrito por zumbis.

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Por LEAH PRICE
The New York Times

Imagens: https://www.facebook.com/austenproject/

Luciana Darce

Sou uma bibliófila desde que me entendo por gente e leio praticamente de tudo um pouco. Administro o Coruja em Teto de Zinco Quente e sou mediadora de um clube do livro voltado ao debate de clássicos. E nas horas vagas, sou advogada. Você pode me encontrar escrevendo para luciana.darce@gmail.com